opinião

MÃE

Aureliano Neto - Membro da AML, AIL e AMLJ aurineto@hotmail.com

Ela chegou assim. Como assim?! Arrastando os pés, com ar de cansada. Ainda não sei se da longa viagem que fez para vir até aqui. Entrou por aquela porta. Pude perceber a imensidão do tempo que se passou. Na sua fisionomia, marcada pelos inúmeros vincos e rugas do tempo, estava cinzelado o mais profundo sentimento de vida: o amor. Veio como César, mas vestida na simplicidade de uma rainha, por muitos ainda denominada de rainha do lar. Direi, evitando o lugar-comum: rainha do amor, simplesmente. E muito mais que isso, em que pese a expressão cotidiana que a reduz ao ato de servir, mas que se eleva e a faz reinar servindo a tantos súditos. É a única rainha, que faz do reinado um ato de total doação. Apenas serve com total abnegação. O cansaço que lhe dilui as forças, não lhe retira o império da maternidade. Assim, atravessou o Rubicão como a ostentar a força guerreira de César, para viver a alegria do filho, seja homem ou mulher. Para ela não há diferença. Apenas dissemina o amor que devota, como missão profética: ser apenas mãe.

Chegou sorrindo o riso alegre da alegria sua e de todos nós. O cansaço do tempo e de toda uma vida se fortifica na imensa vontade de vencer distâncias e de estar ali rejuvenescida pela absoluta certeza de tudo ser missão materna, como dever sagrado do amor. Não importa que encanecida pelo tempo, que poetas do passado teimavam em simbolizar como a névoa que embranquece os cabelos arredios e denunciadores da sua eterna luta. Vem vaidosa pelo árduo desempenho dessa difícil caminhada, cujo itinerário atravessa jardins, desertos e tempestades. Ela é assim: única e universal.

Eu a vi chegar. Durante todos esses anos, não havia percebido o quanto a amava. Fisicamente, ela já fora mais bela. Não puxava da perna. Andava majestosa. Não tinha o rosto estriado, consumido pela labuta de me ter filho. As palavras se lhe saíam com imperativos carinhos. Às vezes, bradava como se fosse um general. E todos – os 13 – sabem: os 13 filhos – acatavam as ordens, com a relutância normal da intemperança da idade. Mas percebi nitidamente o quanto continuava integralmente bela no seu papel de mãe, que ela, com todas as batalhas enfrentadas, jamais abdicou.

Mãe jamais addica dessa sublime missão: ser mãe.

Todas são assim: ao mesmo tempo, rainhas e plebeias. Mandam e pedem. Suplicam. Choram. Riem. Rezam. Abraçam o filho que volta de uma simples viagem como se estivesse retornando do infinito, perdido na saudade

do inalcançável. — Pois é, fazem-me lembrar a minha Jacirema, 47 anos caminhando juntos os mesmos caminhos, quando o Aureliano, o primogênito, ainda adolescente, saiu do aconchego de casa para o mundo, indo passar uns longos dias na Inglaterra. E agora, o mais nono Thiago, que se encontra em Paria, França. Não houve nem há mais sossego. O contato erae é diário. Todas são iguais.: Recebem o filho como se fosse o pródigo. E ainda que esteja saindo da penitenciária, por ter praticado um desses crimes denominados hediondos, tão propagados pelos meios de comunicação, lá está esse misto de dor, ternura e amor, bem à porta da casa de detenção, sem demonstrar qualquer sentimento de vergonha, olhos em lágrimas, mas com incontido júbilo, a reverenciá-lo como se ele estivesse saindo do paraíso, recebendo-o de braços abertos, numa mistura de sorriso e choro por tê-lo consigo naquele momento do desejado e esperado encontro, ainda que momentâneo ou para sempre, como dádiva de um Deus-Pai piedoso.

Não há como explicar: é algo profundamente divino.

O seu caminhar a faz percorrer os mais diversos e ínvios caminhos. Ora ladeados de rosas, ora de espinhos, de risos ou de escárnios. Ora alegres, ora tristes. Mas fiel à sua missão. Pois é: a sua tarefa tem esse sentido missionário, cuja pregação não se exaure no tempo. Aliás, não há tempo. Isso mesmo: a sua missão é atemporal. Prolonga-se durante a vida e eterniza-se com a morte, onde se dá o milagre da ressurreição, com o espargir da vida e do amor, que foram por ela plantados, adubados e regados com a devotada insistência e o carinho dos grandes jardineiros.

Modelo de mãe é sempre o mesmo. Deus estabeleceu parece que um modelo único para o universo, que se concretizou na figura de Maria: – “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo; bendita és tu entre todas as mulheres. Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. E Ela: – “Aqui está a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” Assim, nasceu o sagrado compromisso de todas as mães. Na China, na Rússia, nos Estados Unidos, no Japão, na Arábia, aqui onde estamos. Mãe de rico. Mãe de pobre. Mãe de presidiário. De empresário. De operário. De padre ou de freira. Ou de pastor. De sem ou com terra. São sempre as mesmas, lavradas no sentimento eterno de amar.

Naquela figura mítica, narrada no início, eu vi a minha mãe, porque, através dela e nela, já bem envelhecida pela luta do viver e do amar, vi todas as outras mães, conscientes da sua infinita e sagrada missão de ser mãe.

P.S.: Reedito esta croniquinha, embora passado o dia comemorativo, para prestar esta homenagem às mães. Elas são eternas merecedoras.

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Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL