
Dois jornais que muito representaram na minha caminhada de vida. Num primeiro momento de sobrevivência, e como alavanca de sustentação para poder estudar, O Imparcial me admitiu, pelos anos 65, 66 e 67, para iniciar o exercício da profissão de linotipista. Em que consistia ser linotipista? Era uma profissão gráfica considerada qualificada imprensa escrita. Nos tempos atuais, da geração Z, pode-se dizer que era exercida tendo como suporte de identificação uma máquina de composição de textos, que, no passar do tempo, se extinguiu com o advento de novas tecnologias. Mas, ressalto, o exercício da profissão de linotipista me ajudou muito na minha formação educacional. Primeiramente, porque convivi com excelentes profissionais, como Walter, Soçaite, Grilo, Ipojucan, César, Caio, Louro, Lobão, Aradian, Manezinho, Ferdinando, Zé Ferraz, meu grande e inesquecível amigo e protetor, Carneiro, Virgílio, Diquinho, este exímio tocador de serrote, que se apresentava nos programas radiofônicos, entre os quais os apresentados por Caveirinha, na rádio Gurupi, Expedito, outro grande e inesquecível companheiro não só do trabalho mas de estudo, além da convivência que tive em O Imparcial com o eterno secretário de redação Ferreira Baty, que me incentivava a escrever crônicas sobre o futebol, e eu o fiz uma ou duas vezes assinando com o nome Ferreira Neto. Tudo isso diz muito dos meus sentimentos de saudade, de lembranças emotivas, que integram definitivamente a história da minha vida e que nunca esqueci.
Confesso nestas lembranças que, durante todo o tempo em que fui linotipista, aprendi muito convivendo ao lado da redação de jornais. No período de O Imparcial, transcrevia os textos das jornalistas Maria Inês Saboia e Genu Moraes, que faziam o chamado colunismo social. Coluna indispensável em toda imprensa escrita. E, diariamente, era o responsável pelas crônicas de David Nasser (Diário de um repórter) e do jornalista e então presidente da Academia Brasileira de Letras Austregésilo de Athayde, que fazia, num estilo simples e bem resumido, uma crônica de uma leitura extremamente agradável, composta de três parágrafos. Na parte da tarde, concluía o texto de Assis Chateaubriand, o proprietário dos Diários Associados, que ocupava mais da metade de uma página do jornal. E prosseguia fazendo as matérias sobre esporte,
especificamente futebol, já que outras modalidades ainda não tinham grande número de leitores, a não ser boxe ou tênis, se houvesse algum ídolo em evidência, como se deu com Éder Jofre e Maria Esther Bueno.
O tempo passou. É a vida. Perambulei por esse mundo afora. Estudei. Formei-me em Direito. Fui professor. Advogado. Juiz de Direito. Sem esquecer a base de conhecimentos que amealhei no curso dessa vida. Essa base está alicerçada no período em que fui gráfico exercendo em O Imparcial e no Sioge a profissão de linotipista. Chequei a trabalhar ao lado de alguns ícones da imprensa. Jomar Moraes, quando ele fazia a revisão da Revista Legenda, editada no Sioge por Reginaldo Teles, diretor daquela autarquia. Edson Vidigal, quando fazia a primeira página do Diário Oficial, na época do governador José Sarney, e o DO era vendido em banca de jornal. Carlos Cunha, o poeta trovador, quando secretariava o Jornal O Dia, e eu fiz, numa noite de sábado, a substituição do linotipista Walter, meu primeiro mestre no aprendizado da profissão.
O Imparcial fez 99 anos de vida. Não envelheceu. Pelo contrário, continua com uma linguagem bem rejuvenescida. Tem conseguido vencer as intempéries oriundas das novas mídias. Expõe em suas páginas excelentes textos jornalísticos, ora em crônicas, ora em análises políticas e econômicas, estruturados com conhecimento e linguagem apropriada às matérias que são da responsabilidade de quem os escreve. Faço específica referência ao jornalista Raimundo Borges, um estilista do jornalismo maranhense, que sabe onde põe a pena, ao fazer as suas proficientes e agudas análises.
Mas, de linotipista, lá daquele passado distante, sou apenas um dedicado colaborador de O Imparcial. Gosto de escrever e fazer a minha colaboração semanal. É muito satisfatório fazer jornal. Tive alguma experiência como repórter, quando trabalhei no Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, por interferência amiga de Lago Burnett, um dos editores daquele jornal. Foi, do mesmo modo, um bom aprendizado.
Além de O Imparcial, com os seus 99 anos de idade, o jornal O Progresso faz parte da minha vida e da vida do povo de toda a região tocantina. São mais de 50 anos de vida. Ou seja, são 55 anos de existência, trabalhando com os fatos e a notícia e contribuindo para construir uma sociedade mais humana e digna, função essencial da imprensa. Em O Progresso, tenho o imenso prazer de escrever
desde do ano de 1976. E, num exíguo tempo, coadjuvado pelo jornalista César Jansen, fui editor do “expressão regional”. Por ele e nele fiz muitas amizades. Uma delas destaco: Jurivê de Macedo, que, com José Matos Vieira, foi seu fundador. Jurivê, um grande e inesquecível amigo. Durante anos, foi editor do Jornal O Progresso, onde tinha a sua famosa, lida e respeitada coluna Comentando os fatos. Falava de tudo. Das questões políticas mais eloquentes e sérias até os mais simples fatos, dando a eles um sentido de grave ou hilariante importância jornalística. Foram muitos os amigos com os quais convivi e ainda convivo em O Progresso: José Edilson, colunista social dos bons, Clemente Viegas, brilhante advogado e de um texto bem popular e erudito, Coló, atual editor, Ylia, Edmilson Franco, que se assinava à época Ed Franco, e meu amigo Zé Carlos, linotipista da época que jornal era feito a quente, com as linhas de chumbo.
Sempre valeu a pena e continuará valendo fazer jornal. Parabéns aos 99 anos de vida ativa de O Imparcial e aos 55 anos de O Progresso. A luta pela liberdade de expressão deve continuar. E a grande trincheira está na edição e leitura dos nossos consagrados jornais.
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