opinião

A Vida pela Janela

Aureliano Neto - Membro da AML, AIL e AMLJ · aurineto@hotmail.com.

Apreciava-se a vida pela janela. Por esse aconchegante espaço retangular, o sol nascia e se punha no cair da tarde. Por ela, a bela moça, alisada pela carícia do vento, espiava o tempo e desejava que passasse, para ver através dele o seu sonho com olhar de desejo e cheio de promessas; por ela, as crianças, num choro espremido, expiavam os seus pecados nascidos de alguma traquinagem. E o castigo era ficar quieto naquele ventilado vão da casa. (Ora, ora, quantos, como punição, passaram todo o carnaval à janela! No máximo tinham o direito de jogar serpentina ou alguns exíguos confetes.)

Por aquele espaço, muitos de nós, ainda pequenos, tantas vezes, espiavam a vida, que se escorria no andar despreocupado do transeunte a passar pala rua. A vida era daquele tamanho. Sentados na janela, a tarde passava, e viam-se as pessoas se escoarem no final daquela esquina. O tempo era imenso, um sonho intranscurso, renovado. Tinha-se tempo para tudo: olhar, conversar, brincar e fofocar. Começava com o nascer do sol e findava quando ele declinava caindo lá no final da rua, com o semblante avermelhado de quem havia cumprido o seu dever de nos conceder a luz e o calor.

Visto daquele vão da casa, o entardecer era de uma beleza de um quadro em cores renascentistas, projetando na visão infantil os conflitos multicores, sendo a vermelhidão que se espraiava e, a um só tempo, arrefecia a crueza salutar dos seus raios. Era da janela. (Ou era a janela?!) Uma espécie de mirante, onde as crianças nela ficavam, ou sentadas ou apenas com parte do corpo de fora, a projetar-se para a calçada. De lá se espiava a vida. As pessoas passavam. Falavam. Cumprimentavam-se.

Perguntavam pelos de casa. Sobre a saúde de quem estivesse acometido de algum mal. Através da janela, vivia-se intensamente o cotidiano. Também, convivia-se. Sem a janela, o homem era tão pequeno, parecendo mais um anão fora do circo, sem a graça das estripulias do picadeiro. Era mais um urso no seu momento de hibernação. Vivia a solidão da impossibilidade de convier com as alegrias e as tristezas da rua.

Da janela tudo se sabia, tintim por tintim. Não havia vida privada. Tudo era devassado. Ai daquele e ai daquela que tivesse uma intimidade extraconjugal. O filme da infidelidade descortinava-se pela

janela. E, como um clip atrevido, saía de casa em casa, pespegando no infaustoso ou na desditosa a denúncia do delito. Não sobrava pedra sobre pedra. E desse reduzido retângulo das portas-e-janelas, captavam-se os fatos e se dava a eles a devida e obrigatória divulgação. Não havia a fronteira entre o privado e o público. A vida costumava ser mais bela da janela. E, às vezes, infelizmente, triste.

Da janela, tomei, como diziam os jornais, conhecimento in loco de uma tragédia: estava sentado na janela e, lá do final da rua, veio a notícia do assassinato de um conhecido, cujo nome era Pedro Rico,. Era um dia de chuva fina, dessas que molham. Percebi o movimento que se fazia naquela parte do logradouro, na esquina que dava para a Vila Macaúba. Um carro preto, “Prefect”, parava e alguém era posto no seu interior. Passou pela porta de casa numa velocidade incomum. De imediato, soube que Pedro Rico tinha sido esfaqueado e fora levado ao Pronto Socorro, da Rua do Passeio. Logo, pela rádio Ribamar, com a presteza de sempre, era dada a notícia da sua morte no atendimento médico de emergência. Era um dia chuvoso e com ar de tristeza, que ficou mais triste ainda.

Ainda assim, da janela via-se o dia mais claro, sem a opacidade das venezianas, das seguranças das grades de ferro ou aço, ou dos vidros intransparentes. O céu mais azul. As nuvens mais brancas. A rua sempre mais alegre, com os vendedores de pirulito, de cuscuz, e o verdureiro, sempre pontuais, no início da manhã. As tristezas das pessoas eram amenizadas pelos rebuliços alegres das crianças. As conversas atravessam metros de distância, sem precisar do fio telefônico e muito menos do celular, chegando com intimidade e nitidez ao ouvido dos interessados. Conversava-se, assim, com mais intimidade. Namorava-se com mais encanto. E o canto da dona-de-casa varava a janela e retumbava pela vizinhança. A voz esganiçada desse cantar alegre ou sofrido era a certeza de que o serviço da casa estava sendo feito e a comida, na panela, soltava os primeiros odores. Em cada casa uma verdadeira Maria Callas, cantando a sua opereta doméstica, de alegria ou tristeza. Não havia o aprisionamento da grade. Vivia-se e dormia-se a liberdade da janela escancarada. Ou apenas encostada, sem ferrolho. E ainda com uma banda aberta, para que o vento espargisse a sua alegria e amenizasse o calor. Havia nisso a felicidade da janela aberta.

Da janela, o mundo tinha a poesia da liberdade, poeticamente lembrada por Chico Buarque: “o tempo passou na janela e só Carolina não viu”, e ainda que toda gente homenageia sua Januária na janela.

Vê-se que a janela é mais do que um vão de descanso e lazer, uma cultura da vida, um referencial poético. Sem ela, a vida perderia toda a graça de ser. Aliás, está perdendo. Sem janela, somos um Robinson Crusoe encarcerados nas frias paredes da solidão.

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Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL