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O espírito não sagrado em nós

Celio Sergio, um ser de fé, psicólogo clínico existencialista fenomenológico, jornalista desingner, diretor Executivo do jornal O Imparcial

Existe algo em você que, exemplificando como música, nenhuma nota musical explica nem a melodia que elas produzem. Não é o dó, nem o ré, nem a letra da canção. É o que acontece quando tudo isso chega junto, e de repente você sente vontade de chorar, ou de ligar para alguém, ou de ficar em silêncio. Esse algo tem nome. Eu o chamo de espírito. E não estou falando de nada sagrado.
A palavra “espírito” carrega séculos de religião, mas antes a palavra apontava para algo mais simples: o sopro, a força, o que anima. E esse significado original me interessa muito mais do que qualquer teologia.

Voltando ao exemplo, pense em uma música que você ama. Ela é feita de notas, de melodia, de letra, de ritmo. Cada uma dessas partes pode ser analisada, descrita, reproduzida. Mas há algo que acontece quando você ouve essa música completa, algo que não está em nenhuma nota individualmente. Os psicólogos da Gestalt tinham um nome para isso: o todo é maior do que a soma das partes.

Pense nas notas da escala musical: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. São sete. Mas a música que nos move não cabe nessas sete notas. Há uma oitava nota, invisível, que completa a harmonia de forma singular em cada pessoa que ouve, vamos chamá-la de “fé”. Essa nota não está escrita. Ela nasce do encontro entre a música e quem a recebe. Cada um a reproduz de um jeito único, intransferível. Essa nota “fé” dá completude ao que chamo de espírito. E é exatamente o que a fé, nas tradições religiosas, sempre tentou nomear, sem jamais conseguir capturar por inteiro.

O espírito, como eu o entendo, é exatamente essa dimensão de síntese. Não é uma coisa. É o que acontece entre as coisas. É a força que transforma informação em experiência, que transforma percepção em consciência, que transforma consciência em ação. Ele não mora em nenhum órgão do corpo. Não é o cérebro, não é o coração. É o que emerge da relação entre tudo isso , e entre você e o mundo.

E ele(o espírito)é, por natureza, não completamente alcançável. Assim como não se pode pegar o vento com as mãos , apenas senti-lo, vê-lo nas folhas, usá-lo para navegar, o espírito não se deixa capturar pela análise direta. Ele só se revela em movimento.

Há uma sequência que me parece fundamental para entender o espírito em ação: primeiro se tem ciência de algo , uma informação chega, uma percepção ocorre. Depois essa ciência se torna consciência, você não apenas recebe o dado, você o integra, ele ganha sentido dentro da sua história, do seu corpo, da sua forma de estar no mundo. E então vem o passo que revela o espírito: o movimento. O “ir para”.

Esse “ir para” não é necessariamente físico. Pode ser uma decisão que se forma. Um compromisso que nasce. Uma mudança de perspectiva que reorganiza tudo. O espírito, portanto, não é algo que se tem ou não se tem. É algo que acontece , ou não acontece, na relação entre você e a experiência. Quando você ouve uma música e ela o atravessa, quando você lê uma frase e ela muda algo em você, quando você encontra uma pessoa e sente que algo se reorganizou, aí está o espírito. Não veio do céu. Veio de dentro, e da relação com o fora.

Vivemos em uma cultura que valoriza partes. Currículos listam habilidades. Aplicativos medem desempenho. Notificações fragmentam a atenção em fatias cada vez menores. Há uma epidemia de pessoas que sabem muitas coisas e não entendem nada , que têm ciência de tudo e consciência de quase nada.

O espírito, essa força de síntese que emerge quando as partes se integram em uma totalidade vivida , é exatamente o que essa cultura fragmentada dificulta. Porque ele precisa de tempo, de silêncio, de presença. Ele aparece no instante. Ele aparece no momento em que você para, respira e deixa a experiência se completar.

Viktor Frankl, psiquiatra sobrevivente de campos de concentração, observou que mesmo nas piores condições humanas havia pessoas capazes de manter um movimento interior em direção ao sentido. Não porque tinham fé religiosa necessariamente, mas porque algo em sua estrutura psíquica conseguia integrar o horror, dando-lhe um contexto para continuar se orientando. Isso é espírito.

Dizer que o espírito não é divino não é diminuí-lo. É, ao contrário, devolvê-lo a quem precisa dele , incluindo aqueles que não têm religião, que perderam a fé, que nunca a tiveram, ou que simplesmente não conseguem mais acreditar em nada que venha de fora.

Se o espírito é uma potência psíquica de síntese que se revela na ação orientada pelo entendimento do todo , então ele está disponível para qualquer ser humano. Ele não requer credo, ritual ou salvação. Requer, sim, uma certa disposição: a de deixar a experiência se completar. A de não ficar apenas nas partes. A de perguntar não só “o que é isso?” mas “o que isso faz em mim?” e “para onde isso me aponta?”.

Há mais espiritualidade, no sentido humano, na lucidez genuína não religiosa, do que em mil rituais realizados sem presença. E há mais presença em quem consegue ouvir uma música e ser movido por ela do que em quem acumula informações sobre todas as músicas do mundo sem ser tocado por nenhuma.

O espírito não sagrado em nós não pede adoração. Pede atenção. Pede a coragem de deixar que as partes se reúnam em algo maior, e de deixar que esse algo maior nos mova. Não em direção ao céu. Mas, em direção à vida, que já está aqui.

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Celio Sergio
Celio Sergio Colunista