Na lanterna da Inovação:

O papel decisivo das universidades maranhenses

Roberto Serra - Professor Associado e Diretor da Agência Marandu/UEMA

A posição do Maranhão no Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID) de 2024, produzido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), não é apenas um dado estatístico. Ocupando a penúltima colocação entre as unidades da federação, o estado reflete fragilidades históricas que atravessam desde a base educacional até os elos mais sofisticados da cadeia de inovação. No entanto, essa realidade não deve ser vista como uma sentença irreversível, e sim como um convite urgente à ação. Ao dizer isso, ressalto que a inovação não surge por acaso, ela é resultado de políticas públicas consistentes, investimentos estratégicos e, sobretudo, da articulação eficaz entre universidades, setor produtivo, governo e sociedade.

Nesse contexto, é imperativo reconhecer que a melhoria desses indicadores para o Maranhão pode gerar um ciclo virtuoso, repercutindo em múltiplas frentes: crescimento do número de empresas inovadoras, ampliação das exportações de produtos com identidade territorial, valorização de cadeias produtivas locais, geração de empregos qualificados, incremento da arrecadação fiscal e, principalmente, melhoria dos indicadores sociais. Para viabilizar essa aspiração, sem desconsiderar as responsabilidades compartilhadas dos demais atores (governo, empresas e sociedade civil), aponto, no recorte deste artigo, exclusivamente o papel estratégico e intransferível das universidades maranhenses.

Faço isso inspirado pelas recentes iniciativas da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) e da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) em articulação com o INPI, para o inédito lançamento do Programa de Propriedade Industrial para o Desenvolvimento Regional, este artigo propõe uma reflexão sobre o papel central que as universidades maranhenses devem assumir para reverter esse cenário. O IBID avalia a inovação em sete pilares – Instituições, Capital humano, Infraestrutura, Economia, Negócios, Conhecimento e Tecnologia e Economia Criativa – , oferece um roteiro claro para essa transformação.

A experiência de outros estados demonstra que, quando as universidades assumem um papel ativo no ecossistema de inovação, os resultados são transformadores. São Paulo e Santa Catarina, por exemplo, os estados mais bem posicionados no ranking, oferecem lições valiosas. São Paulo lidera em quase todos os pilares, com destaque para ‘Conhecimento e tecnologia’ e ‘Economia criativa’, graças à sua densidade tecnológica e à forte integração entre universidades e empresas. Santa Catarina, por sua vez, sobressai em ‘Instituições’ e ‘Infraestrutura’, com um ecossistema marcado pela colaboração entre universidades, parques tecnológicos e arranjos produtivos locais.

No contexto desse índice, o Maranhão enfrenta desafios significativos e apresenta fragilidades em todos os pilares. É nesse quadro que as universidades maranhenses emergem como atores fundamentais para gerar impactos mais diretos e mensuráveis, prioritariamente nos pilares “Capital Humano”, “Conhecimento e Tecnologia” e “Negócios”. Para tanto, entendo que a reversão de indicadores negativos exige que as universidades assumam um protagonismo ainda maior, direcionando esforços e políticas internas para cada uma dessas áreas e agindo como catalisadoras de uma verdadeira virada na cultura de inovação do estado.

Para melhor desempenho no pilar ‘Capital Humano’, as universidades precisam ir além da formação tradicional e da mera ampliação do número de matrículas. O foco deve ser na excelência e na inovação, o que significa investir estrategicamente na qualidade do ensino e direcionar currículos para áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), que são a base da economia do futuro. É crucial que haja alinhamento com as potencialidades econômicas do estado, como energias renováveis, biotecnologia e tecnologias para o agronegócio. A criação de programas de pós-graduação stricto sensu voltados para pesquisas aplicadas às demandas regionais representa um eixo estratégico fundamental. No meu entender, essa abordagem não apenas qualifica nossa força de trabalho e retém talentos no estado, mas especialmente cria as condições para reverter os indicadores que mantêm o Maranhão nas últimas posições dos rankings de desenvolvimento.

O pilar ‘Conhecimento e Tecnologia’ é o termômetro que mede o impacto da pesquisa acadêmica na inovação. O Maranhão, na minha avaliação, ocupando a última posição especificamente nesse pilar, precisa urgentemente fazer a transição de uma cultura focada exclusivamente em publicações científicas para uma que valorize a aplicação prática desse conhecimento. Uma das formas de se verificar isso está no volume de depósitos de patentes e outros tipos de propriedade intelectual por pesquisadores, na transferência de tecnologias para os setores produtivos e na criação de startups/spin-offs a partir de pesquisas acadêmicas. Nossas universidades poderiam, por exemplo, estimular a proteção de invenções relacionadas à biodiversidade local ou ao desenvolvimento de tecnologias sociais para comunidades tradicionais, transformando estrategicamente conhecimento acadêmico em ativos de inovação.

Infelizmente, a produção de propriedade intelectual no Maranhão ainda é incipiente. Os dados do INPI revelam que a UFMA, mesmo sendo a principal depositante do estado, não alcança um número suficiente de depósitos para impulsionar significativamente o Maranhão no ranking, reforçam a necessidade de intensificar as políticas de incentivo em todas as universidades. Uma ótima oportunidade para isso é a participação no Programa de Propriedade Industrial do INPI, iniciativa crucial nesse sentido, visando capacitar e articular o ecossistema para que mais instituições e pesquisadores transformem suas invenções em ativos de propriedade industrial, contribuindo para a melhoria da posição do estado em rankings como o IBID.

A contribuição da universidade para o pilar ‘Negócios’ é a mais tangível em termos econômicos. A formação de mestres e doutores com perfil empreendedor é um ativo valioso que pode impulsionar a inovação nas empresas locais. É nesse pilar que as universidades maranhenses têm a oportunidade de reduzir a distância entre a produção acadêmica e o setor produtivo. A constituição do Parque Tecnológico ‘Renato Archer’ pelo governo estadual no centro histórico de São Luís é um excelente contributo para essa dimensão, a exemplo do bem-sucedido Porto Digital de Pernambuco. Dentro desse espaço geográfico, as universidades devem criar seus próprios ambientes de inovação e incubadoras de empresas. O caso da nossa Agência de Inovação e Empreendedorismo (Marandu/UEMA) é revelador do potencial da academia em criar um ambiente propício para negócios de base científica e tecnológica. Assim também, os exitosos exemplos das “Fábricas de Inovação” (IFMA) e do “Oxygeni Hub” (Uniceuma) com a dinamização institucional do empreendedorismo inovador.

Considero que melhorar nesses indicadores significa, concretamente, utilizar o conhecimento como vetor de transformação econômica, social e institucional. As universidades precisam atuar como catalisadoras desse processo, o que implica incorporar a lógica da inovação aos currículos, ampliar os programas voltados à resolução de problemas locais, incentivar a cultura da proteção intelectual, fomentar redes de cooperação com o setor produtivo e o governo, mapear oportunidades de Indicações Geográficas e transferir tecnologias sociais para territórios vulneráveis. Essa transformação só ocorrerá se houver investimento contínuo, formação qualificada e articulação entre ensino, pesquisa e inovação orientadas ao desenvolvimento.

Olhar para os estados mais bem posicionados no IBID revela caminhos possíveis. Todos investiram sistematicamente em infraestrutura científica, criaram sistemas estaduais robustos de apoio à inovação, articularam suas universidades com o setor empresarial e desenvolveram políticas de fomento contínuas. A lição é clara: o desenvolvimento baseado em inovação requer visão, financiamento e, fundamentalmente, governança. Nesse sentido, destaco a crescente mobilização em torno do Grupo de Governança do Ecossistema de Inovação de São Luís como exemplo promissor. Essa iniciativa, que reúne de forma representativa os atores da quíntupla hélice – universidades, governo, setor produtivo, sociedade civil e meio ambiente -, demonstra que o alinhamento de esforços e a construção de uma visão conjunta já começaram.

A universidade está no epicentro desse processo e precisa entender, definitivamente, que não basta apenas criar conhecimento: é seu dever transformá-lo em uma força motriz de desenvolvimento, em inovação. O Maranhão precisa, e a história exige, esse protagonismo.