
O ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, nessa segunda-feira, dia 10 de março, ao ser homenageado pelo Tribunal de Contas do Município de São Paulo, SP, com o Colar do Mérito Prefeito Brigadeiro Faria Lima, em seu discurso de agradecimento destacou a importância e o valor da sociedade democrática, afirmando que, na democracia, há espaço para diversidade de ideias, porém enfatizou que “não tem lugar para a violência e para intolerância”. O ministro Luís Barroso fez crítica à cultura midiática atual, em que a responsabilidade social está sendo marginalizada pelo antivalores da mentira, e acrescentou: “Surge um problema gravíssimo que depõe contra a condição humana: a agressividade, a mentira, o absurdo. Trazem muito mais engajamento do que a fala moderada, do que a fala racional, do que a fala respeitosa e, portanto, há um incentivo perverso à disseminação do ódio e de coisas ruins.”
Vive-se um grave momento de decaimento ético e religioso. A prática criminal, em todos os seus aspectos hediondos, passou a ter mais relevância sobre os valores consagrados há milhares de anos pelo cristianismo, em que o fundamento é amar ao próximo como a se ama a si mesmo. E isso não é slogan para arrecadar dízimo, ou atrair adeptos e angariar votos. É uma regra de vida: perdoar até mesmo o inimigo. Não sendo assim, sepultamos todos os princípios que fundamentam a teoria humanística de um bom viver. Toda e qualquer instituição política materializa, na prática da vivência, os princípios que a alicerçam: direitos e obrigações, cidadania e liberdade, democracia e preservação da dignidade humana. De outro modo, tudo pode acabar em nada.
Feita esta introdução, faço referência a passagens introdutórias de um dos livros de Michael J. Sandel, O Descontentamento da Democracia – uma nova abordagem para tempos periculosos, e destaco e cito alguns trechos da introdução à nova edição – Democracia em risco, para que tenhamos uma ideia dos perigos pelos quais a democracia e o mundo estão passando. Afirma Michael Sandel, ao iniciar a sua obra, objeto de um estudo aprofundado que fez, envolvendo professores e alunos de universidade:
“Nossa vida cívica não vai muito bem. Um presidente derrotado incita uma multidão raivosa a invadir o Capitólio, numa tentativa violenta de impedir o Congresso de certificar os resultados da eleição. Mais de um ano depois do início do governo Joe Biden, a maioria dos republicanos continua a acreditar que só perderam a eleição porque Donald Trump foi roubado. Enquanto a pandemia destrói quase um milhão de vidas nos Estados Unidos, brigas inflamadas em torno de máscaras e vacinas revelam a polarização existente no país. O ultraje público diante dos assassinatos de homens negros desarmados, cometidos por policiais, provocou uma reação nacional à injustiça social, mas estados por todo o território implementam leis que criam maiores dificuldades para o exercício do voto.”
E sobre Trump e as consequências sobre os valores democráticos, o filósofo Sandel esclarece: “O governo Trump e seu desfecho rancoroso lançaram uma sombra sobre o futuro da democracia americana. Mas nossos problemas cívicos não começaram com Trump nem terminaram com sua derrota. Sua eleição foi um sintoma do desgaste dos laços sociais e de uma condição democrática fragilizada.”
Os resultados dessa fragilização, em decorrência do projeto neoliberal, foram devastadores, assim analisados e relatados por Sandel: “Há décadas que a divisão entre vencedores e perdedores vem se aprofundando, envenenando a política, afastando-nos um dos outros. Desde os anos 1980 e 1990, as elites políticas levaram adiante um projeto neoliberal de globalização que trouxe ganhos colossais para quem estava no topo e desemprego e salários estagnados para a maioria dos trabalhadores. Seus defensores argumentavam que os ganhos dos vencedores poderiam ser usados para compensar a situação dos perdedores. Mas essa compensação nunca chegou. Os vencedores usaram suas conquistas para garantir influência em altos postos e consolidar seus ganhos. Os governos deixaram de se contrapor ao poder econômico concentrado. Democratas e republicanos se uniram para desregulamentar Wall Street, colhendo generosas contribuições de campanha.
Quando a crise financeira de 2008 levou o sistema financeiro para a beira do abismo, bilhões foram gastos para salvar os bancos, enquanto as pessoas comuns, proprietárias de imóveis, tiveram que se defender sozinhas. A raiva diante do resgate dos bancos e a terceirização dos empregos para países de baixos salários alimentaram protestos populistas que mobilizaram todo o espectro político: à esquerda, o movimento Occupy e a forte oposição de Bernie Sanders a Hillary Clinton no pleito de 2016; à direita, o movimento Tea Party e a eleição de Trump.” Sandel, Michael J.. O descontentamento da democracia: Uma nova abordagem para tempos periculosos (pp. 13-14). Civilização Brasileira. Edição do Kindle).
Este é o mundo que está aí. O mundo de guerras. A guerra-guerra e a guerra fiscal. Enquanto as tarifas “protecionistas” de Trump avançam, os Estados Unidos perdem, no mercado de ações, 4 trilhões de dólares. São turbulências sobre turbulências.
A empresa Tesla, do bilionário trumpista, Elon Musk, teve a perda de cerca de US$ 125 bilhões. Bem. Pra quem é bilionário é pouco. Aqui, em nossa pátria amada, o delinquente Bolsonaro, exorta a criminosa intervenção dos Estados Unidos, a afrontar a nossa soberania e o Estado de direito. Lá, os EUA perdem o poder unipolar. Outras forças emergem, com mais poder econômico. Mas, a par de tudo isso, há um perigo de neofascismo, com a insurgência de regimes autoritários, como afirmação do capitalismo decadente, representado pela extrema-direita. E aí tudo pode se complicar, com a iminência de uma guerra de maior amplitude. Essas são algumas verdades, que não se quer que sejam.
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