

Em 11 de novembro de 1947, ao discursar na Câmara dos Comuns, Winston Churchill, estadista britânico, definiu a democracia como sendo a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. Há outra definição de Churchill, quando compara o capitalismo ao socialismo, quando afirma que “a desvantagem do capitalismo é a desigual distribuição das riquezas; a vantagem do socialismo é a igual distribuição das misérias”. Por essas concepções espirituosas e contraditórias de Churchill, a conclusão a que se chega é de que democracia, capitalismo e socialismo continuam a sua trajetória histórica para encontrarem o seu sentido renovador para o melhor ou o pior. Vivem as suas crises, embutidas nas contradições sociais do nosso cotidiano.
A Democracia, definida como governo do povo, em contraposição ao governo de um (monarquia) e de poucos ou dos mais ricos (oligarquia) e o governo de um só, que usurpa os direitos dos demais (tirania), vem sofrendo mortíferos ataques de grupos conservadores e de todos aqueles que se rotulam progressistas liberais. O capitalismo e o socialismo estão postados numa arena de luta. Digladiam-se para ver quem nocauteará o outro e assume a vanguarda pela igualdade. Ainda não há vitorioso nessa luta histórica. A guerra é perpétua. A bem da verdade, se examinarmos, com isenção, nos sistemas econômicos e políticos do mundo, não há um só Estado capitalista e, do mesmo modo, socialista ou comunista. Tem-se sempre um modelo de Estado autoritário, a serviço de grupos hegemônicos. Essa é a realidade, aqui, na China, nos Estados Unidos da América, no Japão, ou na Rússia. O exemplo mais bizarro é a figura de Donald Trump, presidente do Estados Unidos, que se autonomeou ditador do mundo, e que, segundo o filósofo e linguístico Noam Chomsky, no seu livro Poder e Terrorismo, p. 150, ao referir-se às forças militares do Tio Sam, acentua que Israel, neste momento e em todos, é uma espécie de base militar norte-americana no exterior. E os atos que os judeus praticam são atos que os Estados Unidos autorizam ou incentivam. A realidade está exposta e ao vivo, com a guerra deflagrada contra Irã, sob o falso pretexto de destruição de armas nucleares, em razão do enriquecimento de urânio, com a finalidade armamentista.
No curso da história, a Revolução Industrial trouxe o capitalismo e, como consequência, gerou a luta de classes, embora tenha contribuído para abolir o tráfico escravo. O ideal, ainda pensado por muitos, é que, por via do processo democrático, as desigualdades fossem abolidas. Mas esse irrealizável sonho de alguns ou de muitos continua sendo tão-só uma utopia. Eis um dos graves problemas do mundo. Tanto que, na Introdução do livro Depois do Império, a decomposição do sistema americano, o historiador e demógrafo francês Emmanuel Todd, alerta ao mundo que “os Estados Unidos estão se tornando um problema para o mundo. Estávamos acostumados a ver neles uma solução. Guardiães da liberdade política e da ordem econômica durante meio século, eles surgem cada vez mais como fator de desequilíbrio internacional, promovendo incerteza e conflito sempre que podem”, ao praticar uma política firmada no unilateralismo. E não menos sombria, conforme também alerta o ex-secretário de Defesa dos EUA, William Perry, é a crescente ameaça – bem iminente – de guerra nuclear definitiva, probabilidade bem maior do que durante a Guerra Fria, em que o mundo ficou perto desse desastre humanitário. Estamos no rumo do apocalipse, já que as superpotências optam pela busca da opressão e exploração econômica, em vez de conviver em paz.
Adam Przeworski, professor de política e economia da Universidade Nova York (In: Crises da Democracia, Zahar, 2020), faz aprofundado estudo sobre os problemas que põem em risco a Democracia, e, nesse contexto, examina o avanço pernicioso do populismo de direita, que é, segundo a sua expressão, gêmeo ideológico do neoliberalismo. Na citada obra, o professor Przeworski, referindo-se às várias concepções de Democracia, como a concebida em bases constitucionais, faz esta citação: “Democracia é simplesmente um sistema no qual ocupantes de governo perdem eleições e vão embora quando perdem.” Em verdade, a Democracia, como regime de governo, só se efetiva com a eliminação ou redução acentuada das desigualdades. Nesse ponto da questão, erradicar a mazela das desigualdades não está em fomentar a guerra pela guerra, que só gera sofrimento e morte, ou, o pior, a possibilidade de pôr o mundo na iminência de uma guerra nuclear.
Os Estados Unidos estão vivendo um processo perigoso de declínio econômico, social e político. Se não conseguem os EUA colocar a sua própria casa em ordem, estão a perder o status, alcançado no curso de sua história, nos séculos XIX e XX, de líder hegemônico ocidental.
O mundo, se quiser sobrevier à hecatombe nuclear que se anuncia cada vez mais próxima, tem que optar entre viver em harmonia democrática, no concerto das nações, ou o horror da destruição total.
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