

Por esses dias, em busca de recuperar o tempo perdido, resolvi fazer algumas releituras de Fiódor Dostoiévski, um dos meus escritores prediletos, ao qual, na minha imberbe juventude, o li uma ou outra vez, com as dificuldades naturais de um iniciante no enfrentamento de uma linguagem e narrativa de temática mais complexa, como é o caso do seu célebre romance Escritos da casa morta, em tradução atual de Paulo Bezerra, diretamente do russo, assim sendo com mais autenticidade na sua passagem para a nossa língua.
Paulo Bezerra, que estudou língua e literatura russa na Universidade Lomonóssov, em Moscou, além de ter sido professor de língua e literatura russa na USP, faz a introdução da obra Escritos da casa morta, novo título dado esse romance de Dostoiévski, que antes era conhecido pela denominação de Recordações ou Memórias da casa dos mortos. Com a nova tradução de responsabilidade da Editora 34, feita direta da língua original, passou a ter esse novo título. E, no meio de suas necessárias explicações, inclusive referente à nova denominação do romance, repetindo o que está na orelha do livro, conta esta historinha que me chamou a atenção:
“No dia 22 de dezembro de 1849, preso na Fortaleza de Pedro e Paulo, em Petersburgo, na iminência de partir para Sibéria, Fiódor Dostoiévski escreve ao irmão Mikail: ‘A vida é a vida em toda parte, a vida está em nós, e não no que nos rodeia. Perto de mim haverá gente, e ser um homem entre os homens e assim permanecer para sempre em quaisquer que sejam as desgraças, sem desaminar, sem me abater – eis em que consiste a vida, eis a tarefa de viver. ‘” Na sensibilidade romanesca de Dostoiévski, a vida está em nós, e não fora de nós. Somos, pois, os construtores de nossa vida.
Dostoiévski teve o seu – e nosso também – momento de ressurreição. Fora condenado à morte por fuzilamento. Já estava aguardando o momento da execução, juntamente com outros condenados, e a pena, no dia fatídico, foi comutada por ordem do tsar Nicolau I, em quatro anos de trabalhos forçados e o degredo perpétuo na Sibéria. Conseguiu sobreviver e fazer prevalecer a vida que estava dentro dele mesmo (em sua concepção,
a vida está em nós), produzindo toda sua obra literária, como Escritos da casa morta, Crime e castigo, O idiota, Um jogador, Os irmãos Karamázov, O eterno marido e outras.
Fui despertado a fazer a leitura de Crime e castigo, porque, como estudante de Direito, na inesquecível faculdade da Rua do Sol, gostava de presenciar julgamentos pelo tribunal do júri, e não raro, a história do personagem assassino era citada nos debates que se processavam na tribuna da acusação ou da defesa do acusado. Raskólnikov, o personagem, era retirado das páginas de Crime e castigo, como exemplo vivo de uma vida sofrida, miserável, que é obrigado, por força de suas impagáveis dívidas, a passar atrozes necessidades, esmagado pela pobreza, a acumular dívidas do cubículo desconfortável que alugava e sofrer a fome da necessidade. Por tudo isso e consciente de ser um lutador da moral, construída dentro de si mesmo, julga-se no direito de praticar o crime de homicídio na pessoa de uma velha e rabugenta agiota. Um delito humanitário. Portanto, perdoável. Raskólnikov adota, como personagem de Crime e castigo o princípio de que a moral e vida estão em nós, que a modelamos e delas fazemos uso como melhor nos convier.
Continuarei nessas releituras, que, na verdade, são bem melhores do que as leituras. Verdade. Certa vez, perguntaram ao imenso Nelson Rodrigues o que ele lia. E ele respondeu: faço releituras. Citou os clássicos, e entre estes, obras de Fiódor Dostoiévski, o qual, ressalve-se, embora tenha vivido sessenta anos, produziu uma literatura consistente e eterna. A sua primeira reconhecida como de grande valor literário, que data de 1846, foi Gente pobre, seguida de Noites brancas, de 1847, ambas publicadas no alvorecer de sua vida, uma vez que nasceu em 1821.
Assim como a vida está em nós, o passado, que nós, como se fosse um filme clássico repetido, revemos a todo instante, está dentro de cada um de nós. E é sempre prazeroso passar por ele, dar um passeio pelo tempo. A leitura, e muito mais a releitura, nos possibilita essa navegação, que não é traduzida apenas num sonho, mas num tempo vivido aprisionado no nosso interior.
Insisto: o tempo é um eterno desafio do viver. E o passado: a melhor parte do presente. Repito obsessivamente William Faulkner: – O passado nunca morre. Sequer é passado. E o futuro? O que é o futuro? Uma grave e duvidosa interrogação. Nada mais. Sabe-se lá
se o futuro se faz presente. Há aqueles que vivem para futuro. Adoram o futuro. Amam para o futuro. Odeiam para o futuro. Poupam para o futuro. Preparam-se para viver o futuro. Casam para o futuro. Ou mesmo não casam. Têm filhos para o futuro. Constroem riquezas para o futuro. E morrem antes do futuro. Que pena! Dostoiévski passou pelo tempo. Superou o passado, viveu o presente e, como artista das letras, eternizou-se no futuro. Cumpriu a sua missão de viver. Pois, como canta o poeta Belchior, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais…” E viver é melhor que sonhar. Um convite: vamos sonhar e passear pela vida e até que o futuro, que não sabe se vem, chegar.
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