

Antes de falar sobre Ideias de Canário, uma das preciosas criações literárias de Machado de Assis, quero abrir uma conversa a respeito do também romancista, dramaturgo, contista e cronista Carlos Eduardo Novaes, autor entre tantas obras do célebre livro de crônicas Caos Nosso de Cada Dia, publicado em 1974, que aborda as nossas contradições urbanas, as peripécias da nossa política, sempre seguindo o mesmo enredo das trapaças, e os nossos costumes sociais, ou os maus hábitos de nossa sociedade. De tudo que eu vi e que Carlos Eduardo Novaes nos conta com a leveza e humor da sua linguagem de cronista, algumas coisas mudaram e outras nem tanto.
Em pleno mundo digital, a desonestidade se modernizou, a exigir atuação diária da polícia federal, cumprindo todos os dias mandados de prisão e de busca e apreensão. E os denominados crimes hediondos e os praticados, à luz do sol nascente e poente, contra os cofres públicos alcançaram um patamar de agressividade repercutindo aqui o que foi a máfia nos Estados Unidos da América, comandada por Al Capone e outras figuras grotescas do crime organizado. Aliás, deve ser dito e repetido: o crime organizado virou moda e dá status de delinquente importante, com o título de influenciador ou influenciadora e ainda de ter um mandato no nosso parlamento, quer seja federal ou estadual.
Nesta conversa introdutória, queria trazer para fazer parte dela, de modo passageiro, o Bruxo do Cosme Velho, o nosso M.A. Aproveito a ajuda do também cronista Otto Lara Resende, que selecionou esta frase de Machado: “O conto do vigário é o mais antigo do gênero de ficção que se conhece. A rigor, pode crer-se que o discurso da serpente, induzindo Eva a comer o fruto proibido, foi o texto primitivo do conto.” Com razão Machado de Assis, porquanto sempre atualizado no tempo. O conto do vigário nasceu e vive sempre por aí a nos provocar a fazer a nós mesmos o mal, ou ser enganados pelos mais espertos.
A nossa pacata cidade de São Luís anda bem inquieta. Pelo menos aqui no São Francisco, onde mourejo dia e noite. O trânsito de veículos tomou conta de suas avenidas, ruas, becos, subidas e descidas. Cada condutor tem o seu código de trânsito no bolso. Mão e contramão é regra estabelecida por quem dirige. “Pare” obrigatório nem se fale, até porque se encontra mudo e silencioso em cada esquina. Não faz mal a ninguém. O condutor ou a condutora só para quando ocorre a colisão. Ou, na pior das situações, atropela alguém. E, ainda assim, tem na consciência absoluta razão. O seu código de trânsito tem uma regrinha esclarecedora a lhe dizer que está sempre certo ou certa. Tanto que, num cruzamento sem sinal, quem vem à direita e não adota os devidos cuidados, está errado. Isso se não fizer a ultrapassagem pela direita e, logo em seguida, tomar a dianteira do veículo ultrapassado. São as artimanhas do código privado de cada um. Estacionar em qualquer lugar, ainda que a faixa de tráfego fique interditada. Cada um cuida de si.
A nossa Ilha do Amor, pacatíssima São Luís, Atenas do Brasil, terra dos poetas e da poesia, tem sempre uma pedra no meio do caminho. Ultimamente tenho pensado que o poeta Drummond fez esse poema como uma espécie de vaticínio do que seria a nossa Ilha de hoje, ou seja, ilhada de carros por todos os lados. Sem mão nem contramão. Esta excrescência de norma do bom viver, criada por esses burocratas do trânsito, que, na prática, só serve para atrapalhar o apressado na sua pressa de chegar. É só dá uma olhada no caos nosso de cada dia, em que os nossos motoristas transformaram o tráfego de veículo no antes pacatíssimo Bairro do São Francisco, que, de passado não tão longínquo, tinha o barco como seu meio de transporte predileto e ideal, para fazer a travessia do trabalhador que, na maré cheia, saía do aconchego da sua casa, à beira mar, para trabalhar pelo pão nosso de cada dia, sem sofrer esse caos nosso de todos os dias.
Assim, feitas essas observações sobre os tempos modernos, dou início à narrativa machadiana, em Ideias de Canário, com o relato de Macedo que diz que, indo por uma rua, livrou-se de um tílburi, que trafegava em disparada e quase o atirou ao chão. Felizmente, era um tílburi. Escapou, pois conseguiu jogar-se para dentro de uma loja de belchior (brechó). O dono do comércio não lhe deu pela presença e continuou a cochilar sentado, ao fundo, numa cadeira. Andou pela loja, observando as coisas velhas, rotas, próprias dessas espécies de casa de comércio. Macedo registrou todas as suas impressões. Ao sair, viu uma gaiola pendurada na porta. Dentro, um canário, que logo começou a saltar. E logo começou a ter um inusitado diálogo com o canário, até porque Macedo era ornitólogo. Em determinado momento da conversa, indagando ao canário sobre quem era o seu dono, a resposta foi imediata: – Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, refletindo sobre o que dissera, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo. Com essa resposta, Macedo ficou pasmo, pela linguagem e ideias do pássaro.
O diálogo continuou. Quis Macedo saber se o canário tinha saudade do espaço azul e infinito. Ele pediu explicação. Macedo, o atendeu dando mais objetividade à pergunta: – …que pensas deste mundo? Que coisa é o mundo? Resposta do canário: – O mundo é uma loja de belchior (brechó), com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira. Nesse diálogo alegórico canarinho, o nosso trânsito só não é ilusão e mentira, porque mata e como perturba, não é mesmo.
E a nossa conversa e o conto chegam ao fim bem machadianos, assim como esta croniquinha.
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