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Do laboratório ao mercado:  novo momento da inovação no BR

Roberto Serra - Associado e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Nas últimas semanas, um conjunto expressivo de editais e chamadas públicas da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) voltou a colocar a ciência, a inovação e o mercado no centro da agenda do desenvolvimento brasileiro. Não se trata apenas de mais uma rodada de financiamento nem de ações isoladas voltadas a setores específicos. O que está em curso revela uma estratégia clara do Estado brasileiro: transformar conhecimento científico e tecnológico em soluções produtivas, competitividade econômica e desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Ao observar as chamadas atualmente abertas, chama atenção não apenas a diversidade dos temas contemplados, mas a coerência que articula essas iniciativas. Energia, transição energética, saúde, agroindústria, bioeconomia, mineração, agricultura familiar, defesa e inovação regional aparecem conectadas como partes de um mesmo esforço estruturante, alinhado às diretrizes da política industrial e tecnológica do país e aos objetivos da Nova Indústria Brasil. São áreas diretamente relacionadas a desafios concretos, como a descarbonização da economia, a segurança alimentar, a soberania energética e a redução das desigualdades regionais.

Esse conjunto de chamadas mobiliza recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) em uma escala inédita. Considerando os instrumentos operados pela Finep — crédito, subvenção econômica e recursos não reembolsáveis destinados à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico — o volume global autorizado para o ciclo 2024–2026 ultrapassa R$ 60 bilhões. Trata-se de um dos maiores esforços públicos já realizados no país para induzir a inovação como eixo estruturante do desenvolvimento econômico, sinalizando uma inflexão importante na forma como o Estado compreende o papel do conhecimento na economia.

As chamadas da linha Finep Mais Inovação Brasil – Rodada 2 materializam essa leitura estratégica por meio de subvenções econômicas, ou seja, recursos não reembolsáveis destinados a projetos de inovação com elevado risco tecnológico. Em comum, essas seleções exigem forte conteúdo tecnológico e, em muitos casos, o desenvolvimento dos projetos em articulação com Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação, como universidades e institutos de pesquisa. Essa diretriz é central para reduzir a histórica distância entre a produção científica e o mercado e fortalecer a indústria nacional com base em ciência e tecnologia.

De forma sintética, as diferentes chamadas convergem para um mesmo objetivo: fortalecer cadeias produtivas intensivas em tecnologia, sustentabilidade e agregação de valor. Seja nas áreas de energia, saúde, agroindústria ou defesa, a lógica é clara: estimular inovação aplicada, reduzir dependências externas e posicionar o Brasil em segmentos mais sofisticados da economia global, capazes de gerar empregos qualificados e maior competitividade.

É nesse ponto que se insere um fato de grande relevância para o Maranhão e que merece reconhecimento público. Para a chamada regional da Finep, destaca-se o reconhecimento explícito da elegibilidade de empresas incubadas em ambiente universitário, sendo os negócios incubados na Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão, o único caso entre os ambientes universitários contemplados nessa condição. Trata-se de um avanço institucional viabilizado por articulação estratégica conduzida pelo Sebrae Maranhão, que vem atuando conjuntamente com a Fapema no fortalecimento de negócios locais de base científica e tecnológica.

Ao assumir parte do risco inerente à inovação, o Estado cumpre seu papel indutor, criando condições para que empresas testem soluções, desenvolvam tecnologias e avancem rumo à escala. Além disso, essa chamada regional incorpora um componente estratégico de descentralização do fomento, fortalecendo ecossistemas de inovação fora do eixo tradicional Sul-Sudeste e reconhecendo a importância dos ambientes locais de ciência, tecnologia e empreendedorismo.

Historicamente, a Finep sempre teve papel central no apoio às universidades, financiando infraestrutura científica, projetos de pesquisa e formação de competências. Por muitos anos, porém, sua atuação junto às empresas concentrou-se em instrumentos de crédito reembolsável, mais acessíveis a organizações já estruturadas. O movimento atual sinaliza uma mudança relevante. A leitura institucional é clara: sem o fortalecimento da base inovadora do país — startups, spin-offs acadêmicas e empresas de base científica e tecnológica — não haverá transformação estrutural da economia brasileira.

O momento exige ação coordenada. Converter oportunidades em projetos consistentes, projetos em inovação e inovação em resultados concretos depende da articulação entre universidades, empresas, governos e instituições de apoio. Os instrumentos estão disponíveis e a direção está dada. Cabe aos diferentes atores do ecossistema ocupar esse espaço com responsabilidade, cooperação e visão de futuro, para que ciência, inovação e mercado passem a operar como forças integradas do desenvolvimento brasileiro.