

No artigo anterior desta coluna, destaquei que a inovação pode — e deve — começar na universidade. Não como discurso institucional, mas como resultado concreto da ciência aplicada às necessidades reais da sociedade. Retomo agora essa reflexão para apresentar um exemplo emblemático desse percurso: o Solar EPI, um fotoprotetor à base de óleo de babaçu, fruto de pesquisa científica desenvolvida na Universidade e protegida por patente registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Trata-se, com legitimidade, do primeiro fotoprotetor genuinamente maranhense, concebido a partir da nossa biodiversidade, da ciência local e de demandas sociais concretas.
A origem dessa inovação remonta ao Laboratório de Macromoléculas e Produtos Naturais da UEMA, então liderado pela professora Maria Célia Pires Costa, que já mantinha uma parceria científica consistente com a professora Adriana Leandro Camara, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Desde o início, essa cooperação interinstitucional evidenciou um elemento central da inovação contemporânea: ciência feita em rede, com propósito e diálogo entre diferentes áreas do conhecimento.
Foi nesse contexto que surgiu uma orientação de mestrado na área das Ciências da Saúde. Durante as discussões do projeto, emergiu uma pergunta simples, porém decisiva: por que não desenvolver um hidratante e um fotoprotetor voltados para uma população específica, com necessidades reais e pouco atendidas pelo mercado? O público-alvo eram pacientes com hanseníase, que apresentavam xerose cutânea — um ressecamento intenso da pele, associado à maior sensibilidade e vulnerabilidade à radiação solar.
A partir dessa demanda concreta, os pesquisadores desenvolveram uma nanoemulsão fotoprotetora à base de óleo de babaçu (Orbignya phalerata Martius), ativo genuinamente maranhense, com propriedades hidratantes, antioxidantes e fotoprotetoras. O produto foi testado nessa população, apresentando resultados expressivos em eficácia, tolerabilidade e melhoria das condições da pele, conferindo robustez científica, sanitária e social à inovação.
Esse percurso culminou no registro da patente “Fotoprotetor com óleo de babaçu”, depositada em 2017 e concedida em 2022, tendo como titular a UEMA. A proteção da propriedade intelectual não foi um detalhe burocrático, mas um passo estratégico para assegurar soberania tecnológica, valorização do conhecimento local e viabilidade de inserção no mercado. É justamente nesse ponto que se evidencia um dos maiores desafios do desenvolvimento tecnológico no Brasil — e de forma ainda mais acentuada no Maranhão: a travessia da bancada ao mercado.
Entre o protótipo validado cientificamente e o produto disponível ao consumidor existe o conhecido vale da morte da inovação, marcado por exigências regulatórias, escalonamento industrial, certificações, capital intensivo, estudos adicionais de segurança e estratégias de mercado.
Diante da ainda limitada capacidade de absorção industrial de tecnologias desenvolvidas localmente, o caminho encontrado foi a constituição da spin-off acadêmica Orbignya Sun, iniciativa liderada pelo pesquisador Péricles Nunes. A empresa foi estruturada no âmbito da Incubadora UEMA, vinculada à Agência Marandu, reunindo ciência, empreendedorismo e visão de mercado. Além do próprio Péricles e das professoras inventoras Célia Pires e Adriana Camara, integram a equipe as pesquisadoras Ana Beatriz Fukuda, Thaiane dos Santos e Serlyjane Nunes, que também assumiram o desafio técnico, regulatório e empresarial de conduzir essa inovação do ambiente de laboratório até o mercado.
É nesse contexto que nasce o Solar EPI — não apenas como um fotoprotetor cosmético, mas como um Equipamento de Proteção Individual de base tecnológica, voltado a trabalhadores expostos de forma contínua à radiação solar: operários da construção civil, agentes de trânsito, trabalhadores rurais, pescadores, garis, agentes de limpeza urbana e profissionais de campo, entre outros. Trata-se de um mercado amplo, recorrente e estratégico, especialmente em um país tropical como o Brasil.
Os impactos dessa inovação são múltiplos. No plano econômico, abre-se a possibilidade de estruturar uma cadeia produtiva local, agregando valor ao babaçu. No plano social, o produto dialoga diretamente com saúde pública, prevenção de doenças de pele e proteção do trabalhador. Ambientalmente, contribui para a transição para produtos verdes, conectando-se às agendas da bioeconomia e da valorização da sociobiodiversidade.
Mais do que um novo produto, o Solar EPI simboliza o potencial da academia como agente de desenvolvimento econômico. Quando a ciência encontra propósito, a inovação encontra território e o conhecimento encontra mercado, o resultado não é apenas um produto — é desenvolvimento com identidade!