

Andava eu pelo Rio de Janeiro, lutando arduamente para concluir o curso de Direito. Não preciso dizer que vida era dura. Duríssima. Pelo quarto ano, já dava os primeiros passos na advocacia como solicitador acadêmico. Homiziei-me numa república de estudantes e, concluído o curso, com a colação grau no Teatro Municipal, que chique, hem?!, fui homiziar-me para o outro lado da cidade, na zona norte, porque o Rio é zona sul, zona norte e centro. Precisava exercer a profissão e estudar muito para ser um bom profissional da advocacia. Mas a saudade da minha terra era grande. Matava a distância e as lembranças ouvindo canções que marcaram esse tempo. Chico Buarque era o meu compositor preferido. Ouvir as suas canções representava um alento para continuar a luta pela vida. A banda, Folhetim, Cotidiano, Construção, Quem te viu quem te vê, Apesar de você, Roda viva, Meu guri, Carolina, Maninha e muitas e muitas outras, que não são tão outras, são obras-primas do nosso cancioneiro popular. Maninha sempre me despertou uma nostalgia de tudo o que o mundo foi e não voltará a ser. E, infelizmente, no andar da trumpagem, pode até deixar de ser. Depende do ter daqueles que só têm. E só. E pensam que o mundo é a sua imagem e perfeição. Amarga e cruel balela.
Nesses anos todos, novos e velhos, tantos são os Brasis que foram vestindo novas roupas e fantasias. O Brasil do bonde foi um deles. Do transporte de carroça, também. Embora ainda exista por aí. O Brasil do samba-canção, do bolero. Da jovem guarda e da bossa nova. Os Brasis, em suas várias indumentárias, da dança coladinha ao iê, iê, iê, foram passando.
Chico Buarque, que, além de poeta da música popular brasileira, é também um grande contista e romancista, em Anos de Chumbo e outros contos, no conto Copacabana, no qual ele faz um passeio ficcional com o poeta Pablo Neruda, pela antiga Copacabana e tem uma visão onírica de Ava Gardner, ele relata que “nas raras ocasiões em que passa pelo bairro, evitava repisar os caminhos da infância, pois tenho a impressão que a nostalgia é um pântano. Relembrar a juventude é como olhar dentro de um povo, e da última vez em que estive numa avenida Atlântida cheio de gente esquisita, minha cabeça rodou e vi tudo preto”. Esse “tudo preto” a que Chico faz referência é o mundo transformado. Não é, nem mais será, o mundo de Maninha, uma das suas canções mais líricas que rivaliza, no campo poética, com Carolina, porquanto evoca memórias da infância e a melancolia de tempos passados. A poesia da letra é uma viagem nostálgica, repleta de imagens poéticas que remetem a momentos simples e felizes, como fogueiras, balões, luares e roupas no varal.
Costumo sempre dizer que o passado não é passado. É presente, pois está sempre presente no nosso dia. Aprendemos com o passado, pois o futuro é uma incógnita. Bem. Deixemos essa especulação temporal. Os racionalistas se encarreguem dessa árdua tarefa filosófica. Fiquemos no mundo da poesia.
Por isso, Se lembra da fogueira. Se lembra dos balões. Se lembra dos luares dos sertões. A roupa no varal. Feriado nacional. E as estrelas salpicadas nas canções. Pois é. Época da fogueira. Dos balões, dos luares. Da roupa no varal. E feriado nacional, para comemorar a data e o evento, além de amenizar o cansaço do trabalhador-operário que, atendendo ao apito da fábrica, saía às carreiras de casa para chegar a tempo ao trabalho. Mas, Se lembra do jardim? Oh maninha, coberto de flor Pois hoje só dá erva daninha No chão que ele pisou Se lembra do futuro que a gente combinou? Eu era tão criança e ainda sou.
Ao ouvir esta nostálgica, lírica e poética canção de Chico, voltei ao Rio e lembro-me dos fins de semana. No sábado, ao acordar, primeiro passo a ser dado, ir à banca de revistas e jornais, a alguns quarteirões de onde morava. Comprava os jornais. O Caderno B do Jornal do Brasil era leitura obrigatória. Lá, do ladinho da página, estava crônica do poeta Drummond ou de Clarice Lispector. E, no jornal Última Hora, fazia a leitura Maria Raja Gabaglia, e em O Globo, Gustavo Corção, Eugênio Gudin, e A vida como ela é…, de Nelson Rodrigues. Mas uma leitura obrigatória para quem estava desempregado ou a procura de alguma coisa eram os Classificados do JB. Tinham de tudo. Do bom ao melhor. E para quem acompanhava a política nacional, a leitura obrigatória da coluna de Castelinho, o piauiense Carlos Castelo Branco, logo na segunda página do caderno principal do JB.
Estive recentemente no Rio, numa visita rápida. Não precisei me homiziar. Fui a Paraty. As bancas de jornais são meras aparências. Vendem bugigangas, quinquilharias. Os jornais
desapareceram das bancas. Essa grave situação dos nossos diários impressos comprova o que disse a escritora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras que “o Rio tinha dez jornais diários ou mais. Cada um com seus espaços para a crônica. Isso permitiu que florescesse uma geração de escritores. Hoje os jornais diminuíram e os suplementos culturais desapareceram”. Já o escritor Sérgio Rodrigues, que também escreve semanalmente em jornais, afirma que “aquele tipo de texto não cabe mais no Brasil de hoje nem na expectativa e na sensibilidade do leitor contemporâneo”. O texto a que se refere são as crônicas de Rubem Braga, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Drummond de Andrade e outros ícones da nossa crônica.
Por tudo isso, façamos cada vez mais do passado o nosso presente. Sem esse passado da inteligência e da poesia, só nos restam as palavras cruzadas e aguentar a burrice de alguns “intelectuais” (com aspas mesmo) que querem nos contagiar com a sua ignorância mórbida, agora contaminada pela IA. E que Deus nos livre dessa perversidade.
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