

Livro interessante esse de Ricardo Cappelli, que tive a felicidade de adquirir na 23ª Flip, em Paraty, e estou concluindo a leitura. Ricardo Cappelli foi interventor federal da Segurança Pública no Distrito Federal, ministro interino do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e ministro em exercício da Justiça e Segurança Pública, funções que foram exercidas no ano de 2023, em que se deu a tentativa do golpe de Estado, no dia 08 de janeiro, considerado, no calendário histórico, como o dia da infâmia. Das histórias contadas em O 8 de Janeiro que o Brasil não Viu, a partir do prólogo do livro, há evidente denúncia factual da omissão ou participação de militares nessa arruaça inconstitucional e golpista.
Não pretendo neste reduzido espaço fazer uma transcrição extensa de passagens do livro de Cappelli, mas apenas provocar a curiosidade daqueles que gostam de ler e ter conhecimento dos fatos como eles ocorreram, assim eliminando a ingenuidade de estarmos a lidar com a inocência golpista de uma cabelereira, que teve uma condenação exemplar. Mas, a partir do prólogo, o autor de O 8 de Janeiro que o Brasil não Viu inicia a sua narrativa assim: “É noite de 8 de janeiro de 2023 e estamos em frente à entrada do Setor Militar Urbano (SMU), em Brasília. Poucas horas antes, eu havia sido nomeado interventor na Segurança Pública do Distrito Federal. A primeira instrução que recebi do ministro da Justiça foi restabelecer a ordem na Praça dos Três Poderes, desmontar o acampamento montado em frente ao QG do Exército, de onde partira a multidão que invadiu e vandalizou as sedes dos Poderes da República, e prender todos os invasores. Um linha formada pela Polícia do Exército protege a área, onde ainda estão abrigadas cerca de 1.200 pessoas contrárias à eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhum entra no SMU. Mas vários manifestantes que retornam da Esplanada dos Ministérios a pé têm acesso livre ao local.” E prossegue a sua narrativa: “Quando vejo essa cena, chamo o comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal, o coronel Fábio Augusto Vieira, e lhe peço que prepare a tropa, porque vamos entrar e prender todo mundo no acampamento.” O coronel fica apreensivo e resiste. Fala ao telefone. Volta do seu contato telefônico e avisa que o general Gustavo Henrique Dutra, chefe do Comando Militar do Planalto, quer conversar com Cappelli e pede que vá até a Torre de TV. A esse
pedido não se nega, mas condiciona que o general venha até ele. Mas reforça as suas ordens e ressalva: – Tenho orientação para entrar e prender todo mundo e não vou sair daqui. Chega o general Gustavo Dutra. Travam uma discussão respeitosa, e ressalta sobre a gravidade do acontecimento daquele dia e dos riscos resultantes da continuidade do acampamento ilegal. Mas o general Dutra afirma que se entrar no acampamento, terá um banho de sangue. Não explica bem o que seria esse banho de sangue.
Mantém o general Dutra vários contatos e, após, diz a Cappelli que o general Júlio César de Arruda, comandante do Exército, se encontra no Quartel-General do Exército, dentro do SMU, e que gostaria de falar com ele. Concordou em conversar com o general Arruda e vai com o seu carro na direção do QG, onde é recebido na sala do Alto-Comando. E conversa é iniciada com esta incisiva e autoritária pergunta do general Júlio César de Arruda: “- O senhor ia entrar aqui com tropas sem a minha autorização?” O prólogo do livro chega ao final. Vou encontrar a sequência na pág. 105. A resposta é sim, eu ia, acrescenta: “- Eu ia avisar, o general…” E, num confronto de quem tem mais força militar, respondeu o general Arruda: “- Porque eu acho que eu tenho um pouquinho mais de tropas do que o senhor…” Cappelli ainda argumentou, mais uma vez, ao general que os acontecimentos do dia haviam sido institucionalmente gravíssimos, que a invasões e depredações não podiam ficar impunes e que era vital desmontar o acampamento imediatamente e prender todo mundo. Em seguida, perguntou: “- O senhor não concorda, general?” Resposta do general, comandante do Exército brasileiro, que teria que ter uma postura de absoluto respeito à disciplina e à hierarquia, mas não o teve, foi a seguinte: “- Não, o senhor tem que entender que o Brasil está dividido.” E dá a entender que o seu comando e comandados estão ou estavam pouco ligando ao art. 142 da Constituição Federal, que, em resumo, estabelece que as Forças Armadas, integradas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema (expressão da Constituição de 1988) do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer desses Poderes, da lei e da ordem. Essa é a sua finalidade.
O diálogo se estende. O general continua general, desrespeitando a hierarquia e a disciplina, princípios fundamentais das Forças Armadas. Ao afirmar que o Brasil está dividido, ele assumiu um lado, que não é o determinado pela Constituição Federal. Embora advertido por Cappelli (e está claramente explícito no livro): “- General, deixa eu lhe dizer uma coisa: nós não vamos devolver ônibus e estamos com a lista de todos os que estavam nele. Vamos botar todo mundo na cadeia. Não vai ninguém embora.” A resposta do general Arruda, em que ele, por omissão do seu dever de militar, toma um lado, o do golpe, se resume nesta frase patriótica, mas contra o Brasil: “Eu entrego o cargo, mas vou até o fim pelo meu compromisso com o Brasil.” Que Brasil? Do derrotado e golpista Bolsonaro? Dos ditadores latinos? Das fake news? Da afronta às decisões judiciais? Do desrespeito à hierarquia e à disciplina? Qual Brasil? Dos vassalos do ditador Trump? Só o general e outros generais saberiam dizer. Uma certeza: Brasil não é Chile, de 1973, que os EUA derrubaram Allende, para impor a ditadura de Pinochet. Nem pode reviver os tormentos da ditadura de 64. Chega!
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