Ciência, Tecnologia e Inovação:

O Maranhão no futuro, agora!

Antônio Roberto Coelho Serra - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Em um mundo que não para de mudar, a ciência, a tecnologia e a inovação (CT&I) deixaram de ser apenas termos acadêmicos para se tornarem o motor do desenvolvimento econômico e social. Compreender como esses três pilares se conectam e por que são tão cruciais para o Maranhão é o objetivo desta coluna semanal, que começa hoje.

A ciência nos dá conhecimento sobre o mundo. A tecnologia transforma esse conhecimento em ferramentas, processos e sistemas úteis. E a inovação acontece quando essas soluções são aplicadas de forma a gerar valor real para pessoas, empresas e governos. Juntas, elas formam uma engrenagem poderosa capaz de transformar realidades.

O PIX, por exemplo, é uma ferramenta digital que revolucionou os pagamentos no Brasil. Por trás dele, há anos de pesquisa científica em áreas como criptografia, segurança digital, economia e regulação. Outro exemplo claro são as vacinas contra a COVID-19, que só chegaram à população graças a décadas de investimento em ciência biomédica, plataformas tecnológicas avançadas e ambientes de inovação que uniram pesquisadores, indústria e órgãos reguladores.

A CT&I serve, acima de tudo, para resolver problemas reais. Ela está presente na forma como produzimos alimentos, combatemos doenças, tratamos a água, nos locomovemos e educamos. É com essa combinação que conseguimos aumentar a produtividade, melhorar a inclusão social e promover soluções sustentáveis. Sem ela, não teríamos como enfrentar desafios como a escassez de água, as mudanças climáticas ou o desemprego tecnológico.

O reconhecimento da importância da CT&I no Brasil foi marcado, em 1985, pela criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), durante o governo do presidente José Sarney. A criação desse ministério (hoje MCTI), nesse contexto, representou um esforço de reconstrução nacional pós-ditadura, buscando na ciência e na tecnologia pilares para um futuro mais próspero e democrático. O ministro dessa nova pasta foi, inclusive, um maranhense: Renato Archer, que hoje dá nome ao recém-criado Parque Tecnológico do Maranhão, fruto da parceria entre a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), criada em 1990 e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), instituída em 1995.

Essas instituições compõem o que chamamos de sistema estadual de CT&I — um arranjo que só faz sentido quando integra, de maneira ativa e estratégica, as universidades. As instituições de ensino superior desempenham um papel imprescindível nesse ecossistema: são responsáveis pela formação de talentos, produção de conhecimento científico, desenvolvimento de tecnologias e prestação de serviços especializados à sociedade e ao setor produtivo. Sem a atuação das universidades, não há base sólida para sustentar políticas de inovação nem capacidade de resposta científica aos desafios locais.

O que acontece em outras partes do mundo reforça essa lógica. A Coreia do Sul, por exemplo, saiu da pobreza para se tornar uma líder tecnológica global investindo de forma estratégica em pesquisa, tecnologia e educação científica. A China, por sua vez, construiu uma política nacional de inovação como pilar de seu crescimento acelerado, resultando em gigantes tecnológicos e no domínio de setores como inteligência artificial, telecomunicações e energias renováveis.

Minha experiência pessoal confirma essa perspectiva. Durante meu pós-doutorado em 2013 no Reino Unido, visitei o filho de um amigo que chegava à Escócia para um intercâmbio pelo Programa Ciência sem Fronteiras. Fiquei surpreso ao saber que todo o bloco do condomínio que visitava na Universidade de Glasgow era habitado por estudantes brasileiros. Contudo, minha surpresa foi ainda maior quando ele apontou para um conjunto de edifícios muito maior — cerca de 30 vezes mais extenso — onde estavam alojados os estudantes chineses!

O programa Ciência sem Fronteiras, criado no governo da presidente Dilma Rousseff, teria surgido após uma visita oficial à China. Na ocasião, a presidente teria perguntado ao líder chinês qual o segredo do rápido avanço tecnológico do país. A resposta teria sido direta: “Enviamos nossos jovens para estudar nas melhores universidades do mundo, e eles voltam para transformar o país com ciência, tecnologia e inovação.” A China continua investindo pesadamente nessa estratégia, enquanto o Brasil descontinuou o programa — mas essa é uma discussão para outro momento.

No Maranhão, apesar dos desafios históricos como a necessidade de maior industrialização, diversificação econômica e a superação de índices de pobreza, observamos um cenário promissor e em plena transformação. Dados recentes do IBGE mostram que o estado registrou em 2022 um crescimento recorde no setor industrial e da renda per capita, além de expansão no número de empresas e unidades locais ativas, sinalizando a dinamização da economia. Esse progresso pode alcançar novos patamares com o fortalecimento e maior articulação do sistema estadual de CT&I.

Ao ampliar investimentos em pesquisa aplicada, tecnologias adaptadas às especificidades regionais e inovação aberta (com integração efetiva entre universidades e empresas), o Maranhão poderá consolidar suas cadeias produtivas estratégicas, aproveitar seu potencial em áreas como bioeconomia, otimizar recursos naturais com sustentabilidade, gerar empregos de alto valor, qualificar sua força de trabalho para as demandas do futuro e construir um desenvolvimento mais inclusivo e sustentável.

Esta coluna nasce com a missão de não apenas celebrar as evidências do progresso que o Maranhão já demonstra, mas também de apontar novos caminhos que a ciência, a tecnologia e a inovação oferecem para que esse avanço seja contínuo e transformador. Para tanto, vamos falar, de forma acessível, sobre temas como inteligência artificial, bioeconomia, energias renováveis, cidades inteligentes, inovação na gestão pública, startups, educação científica e muito mais.

A proposta é disseminar conhecimento, inspirar mudanças e provocar novas ideias. Queremos mostrar que a ciência está presente na comida que comemos, na energia que usamos, nos aplicativos que acessamos e nas decisões que moldam as cidades em que vivemos.

Falar de CT&I é falar de futuro. Mas também é falar do presente — das escolhas que precisamos fazer hoje para garantir um amanhã com mais justiça, mais oportunidades e mais qualidade de vida. Valorizar a ciência, desenvolver tecnologias e inovar são passos seguros para continuar transformando a nossa realidade. E o futuro, para o Maranhão, já começou.