Honra e amor pelo trabalho

A vontade de voltar a trabalhar

Seu Francisco Sena, vendedor de suco de laranjas está internado depois que teve um infarto, mas fala todos os dias em voltar para o seu local de trabalho, onde está há 20 anos

Seu Francisco

Há dois anos, eu fiz uma matéria chamada “Meu escritório é na rua”, que foi publicada no dia 29 de janeiro de 2017, em O Imparcial. Nela, contei a história de algumas pessoas que tiravam o sustento familiar das mercadorias e produtos que vendiam na rua. Uma dessas pessoas foi o seu Francisco de Sena Rosa, que na época estava com 70 anos.

O personagem, feliz com o trabalho que realizava, recebeu a reportagem com um sorriso no rosto. Na época ele contou que há 17 anos, o seu local de trabalho era o semáforo do Renascença. Profissão dele: vendedor de suco de laranja. Neste ano já são duas décadas trabalhando ali, todos os dias.

Mas na última sexta-feira sua falta foi sentida pelos clientes, amigos e pessoas que costumeiramente o viam todos os dias ali. Uma delas foi a jornalista e cliente habitual, Jacqueline Heluy, que postou em seu perfil em uma rede social, sua preocupação com ausência de seu Francisco, hoje com 73 anos.

“No sábado, quando passei cedinho para a minha corrida na Litorânea, ele não estava lá. No domingo, ele não foi. Ontem e hoje também não. Estranhei e me preocupei. O semáforo do Renascença está vazio. Depois de mais de 20 anos vendendo suco de laranja no mesmo local, de domingo a domingo, sob sol ou chuva, há quatro dias Francisco não vai trabalhar. Consegui falar com uma de suas filhas, por telefone. Ela me informou que, aos 73 anos, sr. Francisco sofreu um infarto na noite desta sexta-feira”, iniciava a postagem.

A mensagem viralizou. Acho que Seu Francisco não imaginava o quanto sua presença ali naquele sinal era percebida. Aliás, acho que sabia sim. Pois em 2017 quando o entrevistei, veja o que ele disse: “O que eu iria ficar fazendo em casa? Envelhecendo, adoecendo, vendo a vida passar? Aqui não. É uma novidade todo dia. O trabalho nunca fica cansativo. Eu gosto, acho bom. Não é sacrifício pra mim. Tem menino que ainda hoje me chama de tio e ainda compra comigo. Desde o tempo que estudava aí na faculdade, se formou e continua sendo meu cliente, cliente não, já considero amigo. Os filhos já estão criados, cada um tem sua família, então aqui é um meio de eu me distrair também, conhecer novas pessoas.”

Seu Francisco teve um infarto, em casa quando estava com a família, na última sexta-feira, por volta de 18h30. Ele foi logo socorrido. Depois de uma bateria de exames e internação na UPA do Itaqui Bacanga, foi diagnosticado com arritmia. Teve alta da UTI na noite de terça-feira e agora está bem e em observação. Mas desde que foi hospitalizado não para de dizer que quer voltar a vender seus sucos.

“Depois que ele foi medicado,  começou a dizer que no sábado já queria voltar a trabalhar. Ele ama aquilo, é apaixonado pela venda dele. Além disso, é dali que ele complementa o dinheiro da aposentadoria que é muito pouco”, disse Madalena Almeida, a décima dos 11 filhos.

Segundo ela, só depois de ter o aval dos médicos é que a família vai decidir se ele volta logo para  o sinal. “Por ele, nem tinha ficado hospitalizado. Diz que quer trabalhar o tempo todo, que tem os clientes dele…, mas temos que cuidar da saúde dele em primeiro lugar”, disse Madalena.

Honra e amor pelo trabalho

Seu Francisco  é casado há 48 anos, pai de 11 filhos. Foi empregado durante 27 anos em uma empresa. Depois de se desligar passou a ser camelô, e em outra ocasião foi  vigia. Aposentado, mas segundo ele, ganhando um salário muito pequeno, precisou se virar com outra ocupação para garantir uma renda melhor.

Ele contou na época que todos os dias saía de sua casa no bairro da Liberdade às 5h da manhã. “Pego o ônibus, chego no local para buscar o carrinho onde vendo os sucos, instalo no ponto e recebo a mercadoria. Pouco antes das 7h eu já estou no canteiro. Muito difícil eu voltar com suco. Sempre vendo tudo. Tem cliente que substitui o café pelo suco e tem outros que compram 10 de uma vez, porque é suco natural, muito bom”.

Amigo da jornalista Jacqueline Heluy, ele pediu para ela avisar os clientes que estava doente, mas que logo, logo ia voltar. E a jornalista assim o fez.

“Ontem à noite recebi dele uma missão: ‘avise aos meus clientes que estou hospitalizado e, por isso, não posso trabalhar’. Pronto, Francisco, missão cumprida. Seus clientes estão sendo avisados por meio deste post. Mas, sei que muitos não são apenas clientes. São centenas de amigos, de várias gerações, que o conhecem, alguns desde a infância, admiram a sua luta e persistência”, disse a jornalista.

A jornalista foi mais além e sugestionada pelas mensagens que recebeu, teve a ideia de lançar uma campanha para arrecadar recursos que vão ajudar no tratamento do seu Francisco. “A campanha consiste na venda de suco de laranja virtual. Cada garrafa tem o mesmo valor da que Francisco vende no semáforo, ou seja, R$ 5,00. Os amigos, clientes e admiradores do sr. Francisco que quiserem colaborar com a compra do suco virtual, só precisam transferir o valor da contribuição para a seguinte conta bancária: Caixa Econômica – Poupança, Agência 1413, Conta 14854-7, Madalena Almeida Rosa (filha do sr. Francisco), CPF 006.193.303.17. Vale lembrar que esta é uma corrente do bem, portanto, o participante da campanha não estará comprando nenhum produto, e sim, ajudando o sr. Francisco”, avisou na postagem.

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