

São 187 anos do nascimento e extensa e imortal vida literária de Machado de Assis, que nasceu em 21 de junho de 1839. Os sinos do mundo digital badalaram para alertar esse fato, a marcar historicamente a literatura brasileira. Recebi o comunicado da Livraria Migalhas e da Estante Virtual. A primeira a fazer oferta de descontos de 30% para compra de livros que tratam do Bruxo do Cosme Velho; e a segunda, não fugindo dessa finalidade, mas fazendo alguns persuasivos e cativantes comentários de natureza literária, sem fins tão mercantilistas, a exortar que “hoje, a literatura brasileira está em festa. Há 187 anos nascia Machado de Assis, o nosso maior romancista e um mestre em traduzir a alma humana com ironia, elegância e genialidade”. E ainda faz este eloquente e necessário esclarecimento, a convencer quem é leitor ou mesmo quem nunca sequer teve a felicidade de manusear um livro ou um simples texto de Machado de Assis: “Celebrar Machado não é apenas lembrar o passado, é manter a nossa cultura viva. (…) Que tal aproveitar a data para redescobrir os mistérios de Capitu, as memórias irônicas de Brás Cubas ou a loucura de O Alienista?”
Antes de ler o célebre romance Dom Casmurro, quando ainda dava os primeiros passos nas leituras de autores brasileiros, como Machado, Alencar e Aluísio Azevedo, cuja obra, deste maranhense, O Mulato, li, e, por ser um romance naturalista, o final da história me causou grande perplexidade. De Machado de Assis li Memórias Póstumas de Brás Cubas e, em seguida, por haver uma relação com personagens, fiz a leitura de Quincas Borba. Voltei a fazer uma ou duas releituras de Memórias Póstumas, mas me ficou na lembrança o Capítulo Primeiro – Óbito do Autor, no qual consta esta parte introdutória em que Machado de Assis faz esta explicação: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.” O defunto autor justifica o seu método narrativo: “Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço…” Esse romance marca o início do realismo na literatura brasileira, e a temática é autobiografia de Brás Cucas, marcada pelo seu amor por Virgília, mulher de Lobo Neves. Após fazer a leitura de Quincas Borba, tive a felicidade de ler um dos melhores romances de Machado de Assis: Dom Casmurro, obra publicada em 1900, que tem como enredo a história de Bentinho, órfão de pai e criado com desvelo pela mãe (D. Glória), sendo destinado à vida sacerdotal, em razão de promessa por ela feita. Bentinho não tem interesse pela vida seminarista, pois mantém um namoro com uma das maiores e mais conhecidas personagens da literatura brasileira: Capitu. Da relação entre Bentinho e Capitu nasce o filho Ezequiel, que, à medida que vai crescendo, se torna cada vez mais parecido com Escobar, amigo seminarista de Bentinho. Este, ciumento, desconfia e planeja matar esposa e filho e suicidar-se, mas não tem coragem de fazê-lo. Dá-se a separação do casal. Ezequiel sai pelo mundo e, tempo depois, retorna e está ainda mais parecido com Escobar, o antigo colega seminarista de Bentinho. Ezequiel volta a viajar e morre no estrangeiro. Bentinho tranca-se em si mesmo e fica mais fechado nas suas dúvidas e passa a ser chamado de casmurro, expressão que deu título ao romance e que já é referida no Capítulo primeiro do romance, cuja publicação se deu em 1899, quando Machado de Assis completara 60 anos e atingira o ápice de sua carreira como romancista, contista e cronista. Nesta obra, Machado cria duas personagens que ficaram para história de nossa literatura: Bentinho e Capitu. Também é dela a dúvida ou a certeza do adultério. Ezequiel é ou não filho adúltero de Escobar? Nesse belo romance vale muito fazer a releitura e o reexame da narrativa. Trata-se de uma bem estruturada história de um dos maiores romancistas que o mundo conheceu e conhece.
Na comemoração desses 187 anos de nascimento e vida de Machado de Assis, não se pode olvidar o imenso contista e cronista que ele foi e continua sendo. Os estudiosos, aqueles que fazem análise literária, afirmam que nós, humanos, envelhecemos, mas a obra de Machado de Assis, não. E recomendam um caminhar mais simples para fazer a sua leitura, que, para quem gosta de literatura e quer mantê-la viva, pode segui-lo. Recomendam: primeiro, os contos; depois, os romances. Essa é a sugestão de Cláudio Soares, autor da biografia Machado – O Filho do Inverno. Segundo o roteiro por ele traçado, os jovens podem começar por A Missa do Galo (1894), avançar para Dom Casmurro (1899) e chegar a Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). “Enquanto Dom Casmurro transformou a ambiguidade de Capitu em um enigma, a ironia de Brás Cubas se converteu em instrumento de dissecação da alma”, analisa. Entre os romances, Guimarães destaca Memórias Póstumas e Lebensztayn, Quincas Borba (1891).” E você, após ler Machado, destacará qual?
Mas Machado teve uma vida familiar amorosa. Amou e foi amado por Carolina, a quem dedicou um dos mais belos poemas da língua portuguesa, como meio de aplacar o sofrimento pela sua morte, ocorrida em 20 de outubro de 1904, cuja primeira e terceira estrofe tem esta profunda declaração de amor: “Querida, ao pé do leitor derradeiro / Em que descansas dessa longa vida, / Aqui venho e virei pobre querida, / Trazer-te o coração de companheiro. (…) Trago-te flores, – restos arrancados / Da terra que nos viu passar unidos / E ora mortos nos deixa e separados…” Carolina morre em 1904, e, neste mesmo ano, Machado publica a sua última obra: Esaú e Jacó. Como afirma o escritor e ensaísta Afrânio Coutinho: “Primeiro prosador da língua e maior e mais completo homem de letras do Brasil” Esta é, em síntese, o que foi a vida ao longo de 50 anos de uma fecunda e austera carreira literária de Machado de Assis, nascido de uma família pobre, no morro do Livramento, filho de Francisco de Assis, mulato e pintor, e da lavadeira Maria Leopoldina Machado, vivendo uma vida de pobreza, mas que venceu com dedicação humanística todas as dificuldades para ficar no pedestal da história literária universal.
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