opinião

No bunker do Benedito

Bruno Castello Branco - Escritor. É especialista em direito pela UFMA.

“Amar acima de tudo a liberdade e, mesmo que fosse em troca de um trono, jamais trair a verdade”

Beethoven, compositor alemão (1770-1827)

Pouco tempo após o desjejum, em inusitado regresso, a turbinada Chevrolet D-20 verde-musgo atravessou o portal do sítio na Estrada da Maioba. Os vestígios de piçarra borrando o polimento da caminhonete já delatavam algo de estranho naquela manhã que se iniciava. Curvava-se o fim do ano de 1994. Dali a dois dias estava marcada a eleição da mesa diretora da Câmara Municipal de São Luís. As próximas horas seriam eletrizantes para o vereador que apressadamente voltava à sua estância.

Era ele o decano da Casa Legislativa, Benedito Pires, a quem incumbiria presidir a sessão eletiva, cuja incerteza fazia pairar no ar um clima de absoluta tensão. Divididos em duas alas equivalentes, a única garantia era a de que, com 21 membros, a disputa seria definida por apenas um voto. Tudo indicava que o precioso sufrágio seria justamente o depositado pelo integrante mais antigo do Sodalício. O espírito litúrgico, aguçado pela missão de conduzir os trabalhos, fez com que o veterano edil, desde o início, abraçasse a postura de não publicizar a opção por nenhum dos postulantes, embora tivesse previamente empenhado compromisso verbal com um deles.

Alguns instantes depois do retorno do parlamentar à sua morada, adentrou na residência um comboio de veículos com uma dezena de vereadores à sua procura. O motivo óbvio era retomar o assunto eleitoral abruptamente interrompido durante reunião mais cedo, na qual o vereador Benedito ratificara sua posição republicana de não anunciar apoio a nenhum dos candidatos. Na altura, para o grupo acampado na varanda da casa, não era mais segredo que o voto decisivo seria para a agremiação concorrente.

Obstinados em demover o anfitrião de sua resistência, os próprios vereadores ordenaram aos funcionários domésticos o cerrar dos portões do imóvel, costumeiramente abertos, com o propósito de evitar o acesso de emissários indesejados ou de outros visitantes que já se faziam rondar pelas cercanias. O recado era ensurdecedor. Doravante, estavam todos homiziados, e a comitiva só arredaria o pé depois de obter seu intento. Naquele período analógico, em que celulares eram algo gestacional, a incomunicabilidade ali revelava-se total. Mas havia um ponto de exceção: o compartimento situado contiguamente aos aposentos do proprietário. No estourar da temperatura da Segunda Guerra Mundial, o premier britânico Winston Churchill utilizava um complexo secreto denominado oficialmente Cabinet War Rooms, situado sob o prédio do Tesouro do Reino Unido, em Londres. O local serviu como centro de discussão estratégica e elaboração operacional durante todo o degringolar do Grande Combate.

Bem menos equipado que o famoso “Bunker de Churchill”, no espaço utilizado pelo vereador Benedito, ornado por emparedados alfarrábios, apetrechos antigos e memorabília de todas as origens, uma ligação discada de seu colecionável telefone de mesa estilo candlestick alcançou seu comandante, o ex-deputado Renato Archer, então presidente da Embratel no governo Itamar Franco. Com a experiência política e desenvoltura diplomática que o haviam gabaritado ao posto de principal articulador do movimento da Frente Ampla — protagonizado por Juscelino Kubitschek, Jango e Carlos Lacerda —, rendendo-lhe, em 1968, a cassação dos direitos políticos pelo famigerado AI-5, aquela missão instrutiva solicitada do Maranhão pelo seu liderado seria singela. Auscultado, Renato orientou o pupilo a apenas seguir sua essência. Ambos já sabiam a resposta.

O café fumegava no bule em meio às sobras do farto almoço, tardiamente servido aos convidados, quando, de volta ao recinto, uma derradeira cartada foi lançada ao exausto beneficiário. O requerimento de inscrição da chapa, contendo a assinatura dos dez vereadores presentes, restava pendente apenas a rubrica no nome que a encabeçaria: “Presidente – Vereador Benedito Pires”.

Fitando cada um dos colegas, o vereador Benedito agradeceu a estima destinada, mas recusou a atrativa oferta. Sem dúvida, seria o coroamento da longeva carreira no parlamento ludovicense.

O ambiente se esvaiu como num sopro. Testemunhando a cena, seu jovem neto, com o atrevimento comum da puberdade, questionou-lhe o motivo daquela insólita abdicação. A lancinante justificativa foi resgatada em prosa: certa feita, na sua cidade natal, Rosário, perambulou um forasteiro charlatão que, com cirúrgico esmero, era perito em falsificar até as mais garranchadas assinaturas, portanto, na região a palavra firmada era um princípio inegociável.

Passados trinta anos do ilustrado enredo, no apagar das luzes de 2024, com sua peculiar discrição, Benedito partiu. Numa época em que a integridade parece moeda rara, seu exemplo ressoa como um convite perpétuo à honradez e demonstração inequívoca de que o verdadeiro legado de um homem está na dignidade semeada ao longo de sua jornada.