MEIO AMBIENTE

Preservação de Atins e região está ameaçada por conta de festa de réveillon, acusam moradores

Organização do evento responde. Falta de transparência de organizadores causa revolta de moradores de área de preservação ambiental. OAB-MA se posiciona

Foto: Reprodução

Atualizado às 17h42 de 31 de dezembro de 2018

Uma festa eletrônica de réveillon está acabando não apenas com o sossego dos moradores da vila de Atins e entorno, nos Lençóis Maranhenses. Segundo eles, a rica fauna da região do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e da Área de Proteção Ambiental dos Pequenos Lençóis também está ameaçada. As áreas são da União e administradas e preservadas pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio).

O festival Mareh Music Nye 2019, que conta com uma extensa lista de atrações musicais,  começou no dia 26 e só terminará dia 2 de janeiro. Segundo o site do evento, a festa é uma “renovação dos ciclos ao redor do som, da natureza e das pessoas”. Mas não é o que dizem os moradores de Atins e de outras três regiões do entorno.

Conforme contam donos de pousadas, um movimento estranho de reservas foi notado em julho de 2018, quando todas as hospedagens da vila ficaram lotadas para o réveillon. No entanto, ainda não havia um lugar confirmado para tal festa, o que estranhou os moradores. Afinal, os ingressos estavam sendo vendidos – em setembro, os dois primeiros lotes já haviam esgotado – sem mesmo um local confirmado e sem consentimento da população.

Segundo dados de Agentes de Saúde, a região de Atins e mais três comunidades do entorno somam ao todo 250 famílias, que dá menos de 1,5 mil pessoas. Apenas para a festa Mareh Music, foram mais de mil pessoas que chegaram à região, um número insustentável para manejar, por exemplo, a produção de lixo.

A questão da segurança também preocupa os moradores, que contam que acionaram a Polícia Civil sobre o evento. No entanto, a corporação informou que não haveria reforços policiais – e a polícia local não é habilitada para fazer registros de Boletins de Ocorrência.

Com medo da falta de transparência da organização do evento, a Associação de Moradores para o Progresso do Atins (APPA) protocolou junto ao Ministério Público Federal, em novembro, uma denúncia sobre o caso.

Ainda em novembro, o Instituto Amares, que trabalha com pesquisa e conservação dos ecossistemas aquáticos da região, foi procurado por organizadores da festa, que queriam uma consulta sobre onde instalar a estrutura e realizar a festa.

Nathali Ristau, bióloga e presidente do instituto, negou-se a colaborar com o evento. “Não há como compatibilizar a festa com a permanência e equilíbrio dos animais na região. Essa é uma área extremamente sensível e ainda desconhecida pela ciência. O som extremamente alto e a fotopoluição [excesso de luz] afetam e atordoam os animais, inclusive as tartarugas que vêm para cá na desova”, explica ela.

Chegou então ao conhecimento dos moradores de Atins que o local escolhido para a montagem da festa teria sido a ilha de Cuba, uma ilha em frente a praia de Atins. Segundo o ICMBio, uma das pontas da ilha não está dentro da área protegida pelo Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses – exatamente o lugar onde a festa está sendo realizada.

No entanto, a reportagem não conseguiu confirmar com representante do ICMBio se houve uma autorização formal ou um estudo de impacto. Ainda segundo funcionário do órgão público, mais de 100 denúncias contra a festa foram recebidas.

“A ilha de Cuba é dormitório de aves regionais, área de alimentação de aves migratórias e área de desova de tartarugas marinhas. Consegue imaginar aves dormindo com o barulho e a iluminação da festa, por exemplo?”, questiona a bióloga.

OAB do Maranhão se posiciona

Procurada por O Imparcial, a presidente da Comissão de Direitos dos Animais da OAB/MA, Camila Maia, disse que tomou conhecimento do assunto ontem (28) à noite e que estuda uma ação contra a organização do evento.

“Apresentaram uma licença da prefeitura para a festa, mas a área é da União. Então não cabe à prefeitura dar o aval. Queremos entender quem concedeu a licença para a festa nessa área”, pontuou Maia.

Mareh Music responde

Luiz Roselli, organizador do evento, respondeu a reportagem de O Imparcial por email  no dia 31 de dezembro com os seguintes esclarecimentos:

“Estamos em contato com comunidade e poder publico desde agosto. É verdade sim que existem pessoas que não são a favor, mas a grande maioria ou está empregada no turismo ou na própria festa. Lembrando que esta é a baixa temporada e a cidade esta com ocupação total; a maioria das pessoas com quem falamos diz estar bem contente com o evento. Temos total preocupação com meio ambiente, todos os pré-requisitos foram cumpridos para obtermos as licenças, geramos zero plástico no festival, temos o tracking do nosso lixo e dejetos, etc.”

A redação de O Imparcial respondeu com novos questionamentos, por exemplo, sobre quais foram as licenças ambientais concedidas e qual órgão as concedeu. Todos os esclarecimentos, quando fornecidos pela organização do evento, serão devidamente publicados.

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