NO MEIO DO CAMINHO

Obstáculos dificultam mobilidade de idosos em São Luís

Por crescer desordenadamente, São Luís enfrenta sérios problemas de mobilidade urbana. Os que mais sofrem são os idosos, que passam a observar ruas e avenidas como verdadeiros obstáculos

Foto: Honório Moreira

A aposentadoria ou a chegada da terceira idade nem sempre é sinônimo de inércia. Ao andar pelas ruas de São Luís, é comum ver idosos subindo e descendo ladeiras, atravessando avenidas movimentadas, tentando superar obstáculos nas vias que, por conta da idade, parecem ser maiores que realmente são.

Nossa equipe percorreu algumas avenidas e ruas da cidade à procura desses transeuntes que carregam nas pernas o peso de anos de trabalho árduo. Dona Irene Silva, por exemplo, tem 78 anos de idade.

Dona Irene Silva (Foto: Honório Moreira)

Viúva, ela conta que precisa sair diariamente de casa para resolver afazeres pessoais, segundo ela mesma comenta. Em um verdadeiro exercício de paciência e perseverança, ela lembra vários momentos em que quase se acidentava pelas ruas do bairro João Paulo.

“Eu sou viúva e, mesmo sem trabalhar, busco sempre resolver algumas coisas que ainda posso resolver. Quando saio de casa, fico sujeita aos carros e aos motoristas que não respeitam e também às calçadas que dificultam a minha caminhada. Aqui mesmo, nessa rua, eu me lembro de quase ter caído uma vez”, relembra.

Irene relata que, ao tentar subir uma calçada relativamente alta, se desequilibrou e quase caiu no chão. “Se não fosse um moço que estava na calçada, bem perto de mim, eu teria caído. Olha só a altura. Se eu caísse daqui para baixo, não seriam somente arranhões, não é?”, questiona. A aposentada Santana Silva revelou à reportagem que, em muitos casos, ela sai de casa somente para andar. Não gosta de ficar em casa sem fazer nada. Protegida pelo seu direito de ir e vir, Santana também fala sobre as inúmeras situações perigosas pelas quais ela passou ao andar pelas ruas da cidade.

“Eu saio de casa para resolver coisas, mas alguns dias é só mesmo para sair de casa. Eu gosto de andar e tenho o direito de sair e andar pelas ruas. Mas quando saio, sempre encontro, não é? Motoristas que não respeitam, avenidas que não têm faixa para a gente passar e buracos nas calçadas que nos fazem ir pela rua, correndo risco de acidente”, revela.

Já Izalete Serra, de 67 anos, garante que, embora nunca tenha passado por situação parecida às relatadas anteriormente, conhece idosos que já caíram pelas ruas do João Paulo. “Ela caiu porque se desequilibrou quando tentou subir uma calçada. Ainda bem que a calçada não era tão alta e ela só ficou com um arranhão feio no joelho. É ruim porque, além das calçadas altas, tem também essas placas enormes que fazem com que a gente tenha que ir pra pista. Aí já é outro risco”, observa.

Sem obstáculos

Dona Irene Silva passeia pelas ruas do João Paulo. (Foto: Honório Moreira)

Embora uma pesquisa do IBGE, divulgada em 2016, mostre que teremos 30% da população na terceira idade no Brasil, as políticas públicas que abranjam a mobilidade urbana para os idosos parecem ainda estar engatinhando.

A falta de cultura de mobilidade humana é um fator comum às cidades brasileiras e agrava-se muito quando focamos para a terceira idade. As nossas ruas e calçadas são os exemplos mais visíveis dessa falta de planejamento. Calçadas estreitas, buracos de todo tipo, semáforos rápidos demais e degraus altos dos ônibus são alguns problemas enfrentados diariamente pelos idosos.
A Dona Irene bem conhece os problemas que passa todos os dias para, simplesmente, caminhar pelas ruas do bairro onde mora. Para ela, o ideal seria dar mais importância para debates como esse. “Eu não entendo muito das leis, mas sei que essas calçadas aqui, por exemplo, são mais altas do que deveriam ser. Além disso, os carros ocupam os poucos espaços que nos permitem andar pelas ruas. Acho que deveria haver fiscalização em relação a isso”, comenta.

Posicionamento

O jornal O Imparcial entrou em contato com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Habitação (Semurh) de São Luís para ter um posicionamento quanto à situação das calçadas e das placas que dificultam a mobilidade urbana. Questionou-se também como ocorrem as fiscalizações acerca de irregularidades.

A Prefeitura informou que “a construção, reconstrução, manutenção e conservação de calçadas dos terrenos, edificados ou não, são de responsabilidade dos proprietários ou possuidores dos mesmos, após licença concedida pelo órgão municipal competente”. Com relação às calçadas, foi informado que “elas deverão apresentar uma declividade máxima de 2% (dois por cento) do alinhamento do muro para o meio-fio. Nos locais onde haja faixa de pedestre, o meio-fio deverá ser rebaixado, não podendo o rebaixamento ser inferior a 1,20m (um metro e vinte) de largura”.

Ainda em nota, a Semurh informou que “semanalmente, por meio de equipes da Blitz Urbana, ações são realizadas para diagnosticar irregularidades na cidade de São Luís”. A Secretaria disponibiliza ainda o número de disque-denúncia (98) 99168-1337, caso o cidadão encontre alguma inconformidade nos padrões determinados por lei.

Ministério Público em ação

A 1ª e 2ª Promotorias de Justiça de Defesa da Pessoa Idosa de São Luís-MA realizou, ontem, no Auditório da OAB/MA, uma Audiência Pública sobre acessibilidade e mobilidade urbana da pessoa idosa. Na ocasião, houve uma palestra com o Dr. Alexandre de Oliveira Alcântara, promotor do idoso de Fortaleza-CE.

O objetivo da audiência foi promover o debate entre as autoridades públicas, o Ministério Público Estadual, a sociedade civil e os demais órgãos interessados, no sentido de discutir, analisar e articular planos de ações que visem estruturar e melhorar as condições de acessibilidade e de mobilidade da pessoa idosa na região metropolitana de São Luís. Além disso, buscou também a implementação de políticas públicas municipais voltadas à conscientização do respeito ao idoso por parte dos condutores de veículos automotores, visando a redução de acidentes de trânsito envolvendo vítimas idosas.

Izalete Serra (Foto: Honório Moreira )

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