

A convite do Sebrae Maranhão estive na última semana em Florianópolis para participar do Startup Summit 2025, um dos maiores eventos de inovação da América Latina. O encontro reuniu mais de 12 mil pessoas, três mil startups e trezentos expositores. Ao longo dos três dias, rodadas privadas de investimento movimentaram cerca de duzentos milhões de reais. O palco trouxe nomes como Mois Navon, cofundador da Mobileye e referência mundial em chips de visão computacional para veículos autônomos, e também Júlio Moreira, presidente do INPI, que lançou o Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID 2025). O relatório, no entanto, revelou que o Maranhão permanece na penúltima posição entre os estados, ainda que com avanços em áreas específicas. Embora o IBID não avalie diretamente startups, ele considera variáveis como patentes, produção científica, economia criativa e uso de tecnologias digitais, dimensões fortemente influenciadas pelo dinamismo dessas empresas.
Na linha de um meme que circula nas redes sociais, perguntar “o que são, como vivem e o que fazem as startups?” ajuda a abrir a conversa sem perder a seriedade do tema. O termo é muitas vezes usado de forma indiscriminada, como sinônimo de empresa jovem ou apenas inovadora. Mas startup não é qualquer negócio novo. Eric Ries, em The Lean Startup, define-a como uma instituição criada para desenvolver produtos ou serviços em condições de extrema incerteza. A palavra já era usada no início do século XX, mas foi no Vale do Silício, a partir da década de 1970, que ganhou o sentido atual, consolidado nos anos 1990 com a explosão das empresas de internet. O ponto central é expandir-se de forma acelerada sem que os custos aumentem na mesma proporção. Foi assim com Google, Amazon e Tesla no exterior e com Nubank, iFood e 99 no Brasil, que nasceram pequenos e transformaram setores inteiros.
A incerteza que acompanha essa trajetória torna indispensável o capital de risco. O Summit evidenciou a importância dos investidores e fundos privados que aportam recursos para testar, errar, ajustar e, quando se encontra o caminho, escalar. Sem esse capital, a curva de aprendizagem seria muito mais lenta. Há, porém, um complemento essencial: o financiamento público, por meio de editais, programas de fomento e iniciativas de agências de inovação, que viabiliza estágios embrionários — sobretudo em negócios de base científica — ainda distantes do apetite do investidor privado.
Ao tratar desse universo, é importante separar conceitos que se confundem no uso cotidiano. Enquanto “startup” literalmente remete a “empresa nascente”, o termo “spin-off” significa “derivada”. É a empresa que nasce de outra organização já existente, seja da universidade, quando pesquisadores transformam resultados de pesquisa em negócio, seja de uma corporação, quando um projeto ou tecnologia se converte em empreendimento independente. Assim, muitas das empresas de base científica e tecnológica incubadas na UEMA podem ser consideradas spin-offs, embora compartilhem também características típicas de startups.
Essas empresas vivem e prosperam em ecossistemas de inovação, onde universidades, aceleradoras, incubadoras, governo, empresas e fundos interagem. Sobrevivem porque conectam soluções a demandas reais e porque acessam recursos privados e públicos para ganhar tração. Por isso, territórios que acolhem startups tendem a ser mais dinâmicos e competitivos. Santa Catarina, sede do Summit, é um bom exemplo: ocupa hoje a segunda posição no ranking nacional do IBID, reforçando a maturidade do seu ecossistema e o peso de atividades intensivas em conhecimento.
Por que isso importa? Porque startups geram inovação aplicada, atraem investimentos e criam empregos qualificados. No Maranhão, iniciativas de biotecnologia, educação e tecnologia da informação já despontam no cenário nacional. No próprio Startup Summit, duas startups da Incubadora UEMA ilustraram esse potencial: a Autoclipper, que utiliza inteligência artificial para transformar vídeos longos em cortes personalizados, simplificando a vida de criadores de conteúdo; e a Miniverso, que desenvolve experiências em realidade virtual voltadas a ações formativas e a vivências imersivas em diferentes ambientes. Além desses casos, nosso estado também esteve representado pelo Gamezônia (jogo decolonial carregado de saberes tradicionais que dissemina preservação ambiental com diversão), pela Apoena (tecnologia e bioeconomia para transformar o coco babaçu em produtos de alto valor) e pela Ubrlância (aplicativo de compartilhamento e acionamento de ambulâncias, voltado à logística de saúde), entre outras iniciativas.
O Nordeste, aliás, já é a segunda região do país em número de startups, atrás apenas do Sudeste, resultado de um movimento de descentralização que vem ganhando força. É nesse contexto que o Maranhão se insere, graças especialmente às políticas do Sebrae e ao fomento da Fapema. Soma-se a isso iniciativas como o Programa de Incubação de Startups Inova Maranhão (SECTI) e os esforços das universidades maranhenses, representadas em ações como a Incubadora UEMA/Agência Marandu, as Fábricas de Inovação do IFMA, o BAITES da UFMA e o Oxygen Hub da Uniceuma. Todas essas iniciativas representam passos concretos que precisam ser fortalecidos para que o estado se reposicione no mapa nacional da inovação.
Startup, portanto, não é apenas uma palavra da moda. É uma forma de pensar negócios baseada em inovação, experimentação e escalabilidade. Quando um ecossistema funciona, ele reposiciona economias locais, cria novos setores e eleva regiões inteiras, como no Vale do Silício, nos Estados Unidos, em Shenzhen, na China, e hoje em polos brasileiros em plena expansão, como São Paulo, Florianópolis, Natal e Recife. Temos como criar as condições para que isso também aconteça em São Luís e Imperatriz, ampliando oportunidades e resultados para o estado. Ainda falta maior alinhamento entre políticas públicas, mecanismos de financiamento exclusivos e cultura empreendedora, mas os primeiros passos já foram dados para posicionar o Maranhão de vez no mapa da inovação nacional.