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A Crônica: senectus morbus. Será?

Aureliano Neto - Membro da AML, AIL e AMLJ · aurineto@hotmail.com

Estou às voltas com a minha biblioteca. Tento pelo menos arrumá-la. Ponho um livro pra cá, outro pra lá. E nada. Nesse afã do cotidiano, pego um livro pra ler; outro apenas pra olhar. Vou tentando levar em frente essa missão frustrada de leitor e bibliófilo. Ao abrir um deles, cujo título, em capa dura, é Heróis Vilões & Trapaceiros, abro-o numa das páginas e lá me vejo diante de um título “Revolucionário Impiedoso”, com destaque a Maximilien Robespierre, considerado o incorruptível e tendo sido o responsável pelo “Reinado do Terror” durante a iluminista Revolução Francesa. Em destaque a sua célebre sentença: “O terror é a única justiça rápida, severa e inflexível; é então uma emanação da virtude.” Essa regra, que não se diferencia muito do trumpismo atual, foi ditada em pronunciamento em fevereiro de 1794, e deu sustentação ideológica ao terror praticado pelo Estado francês. A guilhotina era a arma rápida, severa e inflexível, aplicada sem julgamento, na execução da sentença de morte. Só que, em 28 de julho de 1794, diz o texto: Robespierre foi preso, e, no dia seguinte, sem ser submetido a julgamento, foi decapitado na guilhotina, assim sendo vitimado pela única justiça, rápida, severa e inflexível por ele decretada.

Passei adiante. Em seguida, estava a fazer a leitura de dois livros de crônicas. Um, do cronista Otto Lara Resende: Bom Dia para Nascer, composto de várias crônicas de excelente qualidade literária. Uma delas, O Galo, o João e o Manuel, numa linguagem simples, própria de uma boa crônica, tem este parágrafo inicial: “Levei um susto quando li que João Gilberto ia completar sessenta anos. Ninguém escapa dessa vertigem do tempo. Ou dessa cilada. E é de repente. Os antigos diziam que a velhice começa aos sessenta. E lá dizia o latim: snectus morbus. Velhice é doença. Até que enfim os antigos já não têm razão. Brincando, se diz que há três sexos. Ou se dizia, porque hoje o terceiro é outro. Antes, eram o sexo masculino, o sexo feminino e o sexagenário.” Vejam a sutileza do cronista. De uma simples notícia, avança no exame das mudanças do tempo, não só a de natureza física, sentido na carne de cada um de nós, mas as de temperamento, de um ser que não é mais aquele ser, sendo outro ser. Tudo isso pode decorrer da velhice: senectus morbus. Ou é apenas um ato de passagem. De um encontro consigo mesmo. Quem sabe seja por isso que Cícero adverte na sua obra “De senectute”: pugnandum tamquam contra morbum, sic contra senectutem = deve-se lutar contra a velhice tanto quanto contra uma doença.

Numa outra crônica – A Defunta como Vai? -, o tema do cronista é a própria crônica, tratada a partir do primeiro parágrafo: “A crônica morreu ou está morrendo? Esta pergunta foi feita exatamente há vinte anos, em março de 1972, a Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade. Leitura fácil, o leitor hoje prefere a televisão e outros meios de comunicação, declarou Paulo Mendes Campos.” A partir dessa introdução, Oto Lara Resende passa discutir a crônica no seu sentido estético literário ou não. As opiniões são as mais divergentes possíveis. Uma certeza, independentemente das mais variadas concepções valorativas ou não, o Brasil é o berço onde floresceu a crônica. E um dos seus cultores foi Machado de Assis. Mas o grande mestre da crônica brasileira, considerado o maior deles, foi, e ainda é, Rubem Braga, cuja definição dada por ele a essa popular manifestação da nossa escrita, sem quaisquer ares de erudição, é: “-Se não é aguda, é crônica.” Nessa simplicidade, longe de ser, como afirmou Antônio Cândido, literatura ao rés-do-chão, que contém um sentido desvalorativo.

Os tempos são outros. Essa é a verdade tangível, sem ser transcendental. Mas a velhice chegou à crônica. Os meios de comunicação por onde transitava livremente até nós leitores, que eram os jornais e as revistas semanais ou mensais, são outros, a exigirem do cronista reflexões mais objetivas. A leitura está sendo posta num segundo ou terceiro plano. Ainda assim, a crônica superará este momento de envelhecimento e se renovará, sendo diariamente aguardada a palavra do cronista. Ou da cronista. O nosso poeta e cronista Ferreira Gullar (A crônica tem a seriedade das coisas sem etiqueta.) disse que a arte existe porque a vida não basta. Estas palavras podem ser aplicadas à crônica, que, como arte da escrita, completa a vida no nosso dia a dia. Clarice Lispector afirmava não saber fazer crônica. E como sabia. Deu a sua força literária para que a crônica não padecesse da doença do envelhecimento. Um pequeno trecho exemplifica essa sua participação: “Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária. A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca. (Lispector, Clarice. Clarice na cabeceira: crônicas . Rocco Digital. Edição do Kindle(. É isso aí. Eis a velha crônica renovada.

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Aureliano Neto
Aureliano Neto Colunista

Membro da AML e AIL