DESENVOLVIMENTO

Ciência sem inovação ainda basta? 

Roberto Serra - Professor Associado e Diretor de Agência Marandu/UEMA

O Ranking Universitário Folha (RUF) se consolidou como um dos principais indicadores do ensino superior brasileiro. Ele não apenas classifica instituições, mas produz uma leitura abrangente baseada em dados nacionais e internacionais aliados a pesquisas de percepção realizadas pelo Datafolha. Trata-se de um diagnóstico que combina desempenho acadêmico, impacto público e reconhecimento profissional. Por isso, compreender sua metodologia é fundamental para entender os avanços das universidades brasileiras e os desafios que permanecem.

A maior parte da nota do RUF vem da dimensão Pesquisa, que representa 42% da avaliação e considera produção científica, impacto das publicações e captação de recursos. A dimensão Ensino reúne dados sobre qualificação e dedicação do corpo docente e sobre o desempenho dos estudantes no Enade. A dimensão Mercado mede a percepção dos empregadores em relação aos egressos. Internacionalização observa parcerias, coautorias e conexões estrangeiras.

Por fim, Inovação contabiliza pedidos de patentes e publicações realizadas em parceria com empresas. Juntas, essas dimensões revelam onde as instituições avançam e onde ainda existe espaço significativo para crescer.

É importante lembrar que o indicador de Inovação não mede apenas o ato formal de registrar patentes, mas o potencial transformador que essas tecnologias carregam. Diversas soluções que mudaram a vida das pessoas nasceram exatamente desse processo: medicamentos derivados de pesquisa universitária que ampliaram o tratamento de doenças crônicas, equipamentos médicos que democratizaram o acesso à saúde, sementes e bioinsumos que elevaram a produtividade agrícola, softwares e sensores que modernizaram indústrias inteiras e materiais avançados usados em transporte, energia e comunicação.

Cada patente registrada no INPI representa a possibilidade de que uma descoberta científica se converta em benefício público. Muitas delas já transformaram realidades e contribuíram diretamente para o desenvolvimento do país — um lembrete de que proteger e transferir conhecimento é, também, uma forma de cumprir a missão social da universidade.

Nos últimos anos, muitas universidades brasileiras têm registrado melhorias consistentes em Ensino, Pesquisa e Internacionalização, fortalecendo sua atuação acadêmica e científica. No entanto, os indicadores de Inovação e Mercado ainda evidenciam desafios estruturais. O país está entre os líderes globais em produção de artigos científicos, mas ocupa posições muito inferiores quando se trata de geração de patentes, licenciamento de tecnologias ou transformação da pesquisa em produtos, processos e serviços com impacto econômico ou social. Em síntese, produzimos ciência em grande volume, mas ainda geramos pouco valor a partir dela.

É justamente aqui que inovação e empreendedorismo inovador entram como elementos centrais. Em universidades que avançaram nessa agenda, a pesquisa deixou de ser apenas um instrumento de diagnóstico e passou a alimentar soluções, tecnologias e novos modelos de negócios. O empreendedorismo inovador — aquele baseado em conhecimento científico e tecnológico — é a via pela qual muitas dessas soluções ganham escala e impacto. Ele permite que ideias criadas em laboratórios, teses e grupos de pesquisa se transformem em protótipos, startups, tecnologias sociais e aplicações diretas no território. Inovação não substitui pesquisa; amplia seu alcance e seu sentido público.

Apesar disso, ainda persiste no ambiente universitário uma visão restritiva sobre inovação. Muitos acreditam que inovar ou empreender não seria função do professor ou do pesquisador, ou que a relação com o setor produtivo comprometeria a autonomia acadêmica. Essa percepção ignora que a inovação é uma extensão natural da atividade científica — especialmente quando envolve resolver problemas reais, melhorar processos, desenvolver protótipos e aplicar resultados. A ciência que se conecta ao território amplia sua capacidade de transformação.

O avanço nas dimensões Inovação e Mercado depende, sobretudo, do trabalho daqueles docentes e pesquisadores que compreendem essa agenda e aproximam os estudantes de experiências concretas. São eles que estimulam projetos aplicados, promovem a proteção intelectual, estabelecem parcerias externas e formam profissionais capazes de atuar em contextos complexos. É essa atitude — baseada em curiosidade, colaboração e orientação para impacto — que melhora a percepção do mercado e fortalece a capacidade de inovação das instituições.

Para que mais universidades avancem nesses indicadores, será preciso consolidar uma cultura de propriedade intelectual, fortalecer mecanismos de transferência de tecnologia, ampliar a articulação com o setor produtivo e reconhecer o esforço de docentes e estudantes que já atuam nesse campo. Agências e núcleos de inovação cumprem papel estratégico nesse processo, mas o avanço definitivo depende de uma visão institucional que valorize a articulação entre ensino, pesquisa, inovação e impacto social.

Quando essa cultura se consolida, o ranking deixa de ser um objetivo isolado e se torna consequência de um ecossistema acadêmico capaz de transformar conhecimento em desenvolvimento. E é essa transformação que pode redefinir o papel da universidade brasileira no século XXI.