opinião

Fé fora de si, é “ma-fé” em si

Celio Sergio - Diretor Executivo do Grupo O Imparcial. Jornalista designer e psicologo pós-granduando em psicologia existencial e fenomenológica

Crer no abstrato, crer no incerto, no céu e no inferno, na casinha após a morte, é justificado pela fé. Essa fé está em acreditar em algo, alguém, em Deus, numa crença fora de si. Uma crença, gostando você ou não, é uma alienação humana. Uma experiência onde o homem vive se projetando ao futuro inexistente: esperando um céu que nunca chega ou fugindo de um inferno que talvez nem exista.

Essa corrida eterna para a improvável eternidade, impede muita das vezes, usando a palavra da moda, o engajamento no presente, o que Sartre chamou de “má-fé”: o aceitar viver sobre um regramento (divino), usando isso como desculpa para não assumir a liberdade de ser quem se é aqui e agora.

O ser humano é um ser lançado no mundo, e é neste mundo que se dá o sentido de ser.
Merleau-Ponty lembra que não somos espíritos trancados em corpos, mas corpo-vivência. Nesse sentido, a gente não é alma presa dentro de um corpo. A gente vive com o corpo todo. A fé, o amor e até o medo não acontecem só na cabeça, acontecem quando o corpo sente: no arrepio, no cheiro, no suor, no pegar, no toque do tambor, na dança.


Espiritualidade para mim é isso, sentir a vida em você.
Não crer nisso (voltamos a má-fé dita por Sartre) é acreditar que espiritualidade só acontece lá no céu, só depois da morte, só se eu for puro e ignorar tudo o que se sente aqui no agora é má-fé. É se enganar de propósito para fugir da responsabilidade de viver plenamente. É má-fé.


Assim, a escolha entre a fé e a má-fé, é uma escolha de sentido.
E o sentido da vida não cai do céu e nem aparece lá na frente, ele nasce na hora. É encarar o que acontece com verdade e coragem. Cada escolha sincera que a gente faz (a fé em si) é um pedaço do nosso sentido na vida, um pedaço do nosso céu ou inferno na terra. O resto é má-fé.


Fé fora de si é fuga. Mas fé em si é perceber que o sagrado pulsa no nosso peito, na pele e na palavra que escolhemos dizer. Essa fé encarnada de verdade pode e faz “milagres”. Porque enquanto uns oram para chegar ao céu, outros descobrem que o céu começa quando nos permitimos existir. E se há algum julgamento final, ele acontece toda vez que nos olhamos no espelho e decidimos entre a verdade de “dar fé” ao que somos ou a mentira da má-fé, que fingimos ser.

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Celio Sergio
Celio Sergio Colunista