opinião

Elis, “viver é melhor que sonhar”, Regina

Aureliano Neto - Membro da AML, AIL e AMLJ · aurineto@hotimail.coim

O título deste texto – ou desta croniquinha, como quiserem que seja – queria que fosse assim: Elis, como nossos pais, Regina, para manter no pedestal essa poeta da música popular brasileira, que nos legou uma interpretação definitiva desse poema-canção do eterno poeta Belchior, nascido e vivido lá no Ceará do meu querido avô papai Manel, e que o intitulou Como nossos pais. Quem sabe fosse mais cativante do que o que foi dado acima: Elis, “viver é melhor que sonhar”, Regina. Acontece – e logo me explico – que tenho um profundo amor por esse verso de Belchior: Viver é melhor que sonhar. Uma metáfora de profunda filosofia que contempla numa relação ambivalente o viver e o sonhar. Sonhar é bom. É boníssimo. Viver todos os nossos sonhos muito mais ainda. E Elis Regina faz desse canto-poema uma declaração de amor ao sonhar e ao viver. Ninguém conseguiu ser tão verdadeiro, no canto e no cantar. Ela o foi. Ouvi-la e reouvi-la é uma necessidade estética e de crença de que viver é melhor que sonhar. Eu vivo, tu vives, nós vivemos, todos vivemos. Mas nunca deixamos nossos sonhos. E, como poetas perdidos no caminhar desta vida, procuramos realizá-los. O amor é o nosso combustível. Amar, viver e sonhar são os verbos que conjugamos no curso do viver. Talvez isso seja tema de filosofia. Mas prefiro a poesia. Pois, insisto: viver é melhor que sonhar.

Elis Regina, a nossa Elis, para os mais íntimos da sua arte cantar e encantar, com o seu belíssimo canto, de tantos poemas musicados, viveu e sonhou na eternidade de 36 anos, pois nasceu em 17 de março de 1945 e despediu-se para eternidade no dia 19 de janeiro de 1982. Não estava só. Nunca esteve só. Fez da poesia do canto o viver do seu sonho. Viver, para ela, fora sempre melhor que sonhar. Nestes versos do cearense Blechior, em que o poeta já nos advertia do perigo na esquina, ao clamar que “eles venceram e o sinal / está fechado pra nós / que somos jovens…”, para mais adiante o poeta, na voz da gaúcha de Porto Alegre, falar da força de todo o seu sentimento e dizer a todos nós que vivemos os nossos sonhos que “minha dor é perceber / que apensar de termos / feito tudo, tudo, tudo / tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos / e vivemos / como os nossos pais”. E “nossos ídolos / ainda são os mesmos / e as aparências / não enganam não.” O poeta e a voz enfática do canto de Elis, que transmite esse sentimento de viver como nossos pais,

nos exortam a viver o passado no sonho do tempo que ficou, porquanto lembra: “já faz tempo / e eu vi você na rua / cabelo ao vento / gene jovem reunida / na parede da memória / esta lembrança / é o quadro que dói mais.” Belchior, o poeta do viver e do sonhar, e Elis, a poeta que fez da voz a expressão maior do canto, nessa trilha de sonhos e poesia, se dão as mãos e vão por aí a dizer que ainda são os mesmos e vivem como os nossos pais. É a síntese do viver e do sonhar. O presente e o passado, que, no poema-canção Velha roupa colorida, se aconchegam no sonho do poeta, embora conflitantes, pois “no presente, a mente, o corpo é diferente / e o passado é uma roupa que não nos serve mais / no presente, a mente, o corpo é diferente / e o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Por isso mesmo, o poeta tem o cuidado de advertir: “Você não sente, não vê / mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo / que uma nova mudança em breve vai acontecer / o que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo / e precisamos todos rejuvenescer.” Precisamos rejuvenescer, com Trump ou sem Trump. E vencer a tentação desse demônio. Pensar e pensar: como é velha e tão carcomida essa história de ficar mais rico do nunca. É, com a licença poética, a cara escarrada do velho antigo.

Pois é, digo, o mundo muda. Todo segundo, todo minuto, a todo instante. O novo tem a mania de no amanhã ser bem antigo. O velho repete, como um macaco, a sua velhice. E nunca mais se saiu à rua em grupo reunido, o dedo em em V, cabelo ao vento, amor e flor, é passado. Drummond, o nosso poeta da velha e poética Itabira, em Poema da Necessidade, fala da necessidade dos novos tempos: “É preciso casar João, / é preciso suportar Antônio, / é preciso odiar Melquíades, / é preciso substituir nós todos. (…) / é preciso estar sempre bêbado, / é preciso ler Baudelaire, / (…) É preciso viver com os homens, / é preciso não assassiná-los, / é preciso ter mãos pálidas / é preciso anunciar O FIM DO MUNDO.” Este último verso de Drummond de Andrade já está envelhecido. O fim do mundo vem sendo diariamente anunciado. Só não vê quem não quer. Falta apenas apertar o botão da fatalidade destrutiva.

Vamos ao passado, ao passado antigo, apesar de, em alguns momentos, sermos os mesmos e insistirmos em viver como nossos pais, ou incorporando ao nosso cansado corpo o passado e seus sonhos, embora sejam uma roupa que já não nos sirva mais. Poetizemos, então.

Mia Couto, esse moçambicano da poesia e da prosa poética, no seu livro de poemas Vagas e Lumes, em Autobiografia, retrata todo esses sentimentos: “Onde eu nasci / há mais terra que céu. / Tanto leito é uma bênção / para mortos e sonhares. / E de tão pouco ser o céu / nasce o Sol / em gretas nos nossos pés / e os corações se apertam / quando remoinhos de poeira / se elevam nos telhados. / As mães / espanam o teto / e poeiras de astros / cobrem o soalha. / De tão raso o firmamento, / a chuva tropeça nas copas / enquanto nuvens / se engravidam de rios. / Com tanta escassez de céu / não há encosto / nem para a mais minguante lua / e os meninos, / na ponta dos dedos, / acendem estrelas. / Pois, / nessa terra / que é tanta para tão pouco céu, / calhou-me a mim ser ave. / Pequenas que são, / as minhas asas parecem-me enormes. / Envergonhado, / escondo-as dos olhares vizinhos. / Nas minhas costas / pesam / versos e plumas. / Voarei, / um dia, / sem saber / se é de terra ou de céu / a pegada do voo que sonhe.” Nesse poema de Mia Couto, passados e sonhos, a vida, se entrelaçam num viver de sonhos ou em sonhos que se quer viver – como nossos pais.

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Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL