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INOVAR OU MORRER: O Ultimato de 2026

Roberto Serra - Professor Associado da Universidade Estadual do Maranhão e Diretor da Agência Marandu/UEMA; Presidente do Conselho Regional de Economia do Maranhão e Secretário Adjunto de Planejamento e Orçamento do Maranhão.

O Prêmio Nobel de Economia de 2025 concedido a Philippe Aghion, Peter Howitt e Joel Mokyr não tratou de juros, inflação ou crises financeiras. O recado foi mais profundo e estrutural — e especialmente relevante para países como o Brasil, às vésperas de mais um ciclo eleitoral. O Nobel deste ano discutiu de onde vem o crescimento econômico sustentável: das ideias, do conhecimento e da capacidade de transformá-los, de forma contínua, em inovação produtiva.

Não por acaso, foram premiados economistas que estudam a inovação como um processo permanente, dependente de instituições, concorrência, aprendizado e difusão tecnológica. A mensagem é direta: crescimento duradouro não nasce do improviso nem de soluções de ocasião, mas da capacidade de elevar a produtividade ao longo do tempo.

Em termos simples, inovação é o motor da economia. O Produto Interno Bruto, número que domina o noticiário, é apenas o painel que indica a velocidade. Um país pode crescer por algum tempo exportando commodities, realizando grandes obras ou aproveitando um ambiente internacional favorável.

Mas, sem um motor forte — formado por ciência, tecnologia, instituições estáveis e um ambiente favorável ao risco produtivo — essa velocidade não se sustenta. Crescer de forma consistente exige aumento contínuo de produtividade.

Essa discussão não é nova. Ela dialoga diretamente com as ideias do economista Joseph Schumpeter, que já no século passado explicava como as economias avançam por meio da chamada destruição criativa. O conceito é simples: o novo substitui o velho. Foi assim quando o streaming tomou o lugar das locadoras, quando o celular substituiu o telefone fixo ou quando plataformas digitais reorganizaram serviços. Não se trata de modismo tecnológico, mas de um mecanismo econômico objetivo: setores mais produtivos deslocam os menos produtivos, elevando o nível médio da economia.

Nada disso ocorre por acaso. A inovação prospera em economias que constroem estruturas produtivas diversificadas, com encadeamentos industriais, capacidade tecnológica e aprendizado contínuo. Países que permanecem presos a atividades pouco complexas até crescem, mas crescem mal — com baixos salários, pouca difusão tecnológica e elevada vulnerabilidade externa.

O Brasil ilustra bem esse dilema. O agronegócio incorporou ciência, tecnologia e inovação de forma contínua, elevando produtividade e competitividade internacional. Já boa parte da indústria perdeu densidade tecnológica, capacidade de inovar e encadeamentos produtivos. Esse contraste ajuda a explicar nosso crescimento irregular e a dificuldade de sustentar avanços de longo prazo.

É nesse ponto que a contribuição de Joel Mokyr ajuda a entender nossos desafios. Ele distingue entre saber como as coisas funcionam e saber como colocá-las em prática. Produzir conhecimento é essencial, mas não basta. Economias bem-sucedidas constroem pontes institucionais que transformam ciência em produtos, processos, empresas e novos mercados.

Quando essa ponte não existe, o conhecimento fica restrito a livros, artigos e relatórios. Quando existe, ele se traduz em inovação, empregos, renda e desenvolvimento. Universidades, institutos de pesquisa e agências de inovação cumprem papel central nesse processo, ajudando a atravessar o chamado vale da morte — o espaço entre o laboratório e a produção. Esse vale não é apenas tecnológico; é econômico e institucional, resultado de incentivos mal desenhados e de um ambiente de negócios que frequentemente desestimula quem tenta inovar.

Os números ajudam a dimensionar essa agenda. No Brasil, setores intensivos em propriedade intelectual — como marcas, patentes e tecnologias — respondem por cerca de 50% do Produto Interno Bruto. Isso mostra que inovação não é luxo nem agenda setorial. Ela já está no núcleo da economia e define a capacidade de crescer no longo prazo.

Nesse contexto, causam preocupação os recentes cortes no orçamento das universidades federais. Não se trata de um debate corporativo, mas de uma questão econômica central. Reduzir investimentos em ensino superior e pesquisa é uma escolha intertemporal que afeta o crescimento potencial do país, limita a formação de capital humano avançado e reduz a capacidade de absorver e gerar tecnologia. Economias que abrem mão dessa base tendem a se especializar em atividades simples, com menor valor agregado.

O debate econômico brasileiro, historicamente, comete um erro recorrente: confundir crescimento conjuntural com transformação estrutural. Crescer por alguns anos não significa mudar o patamar de desenvolvimento.

O principal ensinamento deste Nobel é claro: inovação não pode ser tratada como política episódica, tampouco como promessa eleitoral. Ela exige continuidade, previsibilidade e coordenação entre Estado e mercado.

Em 2026, os palanques estarão repletos de propostas econômicas. A pergunta que o cidadão deve fazer é simples e decisiva: qual é a estratégia para elevar, de forma permanente, a produtividade do país? Sem uma agenda clara de inovação, o Brasil seguirá crescendo quando der sorte — e estagnando quando ela acabar.