opinião

Vale da morte, não!

Roberto Serra - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Na última semana, durante o Mobiliza São Luís promovido pelo Sebrae Maranhão, a Agência Marandu foi palco de um momento marcante para o ecossistema de inovação local: o lançamento do Fundo de Investimento em Participações (FIP Nordeste Capital Semente), um fundo que já conta com R$ 120 milhões garantidos pela aliança entre Banco do Nordeste (BNB), Sebrae e Finep. O objetivo é investir em startups em estágio inicial no Nordeste, com aportes em troca de participação societária — o chamado equity, em que o investidor se torna sócio da empresa por meio da cessão de um percentual de suas ações. Ter um fundo desse porte atuando na região é estratégico porque cria um instrumento financeiro robusto para que empresas nascentes atravessem o “vale da morte”, período crítico entre a validação da ideia e a geração de receita suficiente para garantir a sobrevivência do negócio.

Startups, como já tratei em artigo anterior, são empreendimentos criados para operar em condições de grande incerteza e que precisam crescer de forma rápida e escalável, sem aumento proporcional de custos. Desenvolver produtos ou serviços inovadores exige investimento inicial que não prevê retorno imediato — desde os custos com prototipagem e equipe até os testes de mercado. Sem capital de risco, a curva de aprendizagem é lenta e a mortalidade dessas empresas muito alta, especialmente em regiões menos favorecidas. Fora da “Faria Lima”, conseguir investidores que aceitem risco é raro, o que torna iniciativas como o FIP ainda mais essenciais.

Apesar desses desafios, o Nordeste já se consolidou como o segundo maior polo de startups do Brasil, superando o Sul e ficando atrás apenas do Sudeste. O Sebrae Startups Report Região Nordeste 2025 aponta 4.661 startups mapeadas nos nove estados da região. Capitais como Recife, Fortaleza, Salvador, Natal e João Pessoa lideram o ranking, e São Luís começa a despontar no mapa nacional. A atuação articulada de instituições como Finep, Sebrae e Banco do Nordeste comprova que esse movimento de descentralização da inovação é real. Um fundo como o FIP tem potencial para acelerar ainda mais esse avanço, ao mesmo tempo em que reduz a dependência de subvenções públicas. No Maranhão, esse papel tem sido cumprido de forma decisiva pela Fapema, que, por meio de seus editais de fomento, vem apoiando pesquisas aplicadas e iniciativas inovadoras. A consolidação de fundos de investimento amplia esse movimento, permitindo que as startups avancem do estágio inicial de apoio público para um patamar de maturidade em que disputem recursos privados de forma profissional e contínua.

Essa maturidade é justamente o grande diferencial que percebi nas rodadas de negócios que acompanhei recentemente — no Startup Summit, em Florianópolis, e no Neon, em Teresina. Chegar despreparado a essas mesas é desperdiçar oportunidades: quem domina seus números, conhece o mercado e apresenta indicadores sólidos tem muito mais chances de atrair investimentos. É dessas interações que surgem conexões que resultam em aportes de capital, seja por fundos de venture capital, investidores-anjo ou programas de inovação aberta. Cada mecanismo cumpre uma função e tem um perfil de risco próprio. No Maranhão, há apenas uma iniciativa local estruturada de venture capital: a Aduela Ventures, ligada ao Grupo Mirante, que atua no modelo media for equity, oferecendo suporte, mídia e visibilidade de marca em troca de participação societária. Há, portanto, amplo espaço para que empresários maranhenses diversifiquem seus investimentos e para que o ecossistema local atraia fundos com outras teses setoriais.

Essa mesma lógica de investimento aparece no exemplo da Gamezônia, startup maranhense de jogos digitais cujos fundadores participaram do programa Shark Tank Brasil, exibido pela Band/Sony, e receberam proposta de investimento de um dos “tubarões” em troca de participação acionária. Essa é a essência do modelo de equity: o investidor assume o risco junto ao empreendedor, apostando no crescimento futuro da empresa. O FIP Capital Semente segue essa lógica, mas acrescenta governança estruturada, métricas de seleção, exigência de tração ou protótipo e acompanhamento profissional das startups investidas.

Esse fundamento encontra respaldo no Decreto Estadual nº 37.783/2022, que regulamenta o Marco Legal Estadual de CT&I e, em sua Seção II, prevê a possibilidade de participação minoritária do Estado e de suas instituições no capital de empresas inovadoras, além da constituição de fundos de investimento voltados à ciência, tecnologia e inovação. Trata-se de um caminho concreto para que o poder público, universidades e ICTs atuem como investidores estratégicos em startups e spin-offs. A Agência Marandu da UEMA, que vem incubando diversas deep techs, poderá futuramente realizar esse tipo de investimento, tornando-se um agente ativo na transformação de pesquisas em negócios escaláveis. Transformar esse potencial legal em prática efetiva, com orçamento e governança adequados, é passo estratégico para fortalecer o ecossistema de inovação maranhense.

Integrar de forma efetiva esse marco legal estadual a iniciativas como o FIP e a outros mecanismos de investimento teria efeito multiplicador importante, evitando que boas ideias fiquem engavetadas ou dependentes exclusivamente de editais de fomento. Quanto mais capital de risco, fundos estruturados e investidores apostarem em startups maranhenses, mais profissionalizados serão os negócios e menor será sua dependência de subvenções. Editais públicos são essenciais para pesquisa aplicada e para negócios em estágios de ideação e validação, mas não sustentam a escalada de crescimento. Diversificar as fontes de financiamento permitirá que empreender deixe de ser uma aventura isolada para se tornar um esforço coletivo.

O lançamento do FIP Nordeste Capital Semente é um marco dessa transformação e deve ser comemorado como o início de uma nova etapa para o empreendedorismo inovador na região. Ele representa uma ponte decisiva sobre o vale da morte, oferecendo o suporte de capital necessário para que ideias promissoras não apenas sobrevivam à fase crítica de validação, mas avancem com velocidade em direção ao mercado, à geração de receita e ao crescimento escalável. Que as startups maranhenses se habilitem!