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O próximo passo do desenvolvimento no Maranhão

Roberto Serra e Sérgio Gusman - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA - Presidente da Agência de Fomento do Estado do Rio de Janeiro - AgeRio

O Brasil atravessa um momento de reorganização de suas políticas de desenvolvimento, com maior ênfase na inovação, na reindustrialização e no fortalecimento das economias regionais. Nesse contexto, fundos de investimento, programas de crédito e instrumentos de apoio às empresas inovadoras ganharam centralidade no debate público. A experiência recente, no entanto, demonstra que esses mecanismos só produzem efeitos duradouros quando articulados a estruturas institucionais locais robustas, capazes de garantir continuidade, escala e coerência às estratégias adotadas. No caso do Maranhão, essa constatação recoloca no centro do debate a necessidade de avançar na criação e no fortalecimento de dispositivos organizacionais próprios que articulem financiamento, ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico.

É nesse ponto que ganha relevância a discussão sobre a existência — ou não — de um banco de desenvolvimento ou de uma agência de fomento estadual. Não se trata de um debate meramente técnico, mas de uma escolha estratégica sobre como o Estado organiza sua capacidade de financiar o próprio desenvolvimento. O arcabouço normativo do Banco Central do Brasil distingue essas figuras de forma clara. Bancos de desenvolvimento são instituições financeiras estaduais com capacidade de captar recursos no mercado e oferecer crédito de médio e longo prazo para projetos estruturantes.

As agências de fomento, por sua vez, não podem captar depósitos do público e atuam no financiamento de capital fixo e de giro associado a projetos de desenvolvimento local, operando com recursos próprios ou repasses públicos, sobretudo para micro e pequenas empresas, sempre sob regulação e fiscalização do Banco Central, o que assegura governança, transparência e reduz riscos de desvios no uso dessas ferramentas.

Se esse tipo de crédito estivesse disponível aos empreendedores maranhenses em condições acessíveis, o impacto seria significativo. Interações mais robustas entre universidades e empresas seriam estimuladas, projetos cooperativos se ampliariam, patentes e spin-offs se multiplicariam. Mas desenvolvimento econômico não é apenas um conceito institucional ou um indicador macroeconômico; ele se manifesta na vida cotidiana das pessoas. Sobreviver é estar preso à urgência do básico; viver é ter condições de planejar, escolher e investir no futuro dos filhos — como decidir comprar um livro ou um caderno, e não apenas garantir a próxima refeição. É esse salto, da escassez permanente para a capacidade de escolha, que políticas de crédito bem desenhadas podem produzir.

Em várias partes do Brasil esse movimento já ocorre de forma concreta. A Desenbahia estruturou linhas de crédito voltadas à economia criativa e à inovação no agronegócio; a Desenvolve/AL opera o Inovacred em parceria com a Finep; a Agefepe, em Pernambuco, combina financiamento produtivo com editais da Facepe; a Desenvolve/SP financia parques tecnológicos; o BRDE apoia programas alinhados à Nova Indústria Brasil; e a AgeRio consolidou-se como uma agência de fomento robusta, com estímulos ao empreendedorismo feminino, economia criativa e energias renováveis. Esses exemplos demonstram que, com boa governança e visão de longo prazo, o crédito estatal pode elevar a competitividade regional.

Essas experiências revelam um ponto comum: estados que dispõem de um duplo mecanismo — uma fundação científica de fomento e uma instituição financeira de desenvolvimento — conseguem alinhar pesquisa, inovação e mercado de forma sistêmica. Nesse contexto, é fundamental reconhecer o papel estratégico da FAPEMA, que há anos financia a pesquisa científica, a formação de recursos humanos e projetos de inovação no Maranhão, sustentando a base do conhecimento e impulsionando startups nascentes. Esse esforço, contudo, alcança maior impacto quando articulado a uma agência de fomento ou banco de desenvolvimento capaz de transformar conhecimento em escala produtiva, emprego e renda.

Os efeitos dessa articulação são amplos: sociais, com geração de empregos qualificados e redução das desigualdades; econômicos, com diversificação produtiva e aumento da competitividade; e ambientais, com fortalecimento da bioeconomia e das energias renováveis. O Maranhão, com biodiversidade singular, posição logística estratégica e rede universitária em expansão, reúne condições objetivas para avançar nessa direção.

Ainda assim, o estado permanece entre os poucos do país sem um banco de desenvolvimento ou agência financeira de fomento, ficando à margem do Sistema Nacional de Fomento, coordenado pela Associação Brasileira de Desenvolvimento. Integrar-se a esse sistema permitiria ao Maranhão ampliar fontes de financiamento e apoiar de forma mais consistente suas cadeias produtivas estratégicas.

A experiência brasileira mostra que uma agência de fomento só se consolida quando alguns pilares estão bem definidos: apoio político-institucional; crédito estruturado; capacidade técnica e boa governança; e o empreendedor, agente “corajoso” que assume riscos e transforma oportunidades em negócios reais. Sem essa combinação, não há política de fomento sustentável.

Por isso, à luz das discussões nacionais sobre financiamento à inovação e das possibilidades legais de participação acionária do Estado em empresas inovadoras, torna-se oportuna a criação de um instrumento financeiro estadual — banco de desenvolvimento ou agência de fomento — concebido como iniciativa rentável, sustentável e articuladora. Mais do que criar uma nova instituição, trata-se de construir o motor financeiro capaz de transformar potencial em realidade. O futuro do Maranhão depende, em grande medida, da coragem de dar esse próximo passo agora.