O AGRO É POP:

A inovação que faz tudo do campo à mesa

Roberto Serra - Professor Associado e Diretor da Agência Marandu/UEMA

Na última semana, participei do III Seminário Catarinense de Agronegócios, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Produção e Sanidade Animal do Instituto Federal Catarinense (IFC), em Concórdia-SC, onde ministrei a palestra de encerramento. Foi nessa cidade que nasceu a Sadia (Sociedade Anônima Indústria e Comércio de Concórdia), hoje BRF, uma das maiores companhias globais de alimentos. As histórias de Concórdia, da Sadia e do próprio Instituto confirmam como a prosperidade regional pode ser alicerçada pela interação estratégica entre poder público, produção e conhecimento — evidência da tríplice hélice já abordada em artigo anterior. Ao contextualizar essa experiência, reforço que a força de um território não depende apenas de sua vocação econômica, mas também da qualidade das conexões entre academia e setores produtivos. Foi exatamente o que ocorreu no Oeste catarinense, já que Concórdia se desenvolveu, literalmente, entre a indústria e a academia. Essa fusão consolidou um polo de referência, no qual a produção e a ciência se entrelaçaram de tal forma que os resultados se estenderam à sociedade em empregos, tecnologias e cadeias produtivas mais fortes.

Em minha fala, disponível no canal do IFC no YouTube, recuperei a campanha que consagrou a frase “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo” para lembrar que o agronegócio brasileiro, além de motor econômico, está presente em nosso cotidiano. Em 2024, o setor movimentou R$ 2,72 trilhões, 23,2% do PIB nacional, e foi responsável por quase metade das exportações brasileiras, segundo o Cepea e a CNA. Esses números, no entanto, convivem com dilemas globais: fome, má nutrição, obesidade e impactos ambientais de uma produção que consome 70% da água doce do mundo e responde por 30% das emissões de gases de efeito estufa.

O desafio é produzir mais e melhor, conciliando eficiência, inclusão e sustentabilidade. É nesse ponto que a inovação se torna essencial para responder a esses problemas, transformando o campo e integrando-o positivamente à sociedade. Drones, sensores, biotecnologia, internet das coisas, energias renováveis e plataformas digitais já estão mudando a agricultura, aproximando produtores e consumidores, reduzindo desperdícios e conectando o campo diretamente à mesa das famílias.

Para que esse processo avance, ciência e tecnologia precisam ocupar lugar central. Embora sejamos a 10ª economia mundial e grandes produtores de ciência, o Brasil ocupa apenas a 50ª posição no Índice Global de Inovação e investe menos de 1,3% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. Esse descompasso mostra que ainda transformamos pouco do conhecimento em propriedade intelectual ou inovação aplicada. Nunca é demais lembrar às universidades a importância de assumir essa responsabilidade, aproximando pesquisas e cursos das demandas reais da sociedade.

Nesse contexto, apresentei no seminário as spinoffs da Incubadora UEMA, vinculada à Agência Marandu, que mostram como a universidade pode gerar negócios inovadores de base científica e tecnológica. A Apimel Company trabalha com própolis vermelha de abelhas sem ferrão, unindo ciência, saúde e sustentabilidade. A Biofábrica de Insetos aposta no controle biológico de pragas, reduzindo o uso de químicos. A Agrobiome desenvolve bioinsumos para maior eficiência e segurança do setor.

O conjunto se amplia com iniciativas como a i-Educam, que transforma resíduos de pele de peixe em produtos ecológicos e renda em comunidades tradicionais; a Mel da Tribo, que fortalece a criação de abelhas nativas; a Orbignya Sun, que leva o babaçu à indústria cosmética; a TechMEP, que propõe manejo ecológico de pragas; e a Y-Tek Solutions, que automatiza a piscicultura. Cada uma dessas iniciativas é expressão concreta do potencial inovador da UEMA, capaz de unir ciência, empreendedorismo e desenvolvimento socioeconômico no Maranhão.

Ao final da experiência em Concórdia, compreendi que mais do que uma palestra, esta foi uma oportunidade de aprendizado e inspiração. O Oeste catarinense mostrou como o desenvolvimento pode ser impulsionado pela articulação entre poder público, indústria e academia. Cidades como Balsas, capital do agronegócio maranhense, com a presença ampliada da UEMA em novo campus, podem seguir caminho semelhante. Precisamos identificar as vocações regionais distribuídas pelo estado e conciliá-las com as ofertas formativas das universidades. Ao associar esse arranjo às iniciativas de inovação e ao empreendedorismo inovador, construiremos a base capaz de formar talentos, agregar valor às cadeias produtivas e impulsionar o desenvolvimento sustentável. A conexão universidade e empresa não é apenas uma possibilidade, mas condição crítica para a prosperidade do Maranhão.