

Certamente é um orgulho para nós filhos, termos constatado, ao longo da vida, o legado de trabalho, disciplina, gratidão, fé e princípios morais, em especial o de justiça social, deixado pelo nosso pai, tanto diretamente para nós quanto para nossos descendentes atuais e futuros.
No entanto, gostaríamos de ressaltar outro aspecto de seu legado que por vezes parece ficar um tanto invisibilizado e que, para nós, define uma capacidade humana intensamente complexa e absolutamente relevante de nosso pai: a capacidade de expressar e de favorecer o exercício de afeto genuíno. Merece ressalva que, em nosso momento histórico, ser capaz de exercer relações pautadas em afeto sincero constitui um feito gigante, uma vez que a humanidade enfrenta, pela primeira vez, uma pandemia de solidão, conforme tem reiteradamente pontuado a Organização Mundial de Saúde.
Compartilhamento de afeto sólido requer uma habilidade ímpar, além de intenção, tempo dedicado, frequência e dedicação constantes. Relações afetivas estruturantes requerem investimento emocional deliberado. No nosso caso, as relações com ele construídas foram cultivadas em momentos diversos: em incontáveis idas ao aeroporto para comermos pizza, vendo os aviões decolarem; em inúmeros mergulhos no mar, seguidos de caranguejo e água de côco no bar do Nonato, na praia do Olho D´água; comprando e lendo revistinhas aos domingos; aproveitando viagens a Teresina junto aos nosso avós, inclusive acompanhando as longas contações de histórias de vovô Francisco Guilherme, enquanto ele descascava cana de açúcar a nossos pedidos. Posteriormente, também merece destaque a companhia de nosso pai junto a Paulo José quando ele o levava para surfar e ainda quando levava e buscava Artenira de festinhas em matinées no Jaguarema ou em ensaios de quadrilhas no Renascença.

São também muitas as lembranças de diversas conversas ao longo de nossas vidas adultas e das visitas, independentemente de datas comemorativas, aos nossos filhos, definindo para nós um outro lado de José Arteiro da Silva.
Seu legado para além do trabalho pode ser materializado de modo exemplificativo na sua verbalização emocionada ao ver pela primeira vez a neta Laila: “a essa menina eu amo mais do que eu amo a mim mesmo”.
Por fim, consideramos ainda pertinente tomar emprestado um relato significativo que ouvimos no dia de seu velório, emitido por uma ex funcionária do ambiente profissional no qual ele iniciou e terminou sua vida laboral, o seu escritório no edifício Caiçara, no centro da ilha do amor, aonde ele cumpria diariamente o ritual de assistir ao espetáculo do pôr do sol.
Para mais uma vez materializar a capacidade de José Arteiro da Silva de suscitar a construção de laços afetivos relacionais presenciais sólidos, tão em falta hoje em um mundo globalizado hiper conectado, vale relembrar o que ouvimos: “O ambiente do escritório, não era, para mim, e para todos, apenas um ambiente de trabalho. Era um ambiente de família, de amizades, tanto que ainda mantenho
vivos os lações afetivos que cultivei à época. Acredito que foi ele, José Arteiro, o responsável pela criação desse verdadeiro clima de família no escritório”.
José Arteiro da Silva era sim trabalho árduo e disciplinado, mas não só, era também afeto genuíno vivenciado nas relações cotidianamente cultivadas conosco, ao longo de toda sua vida.
Por