opinião

Tiúba: entre flores, ciência e negócios sustentáveis

Roberto Serra - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Uma das maiores vantagens de dirigir uma agência de inovação é a oportunidade constante de aprender. Diariamente, conhecemos novas pesquisas e soluções que revelam oportunidades de negócios sustentáveis vindas de todas as áreas da ciência. Sou das ciências sociais aplicadas, com formação em administração, e me aproximei de um tema que parecia distante do meu campo de atuação – a criação de abelhas nativas sem ferrão, conhecida como meliponicultura – em razão do convite para proferir a palestra de abertura do evento em celebração ao Dia Estadual da Abelha Tiúba, comemorado no dia de ontem, 9 de setembro. A data, que também homenageia as profissões de Administrador e de Veterinário, mostrou-se mais do que propícia, uma vez que a meliponicultura é, em sua essência, uma atividade que demanda gestão eficiente e conhecimentos zootécnicos especializados.

A escolha do 9 de setembro tem um significado especial. A legislação que estabeleceu o Dia Estadual da Abelha Tiúba, sancionada pelo Governador Carlos Brandão em 2022, foi aprovada no ano em que se completaria o centenário de nascimento de Warwick Estevam Kerr, renomado cientista e referência mundial no estudo de abelhas, que também exerceu o cargo de reitor pro-tempore da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). A proposta partiu do então deputado estadual César Pires, que também esteve à frente da universidade, e foi embasada nos estudos dos professores Eleuza Tenório e José Maurício Bezerra, pesquisadores da instituição e grandes defensores da meliponicultura maranhense.


O evento, organizado pela Agência Marandu/UEMA, reuniu pesquisadores, produtores, estudantes e empreendedores em uma programação que incluiu palestras, oficinas, degustação e um concurso para eleger o melhor mel de tiúba do Maranhão. Na abertura, ministrei a palestra “Polinizando inovação e tecnologia: a meliponicultura como negócio sustentável”, na qual procurei demonstrar como a tiúba, pequena em tamanho, é gigante em impactos: gera renda, fortalece comunidades, preserva o meio ambiente e abre portas para negócios inovadores.


A tiúba (Melipona fasciculata) é uma abelha nativa do Maranhão, fortemente ligada à identidade cultural da Baixada Maranhense, mas também presente no Litoral/Munim, no Cerrado e na Amazônia maranhense. Dócil e adaptável, pode ser criada em quintais, agroflorestas, escolas e até em áreas urbanas. Seu mel é diferenciado: mais fluido, levemente ácido e com propriedades físico-químicas únicas. Além do mel, a tiúba produz pólen, cera, colônias e a geoprópolis – uma mistura de resinas com partículas de terra, cujas propriedades antioxidantes, cicatrizantes e anti-inflamatórias despertam interesse científico. E, acima de tudo, presta um serviço ambiental vital: a polinização, que aumenta a produtividade de culturas como maracujá, caju, abóbora, melancia, tomate e hortaliças, além de contribuir para a regeneração de espécies nativas.


Esse potencial já se reflete em iniciativas empreendedoras em amadurecimento na Incubadora UEMA. Durante o evento, duas startups apresentaram suas propostas. A Apimeli Company trabalha com a própolis vermelha de abelhas sem ferrão, ainda pouco explorada comercialmente. Seu foco é desenvolver um extrato padronizado, validado por pesquisas, para fortalecer o sistema imunológico e ser aplicado em cosméticos e produtos de saúde. A Mel da Tribo, por sua vez, surgiu da percepção da redução das populações de abelhas nativas e da necessidade de ampliar a produção racional. A startup produz colônias de tiúba com genética selecionada, adaptadas a sistemas modernos de manejo. Ambas apostam na combinação de ciência, inovação e sustentabilidade para transformar recursos naturais em oportunidades econômicas e sociais.


Um dos caminhos mais promissores para o setor é a conquista de uma Indicação Geográfica (IG) para o mel de tiúba do Maranhão. O selo atestaria as características únicas do produto e sua ligação com o território e com os modos tradicionais de produção. Para isso, será necessário avançar na caracterização científica, na delimitação geográfica e, principalmente, na construção de uma governança coletiva que una produtores e instituições. Uma IG agregaria valor, protegeria o consumidor contra fraudes e colocaria o Maranhão em destaque nos mercados mais exigentes.

A ciência já trouxe contribuições valiosas: análises detalhadas do mel, pesquisas sobre os efeitos terapêuticos da geoprópolis, estudos genéticos e experimentos que comprovam o impacto da polinização na agricultura. Mas há muito por fazer. A tecnologia pode oferecer sensores para monitorar colônias em tempo real, sistemas de rastreamento de lotes de mel, equipamentos para desumidificação que atendam a normas internacionais e até soluções em biotecnologia para cosméticos e suplementos. Startups em outras regiões do Brasil já seguem por caminhos semelhantes, sinalizando que esse mercado está em expansão.

O momento agora é de ação. As bases estão lançadas: o conhecimento científico acumulado, o empreendedorismo florescendo e o marco legal estabelecido. O próximo passo exige convergência de esforços. É imperativo que poder público, setor produtivo, instituições de pesquisa e investidores unam-se em uma agenda comum para estruturar essa cadeia. Precisamos fomentar políticas públicas específicas, atrair investimentos para escalar as soluções já existentes e conectar nossos produtores aos mercados nacional e internacional. A tiúba já cumpriu sua parte, polinizando nosso ecossistema de inovação. Cabe a nós, agora, colher os frutos e transformar todo esse potencial em prosperidade tangível e desenvolvimento sustentável para todo o Maranhão. Celebrar a tiúba é, no fim, celebrar a nossa própria capacidade de transformar tradição em futuro — desde que avancemos juntos, com ciência, inovação e cooperação