o pioneirismo da UEMA

Vinte anos da Universidade Aberta do Brasil 

Antônio Roberto Coelho Serra - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Quando falamos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I), muitos associam esses termos a laboratórios, startups ou soluções digitais. No entanto, essa tríade também se materializa em uma das mais relevantes inovações sociais do Brasil nas últimas décadas: a ampliação do acesso ao ensino superior por meio da Educação a Distância (EaD), impulsionada pela Universidade Aberta do Brasil (UAB). Em 2025, a UAB completa vinte anos, consolidando-se como um marco transformador na educação pública, especialmente em estados como o Maranhão, onde a UEMA desempenhou um papel pioneiro. Lançado em 2005, o programa UAB representou um marco na educação brasileira ao estruturar uma política pública inovadora, focada na formação docente e na expansão do ensino superior de qualidade para o interior do país. Ao integrar tecnologias educacionais a um modelo colaborativo, a UAB cumpriu seu papel democratizante, rompendo barreiras geográficas e sociais. Como coordenador da UEMA nessa ação entre 2005 e 2013, testemunhei de perto essa transformação – experiência que enriqueceu minha própria trajetória acadêmica, inclusive favorecendo meu estágio de pós-doutorado na Open University (Reino Unido).

Embora inicialmente articulado com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o programa se fortaleceu ao reconhecer que universidades estaduais, já com presença consolidada no interior, estavam mais aptas ao desafio. Assim, a UEMA destacou-se como uma das primeiras instituições estaduais a integrar o sistema UAB, ao lado da UNEB (Bahia) e da UEPB (Paraíba).

Nossa trajetória de interiorização já era sólida. Desde 1992, a UEMA havia implantado o Programa de Capacitação de Docentes (PROCAD) e, em 2003, o Programa de Qualificação Docente (PQD), nos quais atuei como coordenador técnico entre 1996 e 2003, sob a comprometida liderança da Profa. Iva Souza da Silva. Em paralelo, em 1998, a UEMA, sob a gestão do reitor César Pires, tornou-se a oitava universidade no Brasil e a primeira no Maranhão a ser credenciada pelo MEC para ofertar cursos a distância, com o Programa de Magistério em Nível Médio (Magistério 2001). Na esteira desse credenciamento, em 2000, criou o Núcleo de Educação a Distância (NEAD), com a missão de conceber, produzir, difundir e avaliar experiências inovadoras em EaD.

Convocado pelo saudoso Prof. Raimundo Vale, e com o consentimento do reitor Waldir Maranhão, assumi a coordenação do NEAD em 2004. À época, o Núcleo contava com dois cursos ativos: o Magistério 2001 e a Licenciatura em Magistério das Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Os alunos estavam distribuídos em seis polos/campi, coordenados pelas extraordinárias professoras: Ruth Muniz – in memorian (São Luís), Franc-lane Nascimento (Caxias), Wanilde Viana (Bacabal), Marylúcia Cavalcante (Santa Inês), Vanessa da Silva (Balsas) e Luciléia Gonçalves – hoje reitora da Uemasul (Imperatriz). Esse pioneirismo permitiu a inserção da UEMA entre as primeiras universidades públicas brasileiras a integrar o sistema UAB. Nesse contexto, pude participar diretamente da construção do projeto pedagógico do curso piloto de Administração e da mobilização de municípios maranhenses para compor a rede inicial de polos do programa, que culminou na aprovação de 22 municípios maranhenses. O curso piloto de Administração, financiado pelo Banco do Brasil, foi viabilizado em articulação com estados, municípios e instituições públicas de ensino superior, a partir da orquestração e atuação direta de Antônio Soares, um dos diretores do Banco à época.

Apesar de sua articulação ter sido iniciada em 2005 e incluir processos seletivos em diversos estados, a UAB foi formalizada apenas pelo Decreto nº 5.800/2006, consolidando-se como um sistema nacional de universidades públicas. Nesse período, o professor Celso Costa atuou como seu primeiro Coordenador Geral no MEC e, posteriormente, como Diretor de Educação a Distância na Capes. Como registro inicial dessa concertação, em 2008, organizei com o professor João Augusto Ramos e Silva o livro “Por uma Educação sem Distância”, que reúne experiências e recortes da realidade brasileira sobre os efeitos da Universidade Aberta do Brasil. A obra constituiu-se em um registro histórico e institucional das vivências e aprendizados que moldaram essa política pública inovadora em seus anos iniciais.

Ainda em 2008, com o apoio decisivo da reitoria da UEMA, liderada pelos professores José Augusto Silva Oliveira (reitor) e Gustavo Pereira da Costa (vice-reitor), transformamos o NEAD em Núcleo de Tecnologias para Educação (UEMANET). Essa mudança ampliou nossa atuação para além da EaD tradicional, focando na intermediação metodológica, didática, operacional, logística e tecnológica em todos os níveis e modalidades de ensino da universidade. Naquele momento, além do curso de Administração a distância pela UAB, aprovamos também o financiamento junto à Capes/MEC para as Licenciaturas em Pedagogia e Filosofia, a Especialização em Educação do Campo, o MBA em Operação de Serviços Financeiros e os cursos de Aperfeiçoamento em Gênero e Diversidade na Escola, Educação de Jovens e Adultos e Formação de Tutores, totalizando mais de 8.500 vagas ofertadas à população maranhense. Hoje, essa trajetória exitosa tem tido continuidade com a exemplar coordenação da professora Lígia Tchaicka.

Todo nosso esforço e resultados obtidos não passaram despercebidos. Lembro-me honrado do telefonema do professor Carlos Bielschowsky, então Secretário de Educação a Distância do MEC, que, com o consentimento do Ministro Fernando Haddad, convidou-me para assumir a Diretoria de Regulação e Supervisão em Educação a Distância no MEC, para atuação direta junto ao Sistema UAB. Embora não tenha assumido o posto, o convite foi um reconhecimento do nosso trabalho, que posicionou a UEMA como referência nacional em educação a distância em todos os níveis.

Enquanto coordenador geral do UEMANET, representando a UEMA junto ao Sistema Universidade Aberta do Brasil, tive a felicidade também de ter implantado os 13 primeiros cursos técnicos a distância da UEMA, a partir do Sistema Escola Técnica Aberta do Brasil (Rede e-Tec), uma derivação da UAB, que só foi possível graças ao primoroso trabalho da professora Eliza Flora.

Em 2012, minha tese de doutorado, uma das primeiras no Brasil a abordar a UAB como política pública, revelou que os cursos EaD apresentaram, em média, desempenho superior aos cursos presenciais no ENADE. Esses dados reforçaram a convicção de que não se tratam de categorias distintas, mas de uma modalidade educacional com metodologias, linguagens e suportes diversos, rompendo com a lógica dicotômica entre presencial e a distância.

A UAB é um exemplo claro de como ciência, tecnologia e inovação podem se articular para ampliar o acesso, gerar transformação e promover justiça social. Atualmente, o Sistema UAB conta com aproximadamente 179 mil alunos matriculados, sendo cerca de 96 mil em cursos de formação inicial e continuada de professores da educação básica. Abrangendo aproximadamente 150 instituições de ensino superior e presente em mais de mil polos pelo país, o sistema oferta cerca de 919 cursos ativos. A UAB possui planos de expansão significativos, prevendo a abertura de 290 mil vagas até 2026, das quais 148,2 mil destinam-se à formação inicial de professores.

Vinte anos depois, o compromisso com uma educação pública, de qualidade, inclusiva e acessível, alicerçada em políticas duradouras, mantém-se inabalável. A Universidade Aberta do Brasil consolida-se não como simples marco histórico, mas como revolução silenciosa – prova viva de que políticas educacionais persistentes transformam realidades e geram uma conquista coletiva de valor inegável. E o Maranhão, atualmente com seus mais de 50 polos e a atuação direta da UEMA, UFMA e IFMA no Sistema UAB, tornou-se peça central nessa trajetória transformadora. Hoje, o estado garante que seus jovens talentos encontrem oportunidades de ensino superior em suas próprias terras, consolidando o desenvolvimento local e o futuro de seus filhos, motivo de imenso orgulho para o Maranhão.