
Acontecimento mundializado e preferido por quem gosta da arte literária. Mais especificamente, de ler. Conhecida pela marca Flip e realizada na cidade do Paraty, no Rio de Janeiro. A abertura desse grande evento literário foi feita pelo músico e também poeta (por que não assim dizer?) Arnaldo Antunes, que falou e lembrou histórias, ao celebrar a obra do homenageado da 23ª Flip, o poeta e músico Paulo Leminski. Foram muitas as histórias vividas e contadas por Arnaldo Antunes e, como destaca o encarte da Flip do jornal O Globo, Antunes declara que Leminski “era um elo entre a cultura e a contracultura, erudito e popular, fácil e difícil, caprichoso e relaxado. Ele discorria com desenvoltura sobre a poesia de várias épocas e línguas diferentes. Era um exemplo de erudição sem empáfia nenhuma, trazendo dos clássicos o que era vital, libertário na forma e no conteúdo”.
De fato, é bem isso o que afirma o músico Arnaldo Antunes. Sem fosse seu seguidor, tinha lido uma parte da sua substanciosa obra poética, e destaco os haicais, espécies de poemas que Leminski cultivou durante toda a sua vida literária. Em 1983, o poeta curitibano lançou a sua primeira obra poética Caprichos e Relaxos, que foi sucedida por outras como Distraídos Venceremos e La Vie en Close. Na feira, entre tantas obras, um dos livros lançados foi Melhores Poemas, de Leminski, organizado por Fred Góes, compositor, dramaturgo e professor titular do Departamento de Ciências da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Álvaro Marina, doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Literatura Comparada pela mesma universidade, onde são selecionadas algumas preciosidades do homenageado do ano da 23ª Flip, o qual faz uma poesia concisa, para transmitir muitos sentimentos e informações pessoais e do mundo, com o uso de poucas palavras.
Num texto de crítica literária, publicada na revista Quatro Cinco Um, nº 95, deste ano, Leyla Perrone-Moisés, ao discorrer sobre as qualidades da poesia de Paulo Leminski, que, conforme diz, tem agora milhares de leitores, faz este didático comentário: “A primeira é a sua concisão, a capacidade de dizer mais com menos. Num texto em prosa, a concisão significa transmitir muita informação, usando poucas palavras. A poesia é concisa por natureza. Resulta de um
insight de seu autor, o bom poema não tem nenhuma palavra supérflua, e atinge o leitor de modo imediato, provocando nele surpresa, satisfação sensorial e cognitiva, prazer estético.” E conclui: “Leminski aprendeu concisão com os haicais japoneses e com os epigramas da cultura e aforismos da cultura ocidental, que ele conhecia e citava.” Leminski era um poeta de uma bagagem de leituras literárias e filosóficas que ecoam em toda a sua poesia e seus ensaios. Sabia, porque lia e estudava, e vivia. Assim o saber e viver estavam acumulados na sua poesia. Não foi, em momento algum, como alguns insistem em dizer, um poeta marginal. Nem tampouco a sua poesia expressa a contracultura.
Em Profissão de Febre, vê-se esse poder da concisão criativa e de vivência. O poema, em palavras resumidas, diz muito:
quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
Ou ainda em A lua no cinema:
A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
Ninguém olhava pra ela,
E toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!
A 23ª Flip correspondeu ao valor poético do homenageado Paulo Leminski, que partiu bem cedo para eternidade, deixando admiradores e seguidores, e que, por não ser marginal, poemizava: Marginal é quem escreve à margem, / deixando branca a página / para que a paisagem passe / e deixe tudo claro à sua passagem. / Marginal, escrever na entrelinha, / sem nunca saber direito / quem veio primeiro, / o ovo ou a galinha.” Assim era Leminski: “essa estrada vai longe / mas se for / vai fazer muita falta”. E como faz.
· Membro da AML, AIL e AMLJ
· aurineto@hotmail.com
Por