opinião

O discurso e o operário

Aureliano Neto - Membro da AML e AIL · aurineto@jhotmail.com

Quem é esse operário? Esse personagem tão importante? Tão citado. Tão enaltecido. Mito e mítico, na medida em que o seu valor alcança dimensão democrática, num status que costumam denominá-lo simplesmente de povo. Na verdade, esse operário somos todos nós: eu, você e tantos que se vergam com o peso das tarefas da sobrevivência.

No discurso político, passeia soberanamente o operário. Da quebradeira de coco ao mais qualificado intelectual, todos são iguais. A igualdade aí é mais que formal. Não vem apenas da lei. Mas do mundo. Da realidade vívida e vivida. O voto a simboliza, pois, contado gota a gota, para se chegar a milhões, possibilita ao operário ser tão forte quanto o sertanejo de Euclides da Cunha. De fato, é o momento de o operário ser um forte, embora às vezes trôpego pelas necessidades que o atormentam.

Esclareça-se, por necessidade linguística, operário, ou operária, assim designado no socialismo real, e trabalhador ou trabalhadora, no trivial, no nosso dia a dia.

Passeando no discurso político, o trabalhador é o próprio poder. Ainda que por um dia qualquer. Ou mesmo que seja por um reles e insignificante segundo. No seu cotidiano, vai balançando o corpo a carregar a saca de feijão ou de milho, ou de qualquer outra coisa. Sempre carrega alguma coisa, ainda que seja o filho pelas necessidades da vida. Mas tem uma certeza: balança o corpo ao peso da sua sina. Da própria vida. A vida lhe pesa nas costas, indo até ao menor dos dedos dos pés que o sustentam, tal qual as bases das pirâmides, carcomidas pelo tempo. Lá e cá, nada mudou. O tempo insiste em dizer que a história é sempre a mesma. Repete-se, com a mudança do cenário, pelos séculos.

Camisa aberta. Ou sem camisa, enrodilhada, ao descaso, no pescoço. Pés duros, firmes no chão de terra. O operário do discurso caminha todo poderoso. O peso da vida já não lhe é tão cáustico. Sabe-se infinitamente forte. A comida lhe é farta, quando o discurso quer que seja. A roupa da festa lhe é dada, no banquete da festança da cidadania passageira. É conduzido pelas ruas da cidade como se fosse um paxá. Desses dos filmes mais antigos que apareciam com o seu harém e um séqüito de súditos, a atender-lhe a todos os pedidos. E o operário, com todas essas reverências, bate no peito aberto, sem camisa, mas bem alimentado: eu sou o rei, melhor dizendo, eu sou o paxá dos filmes antigos.

Pois é: nada mudou. O operário é o mesmo. O filme continua com o mesmo enredo.

Será que esse operário do discurso sofre? Não. Não foi construído para o sofrimento. O operário do discurso não sofre. Ainda que sem camisa, às vezes sem dente, outras vezes esquelético pela dieta da necessidade. Consegue ser forte, como o sertanejo do romance épico. Está infenso a essa cruel mazela. É um deus, glorificado pela dimensão onírica do discurso, que o faz um onipotente. Não se trata de um deus vencido, mas um deus que acredita, por todos os deuses, que vencerá. 

Daí não se entregar a sua sina, ou ao peso da saca que carrega às costas. A vida lhe pesa, como tudo lhe pesa, mas não se deixa vencer. O pouco que tem, sabe como multiplicar. Eis porque o operário do discurso, como o paxá do filme antigo, ao ser encontrado na rua, até o momento sublime do voto, é servido gulosamente no banquete da abastança. Aí tudo, embora pareça paradoxal, termina no exato momento do voto, para ressurgir numa outra ocasião.

Deve ser dito que o operário do discurso não precisa de camisa. Ele nasce e vive sem camisa. Na verdade do que ele precisa mesmo é do discurso. Esse é o seu alimento. A sua razão de viver. Enfim, a sua vida. Ou sua morte. Muitos – os espertos e expertos da demagogia dos discursos – sabem disso e fazem uso de todos os argumentos retóricos para aproveitar-se do operário do discurso. Depois. Bem. Depois é depois.

Para o depois, recorro ao sociólogo e filósofo Jessé Souza, autor de muitas obras importantes e necessárias, que deveriam ser lidas e discutidas nas escolas, entre as quais se destaca O pobre de direita: a vingança dos bastardos, além de A tolice da inteligência brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite, já no prefácio do primeiro livro (O pobre de direita) levanta esta questão, como premissa do seu estudo: “…a questão que realmente importa saber no Brasil de hoje é, em outras palavras, por que parcelas significativas das classes populares, as quais não têm nada a ganhar com Bolsonaro, só a perder, especialmente sob o ponto de vista econômico objetivo – que é como definimos hegemonicamente a ação racional em relação à irracional – votaram duas vezes em alguém que os prejudica sistematicamente?”

 Como resposta: ler o livro, estudar, meditar. Depois, sair do discurso e viver a realidade. Não a realidade da nossa elite. A realidade do nosso trabalhador. Seja ele braçal ou intelectual.

Compartilhar
Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL