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No Maranhão

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OPINIÃO

Apontamentos sobre a Praia Grande LXXV

Um fato curioso vale a pena contar. Estando eu na presidência da minha entidade de classe, me vi em dificuldades para suprir financeiramente o restaurante do estudante, onde muitos colegas de faculdade faziam suas refeições

O cruzamento da Rua Djalma Dutra com a Rua de Nazaré, a partir de determinado momento, se tornou um ponto de referência na minha trajetória pela Praia Grande. O prédio de sobrado que ali existe, cuja entrada se dá pela dita Rua de Nazaré, outrora foi sede da União Maranhense dos Estudantes (UME), entidade que congregava alunos de nível superior, de que fui presidente. Além de sede dessa instituição representativa, era também a Casa do Estudante, onde residiam rapazes, de um modo geral vindos de cidades interioranas, que aquicursavam as diversas faculdades existentes.

Um fato curioso vale a pena contar. Estando eu na presidência da minha entidade de classe, me vi em dificuldades para suprir financeiramente o restaurante do estudante, onde muitos colegas de faculdade faziam suas refeições. Apelei, então, para o Presidente da República, que era Jânio Quadro, através de um ofício em que pedia a liberação de uma verba existente no orçamento da República, a favor do nosso restaurante. Sem demora, eis que recebo a cópia de um dos tradicionais bilhetes de Jânio, dirigida ao então Ministro da Educação, mais ou menos assim:

 “Senhor Ministro: Com a redução de 30%, de acordo com o meu Decreto nr. xxxx, liberar a verba da Casa do Estudante do Maranhão. Jânio Quadros”. Quem quiser que acredite, porém três, repito, três dias depois o dinheiro estava na conta da UME, valor exato, sem favor e sem propina, como dizem ser essas emendas parlamentares.Pena que tenha emprestado esse bilhete a alguém que não me devolveu e até hoje não consigo me lembrar quem foi o larápio.

Anos depois, novamente tornei-me frequentador do mesmo imóvel, por ter sido nomeado pelo governador do Estado para presidir a JUCEMA – Junta Comercial do Estado do Maranhão, então nele sediada.A essa altura já me tornara empresário e o exercício do cargo muito me acrescentou, em face do contato mais próximo com alguns colegas de profissão. Esse relacionamento me proporcionou acumular experiências no trato da coisa pública e conhecer melhor os problemas individuais e coletivos da classe a que pertencia.

Emocionalmente, portanto, acho-me situado no topo da escadaria da Rua Djalma Dutra, que começa na antiga Avenida Maranhense, atual Pedro II, corta a Rua de Nazaré e a Rua Portugal, para terminar no Beco da Alfândega. Ocorre que o trecho compreendido entre a Rua de Nazaré e a Rua Portugal tem o nome de Catarina Mina e quase todo ele é constituído por uma escadaria de pedra que ocupa metade do quarteirão, onde a rua retoma sua continuidade normal.

Há muitos anos andei indagando sobre esse tal Djalma Dutra, como eu costumava chamar a pessoa que emprestou seu nome a uma rua da cidade de São Luís e nada encontrei a seu respeito. Entretanto, algumas vezes, declarar que desconhece os “18 do Forte de Copacabana”, repercute mal para quem assim procede, até porque Djalma Dutra era nome de um militar que participou daquela revolução tenentista e também integrou a Coluna Prestes.

Para a população de São Luís, bem como para os que a visitam. O Beco Catarina Mina se sobressai em nome e em arquitetura, mais parecendo um daqueles trechos bem comuns que fazem parte do traçado urbano de Lisboa. Além do mais, os sobradinhos que acompanham suas laterais reforçam essa característica. Transitei muitas vezes por esse beco e sempre me lembrava, como agora, da personagem que lhe deu o nome, tão falada pela população da Praia Grande que até as feições, o gingado e o jeito de se vestir estão construídos na minha memória, a meu modo. Era ela uma negra africana que havia comprado sua liberdade, a custo de trabalho.

Possuía uma barraca e consta que farinha era sua grande especialidade. Conhecida apenas por Catarina Mina, ninguém naquelas imediações sabia do seu nome verdadeiro e dele só fui tomar conhecimento quando estudei Geografia Humana: Catarina Rosa Ferreira de Jesus, mas não sei se está correto.

Ora, por várias razões, inclusive pela necessidade de diminuir a distância, quando ia a certos endereços específicos na Av. Pedro II, passava constantemente pelo Beco Catarina Mina. Também ia de modo frequente nesse local, visto que nele se achava localizado, em um daqueles sobradinhos, o negócio do senhor Oswaldo Abreu, pequeno industrial, fabricante de um sabão de boa qualidade. Ocorria que o senhor Armando Gaspar, titular da firma A. O. Gaspar, que conhecia o fabricante, terminava por comprar boa quantidade do produto, a preço convidativo, para substituir, em seu armazém, como já era de hábito, o famoso sabão Martins. De fato, tanto na embalagem quanto na aparência elesmuito se assemelhavam e isso facilitava a argumentação de preço e qualidade junto ao cliente.

Transpondo a Rua do Trapiche ou Portugal, já vencido o Beco Catarina Mina e avançando pela Djalma Dutra, propriamente dita, relembro uma casa de comércio que se tornou famosa e permaneceu aberta enquanto sobreviveu a Praia Grande, com suas características próprias, rodeada de embarcações, com destaque para aquelas que atracavam no pequeno cais da Rampa Campos Melo.Trata-se da casa comercial do senhor José Diniz, cujo prédio do estabelecimento dava o fundo para a Feira do Comércio, antiga Casa das Tulhas. Apesar de ser um homem aparentemente sem instrução, nunca ouvi alguém fazer comentários desairosos à sua pessoa. Bem ao contrário, era sempre muito elogiado e eu sou testemunha desse seu atencioso jeito de ser.

Bem, na próxima semana continuarei, complementando o relato que iniciei sobre a casa comercial do senhor José Diniz.

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