opinião

“Nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”

Aureliano Neto - Membro da AML, AIL e AMLJ aurineto@hotmail.com

Vive o mundo, no campo da política, do exercício do poder, enfim de todos os valores que cabe a cada um de nós defender com todas as nossas forças físicas, morais e intelectuais, um momento de profunda crise existencial, semelhante à época do surgimento do nazismo, que representou o apogeu e desastre da hegemonia da Alemanha, sob a liderança trágica, mas aceita, seguida e endeusada, de Adolf Hitler, que culminou no holocausto e outros genocídio da Segunda Guerra Mundial.

A partir dessa reflexão que somos obrigados a fazer, fui, como muitos foram, creio eu, pegados de surpresa com as benfazejas notícias que nos chegam de Nova York. Não a nossa Nova Iorque, a cidade do sul do nosso Estado, boa para se dar um agradável passeio e curtir a sua beleza que, ao senti-la, a distância, nos nostalgia de uma saudade telúrica. Quero me referir ao discurso feito nesta terça-feira, dia 23 de setembro, na 80ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, pelo metalúrgico, sindicalista e, no terceiro mandato Presidente da República, o combatido e combativo Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao ouvi-lo do púlpito das Nações Unidas, sob o olhar atento de uma plateia de representantes de países do mundo inteiro, veio-me à lembrança a sua luta em defesa dos metalúrgicos do ABC paulista e também do seu combate contra o regime ditatorial civil-militar de 1964. E, mais ainda, fui invadido pela lembrança do célebre comício pelas diretas, do qual tive ligeira participação, realizado num palanque em frente à Biblioteca Pública, com a presença de grandes lideranças política do nosso Estado e do presidente Lula. Alguns invejosos o chamam de analfabeto. Mas quem lhe dá esse título preconceituoso é que é, na verdade, analfabeto, embora com honrosos títulos de mestre ou doutor.

No discurso do presidente Lula, ele fez a defesa da democracia e da soberania do Estado brasileiro, além de ter condenado o genocídio praticado em Gaza, com os assassinatos contínuos praticados por Israel, que, como genocida, age como se estivesse punindo os palestinos pelo holocausto sofrido pelos judeus na Segunda Guerra Mundial.

Assim são os fatos noticiados: “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (23), durante seu discurso na 80ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, que a independência do Judiciário brasileiro é ‘inaceitavelmente’ atacada por setores que buscam fragilizar a democracia. Sem citar diretamente o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas em referência clara ao julgamento recente, Lula destacou que o processo que resultou em sua condenação foi conduzido de forma ‘minuciosa’ e com amplo direito de defesa

” E disse mais: “Há poucos dias e pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado democrático de direito. Foi investigado, indiciado, julgado e responsabilizado pelos atos em um processo minucioso. Teve amplo direito de defesa, prerrogativa que as ditaduras negam às suas vítimas”, disse Lula, sob aplausos no plenário das Nações Unidas.” Nesse memorável discurso, o presidente Lula prega a absoluta independência do Brasil, ao não se submeter a quaisquer pressões internas ou externas, para satisfazer interesses confessáveis e inconfessáveis, além de enfatizar, como um estadista tem que fazê-lo: “(…) Caros chefes de Estado e de Governo e representantes dos Estados-Membros aqui reunidos. Este deveria ser um momento de celebração das Nações Unidas. Criada no fim da Guerra, a ONU simboliza a expressão mais elevada da aspiração pela paz e pela prosperidade.

Hoje, contudo, os ideais que inspiraram seus fundadores em São Francisco estão ameaçados, como nunca estiveram em toda a sua história. O multilateralismo está diante de nova encruzilhada. A autoridade desta Organização está em xeque. Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder. Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra. Existe um evidente paralelo entre a crise do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia. O autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente a arbitrariedades. Quando a sociedade internacional vacila na defesa da paz, da soberania e do direito, as consequências são trágicas. Em todo o mundo, forças antidemocráticas tentam subjugar as instituições e sufocar as liberdades. Cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais, e cerceiam a imprensa. Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia, reconquistada há quarenta anos pelo seu povo, depois de duas décadas de governos ditatoriais.

Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia. A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável. Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias. Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil. Não há pacificação com impunidade.” De fato, a autoridade da ONU está em xeque. Há uma clara desordem internacional. A democracia está se fragilizando.

O arbítrio e poder da força tomam conta do mundo. A diplomacia deu lugar ao autoritarismo. É preciso resistir para que o diálogo e a democracia sobrevivam. Felizmente, o presidente Lula, como fez prova no discurso da ONU, resiste, em defesa da soberania e da democracia, porquanto, sem ser vassalo, demonstrou ser avesso à postura de alguns doutores e burgueses de nossa sociedade que carregam a inconsciência trágica do que Hannah Arendt, com absoluta razão filosófica, denominou de “banalidade do mal”.

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Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL