Inovação no Maranhão:

Como as hélices do progresso podem virar realidade!

Roberto Serra - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Tenho repetido em todos os espaços onde atuo: inovação nunca foi e nunca será um fenômeno isolado. Ela nasce, cresce e se fortalece a partir de uma complexa teia de interações entre diferentes atores. Aqui no Maranhão, onde ainda enfrentamos desafios históricos profundos, a teoria da Tríplice Hélice e suas evoluções – a Quádrupla e a Quíntupla Hélice – se apresentam não como meros conceitos acadêmicos, mas como um verdadeiro mapa para sairmos do lugar comum e construirmos um ecossistema de inovação robusto e verdadeiramente transformador.

Essa teoria, formulada originalmente por Henry Etzkowitz e Loet Leydesdorff nos anos 1990, foi inspirada na observação cuidadosa de ecossistemas de inovação bem-sucedidos mundo afora, como o icônico Silicon Valley nos EUA e o renomado polo de Cambridge no Reino Unido. Esses casos demonstraram de forma inequívoca que a inovação não segue um processo linear, mas sim um caminho dinâmico, colaborativo e multidirecional, envolvendo de forma intensa universidades, empresas e governo em relações cada vez mais simbióticas.

No modelo tradicional ultrapassado, cada ator permanecia confinado em seu papel estanque: a universidade produzia conhecimento básico, a indústria se limitava a aplicá-lo e o governo exercia apenas funções regulatórias. A Tríplice Hélice rompeu radicalmente com essa lógica reducionista, propondo funções híbridas e sobrepostas: universidades que empreendem e geram spin-offs de base tecnológica, empresas que co-criam conhecimento em parceria com a academia, e governos que atuam não apenas como reguladores, mas como facilitadores ativos e investidores estratégicos. Aqui no Maranhão, essa abordagem revela-se particularmente relevante para superarmos de vez a histórica e persistente desconexão entre a produção científica local e o setor produtivo.

O século XXI, com seus desafios sociais e ambientais cada vez mais complexos, levou essa teoria a uma evolução natural. A Quádrupla Hélice, proposta por pensadores como Elias G. Carayannis, trouxe para o centro do debate a sociedade civil organizada como ator fundamental. Isso representa o reconhecimento claro de que a inovação, para ser verdadeiramente transformadora, precisa ser inclusiva, democrática e profundamente conectada com as demandas reais da população. Num estado como o nosso, onde uma parcela da população ainda vive em situação de pobreza, a inovação não pode permanecer como um privilégio acadêmico ou industrial – ela precisa ser ferramenta de transformação social, dialogando de forma respeitosa e produtiva com nossas comunidades tradicionais, como as quilombolas e quebradeiras de coco, cujos saberes ancestrais guardam soluções sustentáveis que a ciência convencional frequentemente subestima.

A evolução mais recente e talvez mais promissora, a Quíntupla Hélice, posicionou definitivamente o meio ambiente como ator central e indissociável do processo inovativo. Nesta visão, desenvolvimento econômico e sustentabilidade ecológica não são apenas compatíveis – são absolutamente interdependentes. Para o Maranhão, essa pode ser a hélice decisiva. Nossa incomparável biodiversidade, que se estende desde os cerrados até os manguezais e demais ecossistemas costeiros, representa não apenas um patrimônio natural, mas um verdadeiro laboratório a céu aberto capaz de impulsionar setores estratégicos como bioeconomia, energias renováveis, biotecnologia e produção de cosméticos naturais. O meio ambiente, nesta perspectiva, deixa de ser visto como mero recurso a ser explorado, para se tornar fonte inesgotável de conhecimento e parâmetro fundamental para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.

A realização da COP30 em Belém este ano traz para nossa região uma oportunidade histórica de discutir em escala global essas interconexões, além de posicionar o Maranhão como protagonista na agenda que une inovação tecnológica e sustentabilidade socioambiental. Será nosso momento de mostrar ao mundo soluções genuinamente amazônicas para os desafios globais.

No entanto, toda essa teoria só ganha sentido quando traduzida em prática. Nosso principal desafio continua sendo a persistente cultura de desconfiança mútua entre academia e setor produtivo. Produzimos ciência em quantidade e qualidade relevantes, mas ainda convertemos pouco desse conhecimento em patentes, produtos ou processos inovadores. As universidades precisam urgentemente assumir seu papel como agentes transformadores, conectando suas pesquisas às demandas concretas da sociedade. O governo, por sua vez, deve consolidar os avanços já iniciados, como a criação do Parque Tecnológico Renato Archer e a instituição do FEICTI através da Lei Estadual nº 11.733/2022, ampliando agora os esforços de implementação efetiva. A plena operacionalização destes instrumentos, combinando de forma inteligente recursos públicos e privados, representa justamente o tipo de ambiente favorável à inovação que precisamos – capaz não apenas de criar estruturas, mas de gerar resultados mensuráveis para nosso ecossistema.

O setor produtivo maranhense também precisa fazer sua parte, superando a dependência excessiva de commodities e investindo decididamente em conhecimento e tecnologia desenvolvidos localmente. A sociedade civil organizada tem papel crucial nesse processo, seja cobrando políticas públicas eficazes, seja participando ativamente da cocriação de soluções. E o meio ambiente, longe de ser obstáculo ao desenvolvimento, deve ser compreendido como nosso maior aliado estratégico, guiando-nos em direção a um futuro verdadeiramente sustentável.

A pergunta que não pode mais ser adiada é: como transformar essa visão em realidade concreta? A resposta passa necessariamente pela construção de uma governança colaborativa efetiva. Não basta termos universidades produzindo conhecimento de qualidade, empresas buscando inovação e governo formulando políticas isoladas – precisamos criar espaços permanentes de diálogo e ação conjunta. Um extraordinário exemplo disso é a iniciativa liderada pelo Sebrae-MA para estruturar uma governança do ecossistema de inovação em São Luís, com participação de todos os atores relevantes.

O Maranhão reúne, como poucos estados no Nordeste, todas as condições para se tornar um polo de inovação de referência: universidades cada vez mais qualificadas, setor produtivo em processo de transformação digital, políticas públicas alinhadas às melhores práticas internacionais, comunidades tradicionais detentoras de saberes valiosíssimos e uma biodiversidade que é patrimônio da humanidade. Nosso grande desafio estratégico é integrar esses ativos em um ecossistema dinâmico e autorreforçador, onde pesquisas se transformem em produtos, ideias criativas virem negócios prósperos e desenvolvimento econômico caminhe lado a lado com inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Este texto vai muito além da mera discussão sobre um futuro possível. É um convite aberto, um chamado à ação coletiva para construirmos, aqui e agora, o Maranhão que almejamos. O momento é de união de esforços, de superação de divergências menores em nome de um objetivo maior. A hora de agir é esta – e o lugar para começar é exatamente onde cada um de nós está. Mãos à obra, pois o futuro não espera!