opinião

Às voltas com as minhas leituras

Aureliano Neto - Membro da AML, AIL e AMLJ aurineto@hotmail.com

Vamos amenizar a nossa conversa semanal. Deixemos só um pouquinho de lado o desprezível ditador do mundo, Trump, ainda assim pedimos desculpas aos seus seguidores, os antipatriotas que se dizem brasileiros, mas que torcem por mais um golpe, a sujar a nossa história, e isso desde a proclamação da República. Enfim, há Silvérios dos Reis em todos os cantos desta pátria verde e amarela, assim como o povo brasileiro continua a sofrer a crueldade da pena capital que foi imposta a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o único conjurado condenado à morte por enforcamento, em face da revolta da burguesia do ouro e de outros participantes da Inconfidência, menos afortunados, que se inconformaram com a extorsão de Portugal à nossa riqueza mineral.

Em rápidas e agradáveis leituras, que tenho feito aqui do aconchego de Carolina – mas a do sul Maranhão -, o resumo da história da Conjuração Mineira nos diz que a política fiscal de Portugal em relação à colônia tornou-se mais rígida. Portugal, governado pelo Marquês de Pombal, ordenou o aumento da cobrança de impostos no Brasil, como forma de financiar a reconstrução de Lisboa, destruída por um terremoto em 1755. E esse ato escorchante contribuiu para corroer a relação entre colonos e Coroa até o ponto de, na década de 1780, começar a ser organizada uma conspiração. Desse rompimento, veio a revolta, uma conspiração organizada pela elite socioeconômica da capitania das Minas Gerais. Nas palavras das historiadoras Lília Schwarcz e Heloísa Starling, o grupo que formava os conspiradores da conjuração eram pessoas que “tinham laços familiares, de amizade ou econômicos”, que os vinculavam com a “cúpula da sociedade das Minas”. Destacam, ainda, que, apesar de ser formado majoritariamente por membros da elite socioeconômica, o grupo era composto por pessoas dos mais diversos ofícios, como poetas, cônegos, engenheiros, médicos, militares, comerciantes etc. O membro da conspiração de situação econômica mais humilde era justamente Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, símbolo do nosso povo da época e atual, que comandava a tropa que monitorava a estrada (Caminho Novo), que ligava o Rio de Janeiro a Minas Gerais. Foi ele um dos membros mais participativos da Conjuração.

O que levou à revolta? Foi a insatisfação da elite econômica da capitania das Minas Gerais com a política fiscal imposta pela Coroa portuguesa. Essa insatisfação existiu ao longo de todo o século XVIII, mas a partir da década de 1780 ganhou força e ares de separatismo, dando uma nova dimensão a esse movimento político. Os envolvidos com essa revolta tinham em mente que os impostos cobrados por Portugal eram excessivos, mas também estavam imbuídos de outros ideais – como a separação de Minas Gerais e sua transformação em uma república. Os inconfidentes tinham percepção de que a capitania tinha condições econômicas de se autossustentar.

Relata a história que o estopim para a deflagração do movimento contra a Coroa aconteceu durante as administrações de Luís da Cunha Meneses e do Visconde de Barbacena, ambos governadores da capitania. O primeiro teve uma administração corrupta que prejudicou interesses da elite local para favorecimento de seus amigos. Muito a ver, aviso aos Silvérios dos Reis, com as peripécias de Bolsonaro e família, Trump e seus seguidores. A pergunta que exige resposta: o que os Bolsonaros negociaram, para que o ditador do mundo determinasse a “derrama”.

Pois bem. Voltemos à história. Na administração do Visconde de Barbacena, dizem os historiadores, foi enviada uma ordem para realizar o cumprimento da cota de ouro anual, que era estipulada pela Coroa. Nos tempos atuais, por ordem de Trump. Para cumprir essa cota, foi autorizada a realização da “derrama”, ou seja, a cobrança obrigatória com o objetivo de alcançar o percentual exigido. Minas vivia uma crise na produção extrativa do ouro. Felizmente, não estamos com a nossa economia em crise. Mas a “derrama” do tarifaço, para perdoar os crimes de Bolsonaro e família, pode levar a economia do Brasil a uma crise. Mas… Só resta lutar, resistir.

O certo é que na história da sempre lembrada Inconfidência Mineira, tendo como causa a exploração pela Coroa portuguesa de nossas riquezas minerais (o ouro), destacou-se um traidor, infelizmente de nome Joaquim, só que Silvério dos Reis, o qual, estava envolvido com a conspiração e devia grandes somas de dinheiro à Coroa portuguesa. Denunciou o movimento organizado pelos inconfidentes como uma forma de ter as suas dívidas perdoadas. Silvério dos Reis deu todos os detalhes da estratégia da Inconfidência e permitiu que autoridades coloniais planejassem a repressão contra os envolvidos. Vários dos envolvidos foram condenados por morte na forca, mas d. Maria, rainha de Portugal, perdoou todos os condenados, menos um: Tiradentes. Tiradentes acabou sendo enforcado no dia 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro. Foi esquartejado e partes do seu corpo foram espalhadas pela estrada que ligava o Rio de Janeiro a Minas Gerais. Sua cabeça foi colocada em exposição na praça central de Vila Rica e lá permaneceria até apodrecer, mas acabou desaparecendo e não se sabe o seu paradeiro até hoje.

E o traidor Silvério dos Reis foi para Portugal onde se homiziou para fugir de atentados a sua nefasta pessoa, após a delação. Já os traidores dos nossos tempos fogem para os EUA. Mas Silvério veio morrer aqui no Maranhão, em fevereiro de 1819. Só resta suplicar: que o bom Deus nos livre desses traidores.

Esta é uma parte pequenina da nossa história, com as mudanças no tempo dos personagens, porém a traição tem as mesmas nuances, só que no novo enredo o Brasil é o Tiradentes e os traidores são muitos os Silvérios dos Reis.

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Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL