

Estava eu quieto esperando o momento da minha consulta. Todos também devidamente quietos nas suas cadeiras. O dia estava quente, porém um quente aprazível. Em frente uma tv ligada num desses canais alienígenas, quiçá norte-americanos. Não me lembro se era CNN ou qualquer outro desses que pululam as nossas telas, a fazer captação ideológica. Sei que as conversas se repetiam. As mesmas de sempre. Não me liguei. Como diziam no meu tempo mais jovem: fiquei na minha. Mas percebi que um cidadão, já um pouco alquebrado por esse mesmo tempo, saiu do conforto do seu assento para, aproximando da tela, ouvir com atenção o que estava sendo dito pelos apresentadores. Matutei comigo: mataram mais um alguém importante, ou que, na pior das hipóteses, com a crueldade do assassinato, ficou importante. Voltei a desligar-me e a contar os minutos para o atendimento.
De repente, não mais que de repente, ouço uma voz tenorizada pela emoção da fala, que trafegou em acordes musicais potentes por toda a sala de espera. De logo, pensei: aumentaram o som da tv e deve ser algum dos grandes tenores que já pontificaram no pedestal da história do canto no mundo e no nosso Brasil amado. Ocorreu-me a lembrança benfazeja do, à época, popular, Vicente Celestino, reproduzido, em alguns momentos, em nossos plagas da Ilha rebelde por Moacir Neves. Mas mudei de ideia. Pelo tom grave e ressonante da voz, veio-me à lembrança Pavarotti, Plácido Domingos, Andrea Bocelli, Enrico Caruso, ou Mario Lanza. Não, refleti. Isso tudo é passado. Ainda assim insisti. Se fosse mulher, talvez quem sabe a famosa soprano Maria Callas. Nova falha na especulação. Em verdade vos digo: tratava-se de um cidadão ludovicense, ou parecia ser, que travava um diálogo sonoro com algum interlocutor, que, pela altura da sonoridade, se encontrava do outro lado do mundo. Parecia que estava a fazer uma viagem musical, a transmitir seus sentimentos num espaço sideral que alcançaria os rincões inexplorados de Marte.
A história é essa, sem ser bem essa, mas é essa. Aos gritos sonoros, numa tarde ensolarada, o nosso tenor ao celular cantava a sua música, atravessando com contundência homicida as notas musicais, para refutar que lhe era dito do outro lado. E dizia: É. Não é isso. Matou ou só feriu. Foi preso. Tá dando aqui na tv. Não sei. A
comentarista afirma que o homem era um herói. Olha, sabe de um coisa, não vamos aceitar isso. Vamos para luta. O Eduardinho, que os invejosos chamam de Bananinha, será líder de partido e candidato à presidência da república. Nem precisa retornar para nossa pátria amada. E com ele na presidência, acertaremos tudo com o nosso grande líder das américas, o nosso querido Trump.
Do outro lado, o interlocutor que mantinha o diálogo com o tenor improvisado fez ressaltar a sua tonitroante voz e, para surpresa dos ouvintes em volta, deixa transparecer esses dados estatísticos preocupantes, ao afirmar, como se cantasse a abertura de uma ópera, dessas perdidas no passado distante, alertou-lhe: – Olha, amigo, o mercado de trabalho, dizem, está em expansão Paralelamente à melhora da renda, o país registrou queda no desemprego. A taxa de desocupação caiu para 5,6%, o menor patamar desde 2012. O número de desocupados recuou para 6,1 milhões de pessoas, queda de 14,2% no trimestre e 16% em 12 meses. O nível de ocupação, que mede a proporção de pessoas empregadas em relação à população em idade de trabalhar, chegou a 58,8%, também recorde histórico. O contingente de ocupados foi estimado em 102,4 milhões de brasileiros. Em resposta, o nosso tenor de sala de espera não deixou por menos e sapecou a sua contrariedade: – Isso é de nenhuma relevância. A anistia vem aí. Cair taxa de desemprego é de nenhuma importância. O fundamental é eleger o Eduardinho, que está se sacrificando em terras ianques. O seu querido pai, embora lhe tenha dado apenas dois milhões de reais, para as despesinhas, ele continua a receber seus graciosos subsídios parlamentares. De mais a mais, o nosso preclaro amigo Hugo Motta pautou, para aprovação imediata, o projeto de emenda da Constituição que dificultará as denúncias criminais contra deputados e senadores Essa PEC é uma dádiva à turma do dinheiro público, pois determina que qualquer abertura de ação penal contra parlamentar depende de autorização prévia, em votação secreta, da maioria absoluta do Senado ou da Câmara. Chama-se de PEC da Blindagem (PEC 3 de 2021), ou PEC das Prerrogativas e foi articulada pela maioria dos líderes da Câmara, com o apoio da oposição liderada pelo Partido Liberal (PL). E o nosso amigo Motta justificou que o projeto “fortalece a atividade parlamentar e foi defendida pela maioria da representação do Colégio de Líderes”. Hoje, o deputado Cláudio Cajado (PP-BA) foi nomeado relator da proposta. E o nosso tenor, em voz alta e bom som, não se conteve: – Ah!, amigo, haverá muita cajadada, e o dinheiro público deixa definitivamente de ser público e volta a ser o que já fora, na época do
nosso querido Bozo, propriedade privada dos parlamentares. Quer coisa melhor do que isso. E vamos que vamos.
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