Inovação de Fronteira:

O Maranhão na rota das deep techs

Roberto Serra - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Escrevo de terras paulistas, onde participei nos últimos dias do Deep Tech Summit 2025, realizado no Complexo de Inovação da Universidade de São Paulo. Estive no evento a convite da Emerge Brasil, organização que aproxima ciência e mercado e que, junto à USP, foi corealizadora do encontro. A experiência reuniu pesquisadores, empreendedores, investidores e gestores públicos em torno da inovação científica aplicada e me proporcionou lições, conexões relevantes e, sobretudo, uma visão atualizada sobre o que o Brasil e a América Latina vêm construindo no campo das deep techs.

O termo deep tech designa startups baseadas em descobertas científicas ou em avanços tecnológicos de alta complexidade. São empreendimentos que demandam anos de pesquisa, validação regulatória, prototipagem avançada e capital intensivo. Diferem das iniciativas digitais de menor intensidade tecnológica porque percorrem trajetórias mais longas e arriscadas, mas com enorme potencial de impacto. Atuam em áreas como biotecnologia, novos materiais, semicondutores, energia limpa, inteligência artificial avançada e tecnologias quânticas e espaciais. O percurso até o mercado é demorado, mas a capacidade de transformar setores inteiros e oferecer respostas a desafios como saúde pública, segurança alimentar e mudanças climáticas justifica o investimento e o fôlego necessários.

O Deep Tech Summit 2025 firmou-se como o principal encontro latino-americano dedicado à inovação baseada em ciência e engenharia de fronteira. Durante dois dias, o Inova USP reuniu startups emergentes, fundos de investimento globais, grandes corporações e lideranças acadêmicas para discutir soluções de impacto. A programação incluiu painéis sobre inteligência artificial em saúde, semicondutores, regulação, investimentos e o lançamento do Radar Deep Tech 2025, produzido pela Emerge. O relatório apresenta dados do Brasil e da América Latina que permitem comparar maturidade tecnológica, base científica e captação de recursos, oferecendo um retrato preciso que ajuda a separar percepções de fatos.

O Radar mostra que o Brasil lidera a América Latina em número de empresas, com 952 das 1.316 mapeadas, mais de sete em cada dez. Apesar disso, ficamos atrás de Chile e Argentina em volume de investimento privado. Nesses países, algumas empresas atraem rodadas expressivas que elevam os números totais. No Brasil, os aportes são menores e mais pulverizados, o que limita o crescimento em escala. Além disso, quase metade das nossas deep techs nunca recebeu investimento e, entre as que receberam, a maioria contou apenas com recursos públicos. Esse quadro confirma algo que já destaquei em artigo anterior: sem fundos de investimento mais robustos e bem estruturados, capazes de sustentar o ciclo longo dessas empresas, muitas ficam pelo caminho antes de chegar ao mercado.

Mesmo com essas limitações, há sinais positivos. São Paulo concentra 467 deep techs, o maior número do país, e a pauta tecnológica acompanha áreas em que o Brasil já tem tradição, como saúde e agronegócio. Tecnologias transversais, como inteligência artificial e computação, também ganham espaço e impulsionam a produtividade. Mas o ponto mais importante do Radar confirma uma crítica que já registrei em outros artigos: produzimos muita ciência, mas transformamos pouco desse conhecimento em propriedade intelectual e inovação prática. Essa realidade não pode ser atribuída apenas ao mercado ou ao governo. As universidades, que concentram a maior parte da produção científica, precisam assumir maior responsabilidade em proteger resultados, criar spin-offs e se aproximar de investidores. Sem essa mudança de postura acadêmica, continuaremos com um ciclo incompleto, que limita o surgimento de novos negócios, afasta capital privado e reduz a capacidade do Brasil de competir em escala global.

No Nordeste, que responde por uma fração pequena do total brasileiro, esse esforço é ainda mais estratégico e exige articulação consistente entre universidades, agências de fomento e investidores. Para o Maranhão, a mensagem é clara. O estado ocupa um espaço tímido no mapa nacional, com apenas quatro deep techs identificadas, embora disponha de uma das biodiversidades mais ricas do país e de um patrimônio científico capaz de gerar soluções de grande impacto. O movimento inicial para essa transformação já está em curso, impulsionado por chamadas da FAPEMA voltadas a pesquisas aplicadas e inovação, permitindo que o conhecimento produzido nas universidades chegue de fato à sociedade. Soma-se a isso a reconfiguração das instituições maranhenses, que passam a compreender melhor o seu papel no campo da inovação. Iniciativas como a incubadora de base científica e tecnológica da Agência Marandu/UEMA, os projetos da Pró-Reitoria de Inovação da UFMA e a Fábrica de Inovação do IFMA reforçam essa mudança de paradigma nas universidades públicas do estado.

Volto do evento com a convicção de que o futuro do Maranhão dependerá de nossa capacidade de transformar conhecimento em negócios que gerem empregos qualificados, ampliem oportunidades e diversifiquem a economia. O Brasil já se destaca na América Latina pelo número de empresas científicas, mas ainda precisa liderar também em escala, capital e resultados. Para nós, maranhenses, o desafio é ainda maior: transformar a riqueza da nossa biodiversidade e o talento das nossas universidades em soluções capazes de reposicionar o estado no mapa nacional da inovação. Esse é o passo que precisamos dar com coragem, visão de futuro e compromisso coletivo.