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Babaçu do Maranhão: da floresta ao mercado global

Roberto Serra - Professor Associado da UEMA e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Recentemente, realizamos uma visita institucional à Apoena Bioindustrial, instalada no município de Coroatá, a cerca de 260 km da capital, São Luís. A visita seguiu um roteiro técnico previamente definido e reuniu instituições públicas e privadas interessadas em conhecer, in loco, a experiência produtiva da empresa e sua relação com o território e com as comunidades extrativistas.

Participei da agenda representando a Agência Marandu/UEMA, a convite do Sebrae Maranhão e da própria empresa. Estiveram presentes o diretor-superintendente do Sebrae Maranhão, Albertino Leal; os secretários-adjuntos da SEINC-MA, Luzia Rezende e Ubiratan Silva; a diretora do campus da UEMA em Coroatá, Lília Gomes; além de representantes da Secretaria Municipal de Indústria, Comércio e da Mulher, técnicos de instituições parceiras e membros de comunidades extrativistas ligadas à cadeia do babaçu.

Desde o primeiro contato com a planta industrial em implantação, ficou evidente que não se trata apenas de uma fábrica, mas de um projeto de território. A Apoena resulta da combinação entre ousadia empreendedora, inovação tecnológica, compromisso social e valorização de uma das maiores riquezas naturais do Maranhão: o coco babaçu. Essa trajetória ganha ainda mais sentido quando se conhece a história de sua fundadora, Márcia Werle, empreendedora que escolheu o Maranhão para viver e investir, apostando em um modelo produtivo alinhado às potencialidades locais.

O babaçu integra a identidade cultural, social e econômica de amplas regiões do estado. Milhões de hectares de babaçuais sustentam historicamente o modo de vida de milhares de famílias, especialmente das quebradeiras de coco. Ainda assim, essa riqueza permanece subaproveitada do ponto de vista produtivo, tecnológico e industrial, o que revela uma oportunidade estratégica para o desenvolvimento regional.

É justamente nesse ponto que a Apoena se diferencia. Em vez de se limitar à extração da amêndoa, a empresa estrutura sua operação a partir do aproveitamento integral do fruto, alinhando-se ao conceito de biorrefinaria. Cada parte do coco passa a ser tratada como insumo estratégico para diferentes cadeias produtivas, ampliando valor, reduzindo desperdícios e abrindo novos mercados.

Do babaçu deriva um amplo conjunto de bioprodutos com alto valor agregado, que vão de farinhas funcionais e ingredientes alimentícios a cosméticos naturais, biofertilizantes, fibras, biomateriais, fontes alternativas de energia e carvão ativado de alto desempenho, aplicado em filtros, tratamento de água e usos industriais. Na lógica produtiva da Apoena, cada parte do fruto é aproveitada: o epicarpo gera fibras e insumos energéticos, o mesocarpo dá origem a aplicações alimentícias e cosméticas, e o endocarpo é convertido em carvão ativado. Trata-se de um modelo produtivo circular, eficiente e ambientalmente responsável, voltado a mercados nacionais e internacionais.

Todo o sistema produtivo foi desenvolvido pela própria empresa, com desenho industrial exclusivo, concebido especificamente para o processamento do babaçu. Essa engenharia autoral permitiu mecanizar etapas historicamente penosas, aumentar a produtividade, padronizar a qualidade e viabilizar a escala industrial sem romper com a lógica do território.

É recorrente a preocupação de que a mecanização descaracterize o trabalho tradicional das quebradeiras de coco. A experiência em Coroatá mostra o contrário: as máquinas não eliminam saberes ancestrais nem a identidade cultural do babaçu, apenas substituem as etapas mais pesadas e repetitivas. Valorizar a cultura não é manter mulheres em condições precárias, mas permitir que tradição e inovação coexistam com mais dignidade e segurança.

Esse modelo fortalece também a economia local. Ao adquirir o fruto diretamente das comunidades extrativistas, a empresa gera renda, inclusão produtiva e previsibilidade. Iniciativas como essa têm potencial de beneficiar todo o município de Coroatá, ativando serviços, logística, comércio, formação de mão de obra e novos empreendimentos associados à cadeia do babaçu.

A empresa conta com o apoio do Sebrae Maranhão, por meio de iniciativas como Inova Cerrado, Inova Amazônia e Sebraetec. Além disso, a FAPEMA tem sido determinante em sua trajetória, tanto pelo ambiente estadual de fomento à inovação criado a partir do Programa Centelha quanto, mais recentemente, por meio de investimentos do Programa Maranhense de Apoio à Inovação Tecnológica (MARAINTECH).

O Maranhão pode — e deve — se orgulhar de suas riquezas naturais quando elas se transformam em inovação, trabalho digno e oportunidades globais. Apesar desse potencial, o estado ainda possui poucos empreendimentos capazes de processar o babaçu em escala. A Apoena demonstra que é possível conciliar bioeconomia, inovação e desenvolvimento territorial.

Mais do que um caso isolado, a Apoena integra um conjunto crescente de iniciativas que vêm reposicionando o babaçu e outros ativos da biodiversidade maranhense em cadeias de maior valor agregado. Merecem destaque experiências como a Reflyta Superalimentos, da Nelinha do Babaçu; a Sintropia, da Carol Frota; e o primeiro fotoprotetor genuinamente maranhense já apresentado nesta coluna, o Solar EPI, da Orbignya Sun, incubada na Agência Marandu.

Transformar biodiversidade em valor, tradição em futuro e território em estratégia: é por esse caminho que o Maranhão avança quando a inovação brota do chão que pisa.