

A noite vem chegando. Como canta João do Vale, a luz faz o claro / assubo nos aro / vou brincar no vento leste e ver a ema gemer no tronco do juremá! E ver o tempo, nesses baiões de João Batista do Vale, é um modo sublime de o tempo não passar. Mas passa, roçando-nos como a brisa que vem do mar. Ora, que passe. E fique o sentir poético da lembrança. Ainda tenho essa mania antiga de olhar pro céu, pra ver se as estrelas brilham e piscam, como a nos convidar para um passeio nas esferas celestiais, embora todo esse sentir pareça sentimento nascido de um romantismo vulgar. É apenas a mania de bisbilhotar o infinito.
Arraiais pra todo lado, não é? – penso. Tenho ficado por aqui a inspirar-me, olhando pro céu, como na música de Gonzaga. Ainda não vi nenhum balão multicor. Nem fogos. Nem fogueiras de São João. Ouço uns batuques pro rumo dali. Parece que pra lá a fogueira tá queimando. Alguém rebateu, com incredulidade: – Não, não tem fogueiras. É só música e dança. Forró de pé de serra, e a voz aguda de uns sertanejos. E as fogueiras?, insisto. Nada, garantiram-me. Fico por aqui, ansioso, para sentir o crepitar das fogueiras e ver o povo soltar fogos: chuveiros, pistolas, busca-pés, ou umas estrelinhas e o zoar das bombinhas de São João. Ah!, que história é essa, foi-me dito num coro de ceticismo. Ai, ai, São João, São João do Carneirinho. Plantar o milho verde no dia de São José. Isso é coisa de baião. Gonzaga gostava dessas coisas líricas. Lindas, não?! É isso. E é por isso mesmo olho pro céu e fico a pensar nos amores jurados no passar das fogueiras, armadas no cair da tarde e acesas no comecinho da noite. Um fogaréu, de porta em porta. As crianças a cantarem as toadas de Luís Costa e Danavó. O boizinho de cofo. O maracá chocoalhado com as pedras nas latas velhas e retorcidas. A toada cantada e repetida no coro feliz da meninada.
Olho pro céu. A fogueira precisa queimar, antes da noite começar. Todos dançando. Luiz com Yaiá. Ivo do seu Zé com Ivonete da Sinhá. Claudete com Aiá. José de Eurico com Maria de Dadá. A fogueira vai passando, e todo mundo passando a fogueira. É o compadre com a comadre. É o primo com a prima. É o namorado com a namorada. E o noivo com a noiva. A fogueira acende o pavio dessas amizades, que se estendem no infinito do tempo de amar. Olho pro céu. A lua passa bem devagar. Quieta, iluminando a alegria da noite de São João. As estrelas piscam sem cessar, e nos chamam pra dançar, bem juntinhos, com a mão no coração. O improvisado pedaço de madeira por cima das labaredas, como sinal de eterna união, alia-se à voz de súplica aos céus: São Pedro, São Paulo, São Felipe, São Tiago, quero que Sinhá seja minha comadre. Passa uma, passam duas, passam três vezes. De lá pra cá, daqui pra lá. Pronto, comadre. Pronto, compadre. O aperto de mão firma o compromisso de uma amizade que nem a morte consegue matar.
Olho pro céu. E vou pelas ruas. As fogueiras iluminam os turvos caminhos. As crianças pulam. O estridente chocalho da lata velha marca o ritmo da toada dos cantadores, a repetir até a fogueira acinzar. O menino veste a fantasia do boi, um cofo rústico, com rasgo na testa, para que não tropece na dança em volta do fogo. Olho pro céu. E contemplo todas essas noites de São João, a trocar conversa comigo mesmo. Os arraiais incendeiam de cantos e alegria. Fico, a olhar pro céu, e vejo que ele está lindo, como se cada estrela fosse uma fogueira de São João, num pisca-pisca alucinante. Saio do passado, e, tresloucado, olho pro céu, meu amor, e vejo que ele está lindo. Danço o baião, danço o forró, danço o xaxado, danço todas as canções de Gonzaga, Zé Dantas, Humberto Teixeira, João do Vale, que cantou a sua terra, modéstia parte seu moço, a sua e a nossa terra é um belezinha.
Danço todos os Sãos Joãos, e subo e desço as ruas do meu sonho, para ver o boi de matraca e deleitar-me de felicidade com poesia do cantador, sacudindo o maracá e, num repente, mais que um menestrel, cantar a doce toada numa récita poética de encanto improvisado. Olho pro céu. E, na poesia desse canto, danço com Yaiá, danço com Sinhá, e ainda danço com Raqué. São noites de São João. Por isso, olho pro céu, meu amor. E me vem o canto da saudade:
Ai que saudades que eu sinto Das noites de São João Das noites tão brasileiras nas fogueiras Sob o luar do sertão Das noites tão brasileiras nas fogueiras Sob o luar do sertão
Meninos brincando de roda Velhos soltando balão Moços em volta à fogueira brincando com o coração Eita, São João dos meus sonhos Eita, saudoso sertão, ai, ai
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