opinião

A Surdez Intelectual

Celio Sergio - Psicólogo, Jornalista designer, diretor executivo do jornal O Imparcial

Você já ouviu a frase “a felicidade está na ignorância”? Ou que o conhecimento traz mais angústia do que prazer? Ao contrário do que se pensa, quando nos fechamos ao contraditório das nossas crenças, entramos em um processo que chamarei de surdez intelectual, uma incapacidade de ouvir o outro, diante do “capacitismo do saber”. E por falar em ouvir, para não polemizar com temas sociais, vou usar a música como exemplo.

É comum ouvir da geração 40+ a frase: “Só escuto música boa”. Mas quem definiu o que é “bom”? Aliás, é possível definir um conceito universal de “bom” quando se trata de música, ou de qualquer outra coisa?

O bom está no tempo presente. A música tem um papel identitário muito forte, ela marca fases da vida: juventude, relacionamentos, memórias familiares, enfim, compõe nossa formação. É algo maior do que gosto musical: é identidade, resistência à mudança, é a liberdade que o novo propõe.
Aquilo que os jovens chamam de bom, os mais velhos costumam chamar de “sem talento”. Por outro lado, os jovens consideram as músicas antigas “ultrapassadas” ou “chatas”. O jazz, o samba, o pagode, o forró, o sertanejo, o funk, o rap, o trap, todos têm suas riquezas e pobrezas. Existe conteúdo significativo e conteúdo superficial em todos os estilos musicais.

Me ouça: o bom é o sentido!


Para você, o que importa é o sentimento identitário que a música desperta, o quanto ela dialoga com suas crenças e experiências o quanto tempo toca. Mas “bom” não é o mesmo que “melhor”.
O que você chama de “bom” é apenas “o melhor na sua crença” para você, e está tudo bem assim. Só que, em vez de dizer “essa música é ruim”, talvez seja mais honesto admitir: “não consigo me reconhecer nisso”. Afinal, quando alguém diz “essa é a minha música”, não está dizendo que ela é a melhor do mundo, apenas que ela representa quem ele é, seu construto.

Usei a música como metáfora, mas o mesmo vale para a alimentação, para os hábitos e comportamentos. Todos seguem esse processo psicológico de formação de identidade.

O que é bom muda com o tempo, e nós deveríamos mudar também.
Valorizamos aquilo com o qual crescemos. O corpo para de crescer, mas a mente não precisa parar.

Permita-se crescer mentalmente. Em alguns momentos vai doer, sair da crença, daquilo que nós fez,dói! Mas, assim como na juventude o corpo doía ao crescer, hoje é a alma que sente a dor da necessidade do crescimento.

Crescemos acumulando afetos, desde o útero, e nunca esqueça: o primeiro som que emitimos na vida foi um choro, o desapego da barriga da mãe, para se permitir viver fora da caixinha.

Então, em bom tom, permita-se ouvir(viver) aquilo que você acha que não gosta. O choro pode vir, mas o crescimento também virá.

Não adianta gritar para ouvir ou ouvirem o passado. No mundo, na vida, a música do presente sempre será mais alta, e mais ouvida.

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Celio Sergio
Celio Sergio Colunista