opinião

A sombra, o verbo e o fruto da existência

Celio Sergio - Diretor executivo do Jornal O Imparcial, jornalista designer e psicólogo, pós graduando em psicologia existencial humanista e fenomenológica

Em tempos de polarização, é preciso ter cuidado com o que se fala. Você já ouviu a frase: “quando Chico fala de Francisco, sabemos mais de Chico do que de Francisco?” Pois é, o que verbalizamos é o “sumo” que produzimos como consequência de nossas angústias ou afetos.


Não somos apenas a soma das vivências conscientes; somos, acima de tudo, a manifestação daquilo que tentamos, muitas vezes sem sucesso, esconder de nós mesmos e do mundo. Sendo mais claro, chamo isso de uma racionalidade inconsciente: algo racional, com propósito, mas sem sentido aparente.


O psicólogo Viktor Frankl dizia que a principal busca do ser humano não é o prazer, mas o sentido. Nesse contexto, a angústia não é um inimigo a ser evitado. O pensamento racional e literal, voltado ao outro, ao parceiro, à ideologia, à família, ao trabalho, pode ser um chamado à ação. Na verdade é o “vazio existencial”, a crise do ser, que nos confronta com questionamentos sobre quem somos e qual é nosso propósito. A verbalização, então, emerge como resposta a esse chamado.


A raiva, o discurso, o desabafo podem revelar angústias reprimidas, em uma ação de “se fazer ser”. Por vezes, falamos o que não queremos. São os chamados atos falhos. Mas atos falhos não falham; são justamente o momento em que a sombra se faz verbo. É através da palavra que damos forma e sentido ao sofrimento, transformando a angústia, algo desagradável, em algo que pode ser enfrentado e superado.


Não falamos apenas para expressar o que já sabemos, não! A necessidade de falar, de “botar para fora”, pode estar conectada à teoria da sombra de Carl Jung. A sombra é o nosso lado obscuro, o reservatório de tudo o que reprimimos e negamos: medos, desejos inaceitáveis e, sim, as angústias mais profundas.


O falar inconsciente funciona como uma panela de pressão: nossas angústias saem como água em ebulição. Ao verbalizar algo, as palavras escapam como vapor, um processo aparentemente consciente, mas que carrega também partes da sombra. Esse vapor é o “sumo” que verbalizamos: muitas vezes amargo, resultado do confronto com aquilo que nos causa vergonha ou medo.


No processo de individuação e autoconhecimento, esse sumo não é dissolvido, mas trazido à luz da consciência, como quando abrimos a tampa da panela.


Nossas palavras, assim, são mais do que meros sons: são a ponte entre o consciente e o inconsciente. Essa ponte pode ser interpretada como o chiado da panela de pressão.


O suco da nossa vida vem do fruto da vivência, o sabor doce do prazer de existir, mas inevitavelmente, colhemos também frutos amargos: nossas angústias. Na mesma árvore, na mesma vida, nascem ambos. Coisas da natureza. Coisas humanas, que precisamos colher, ou melhor, acolher, seja no calor das emoções ou na sombra que nos acompanha.

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Celio Sergio
Celio Sergio Colunista