ENTREVISTA

Se a colonização não fosse portuguesa?

O Imparcial entrevistou o atual presidente da Academia Ludovicense de Letras, Antônio Noberto, idealizador e curador da exposição “França Equinocial Para Sempre”

Reprodução

Poucos brasileiros defendem com tanto entusiasmo a presença estrangeira no Brasil quanto o turismólogo e pesquisador Antônio Noberto. Conhecedor profundo da França Equinocial, da França Antárctica e do Brasil holandês, ele afirma que os problemas do Brasil, como a corrupção desenfreada, burocracia estatal, exploração demasiada, cobrança de altos impostos sem o devido retorno, tudo isto é resultado do status vencido e vencedor instalado no Brasil há cinco séculos. E que este problema colonial não se resolve apenas através do voto ou criação de leis, mas por um profundo revisionamento das bases coloniais e da nossa formação.

Nas comemorações dos 407 anos de fundação de São Luís pelos franceses, O Imparcial entrevista Antônio Noberto, que é o atual presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL), idealizador e curador da exposição França Equinocial para sempre.  Ele defende o legado deixado pelos estrangeiros e diz que um novo Brasil só virá quando de fato houver o reconhecimento deles, que efetivamente trouxeram educação, conhecimento, ética e desenvolvimento ao Brasil.

Para Antônio Noberto, o ensino no Brasil, contraditoriamente, despreza os verdadeiros pilares de uma nação próspera e desenvolvida, que é a educação, o conhecimento e a ética. Por outro lado, valoriza aquilo que não lhe traz progresso e nem vantagem, e esta inversão teve início com a dizimação do indígena, com a escravização do africano e com a expulsão e marginalização do estrangeiro, sendo que este último foi quem com conhecimento e técnicas deu grande impulso para o país se posicionar entre as grandes potências comerciais. “A atual inversão de valores existente traz a reboque todo tipo de malefícios para os 210 milhões de brasileiros que formam a base da pirâmide e faz a alegria dos poucos que ocupam o topo e manipulam a bel prazer. Esse indesejável status se sustenta na xenofobia e no bairrismo semeados secularmente no brasileiro, que passa a defender e ser guardião da sua própria tragédia”, disse ele. Foi nesse tom que o turismólogo, palestrante, historiador, membro-fundador da Academia de Letras de São Luís e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, Antônio Noberto, respondeu às perguntas do O Imparcial.

O Imparcial: O senhor defende a presença estrangeira no Brasil com ênfase na atuação dos franceses no Maranhão. O que de fato os estrangeiros fizeram pelo Brasil?

Nós vivemos há cinco séculos a dicotomia “País rico e povo pobre”. Como isso se justifica? O que acontece para que os brasileiros nunca tenham acesso às suas riquezas e continue sendo, dia após dia, cada vez mais pobre e espoliado? Estas são as respostas que queremos dar nesta entrevista. Primeiramente, é importante dizer que os nacionais são sempre desviados do caminho do conhecimento. A ganância nacional e internacional move céus e terras, cria sofismas, falsos argumentos e nos oferece iscas, como militância política, distrações, nos empurra para divisões quase nos tornando animais para nos tirar do rumo certo, que é a razão, a educação e a ética, os verdadeiros tesouros para qualquer nação. Mas respondendo mais diretamente o seu questionamento… O nosso país tem ao menos três momentos que merecem destaque. O primeiro deles foi quando os estrangeiros disputavam o Brasil com os portugueses. Nesse período, entre 1500 e 1600, os lusos não tinham a supremacia absoluta do Brasil. A dizimação em massa dos índios, portanto, ainda não havia começado e nem os africanos estavam sendo escravizados em larga escala, pois os estrangeiros mantinham uma relação próxima com os nativos e combatiam os excessos do colonizador luso, sendo uma espécie de barreira de proteção e anticorpo, que evitava que o “organismo” fosse atacado e destruído…

Quando o estrangeiro foi expulso, o que aconteceu?

Entramos em um segundo momento, quando não mais contávamos com a força, a generosidade e a proteção alóctone. Foi desde então que o Brasil caiu em um marasmo e na servidão sem remédio. Um exemplo contundente encontramos nas Crônicas do frei Bettendorf, que morou no Maranhão nos mil e seiscentos e fundou Santarém do Pará naquele período. Ele nos fala da rápida dizimação dos tupinambás na Ilha do Maranhão. Das vinte e sete aldeias à época dos franceses, em duas décadas de dominação portuguesa só restaram três, e finaliza: “Quanta devia ser a crueldade daqueles que por guerras e contendas dizimaram tão grande gentilidade”. Não fossem os padres franceses da expedição da França Equinocial dificilmente ouviríamos o saudoso Humberto de Maracanã cantar a bela toada que menciona as 27 aldeias da Ilha Grande. Desde então, a presença estrangeira no Brasil foi proibida. Quem desobedecesse incorreria em pena capital.

Mas no século XIX eles voltaram?

Sim. O outro bom momento diz respeito a volta do estrangeiro, a partir da vinda da família real portuguesa e da abertura dos portos às nações amigas. A monarquia queria ter as comodidades da Europa nestas plagas, daí iniciou um processo de construção do Brasil. Trouxe o primeiro banco, o primeiro jornal, a Missão Artística Francesa de 1816, conhecida como Missão Lebreton, que implantou o Neoclassicismo e o que de mais moderno existia da arquitetura europeia. No ano seguinte trouxe também a Missão Científica Austríaca, com os alemães Spix e Martius, que percorreram o Brasil do Rio de Janeiro ao Equador. Foram eles que disseram que São Luís era a “Quarta cidade do Brasil”. Os ingleses trouxeram o conforto através das máquinas, a racionalização do espaço urbano, o que favoreceu a implantação das cidades planejadas. A França trouxe a arte, as tecnologias e o luxo. À Itália coube a arte, através de grandes pintores, as companhias líricas, o teatro, etc. E já no Segundo reinado, quando Dom Pedro II, um homem de espírito elevado e aberto ao estrangeiro, trouxe vários povos que iniciaram aquilo que ficou conhecido como “O milagre brasileiro”, pois nosso país passou a contar com mão de obra mais qualificada. Com o fim da monarquia vieram outros avanços, quando passamos a conhecer com profundidade outras verdades. Aquela virada de século, na República governada por militares e civis, vivemos a nossa “Belle époque”, período da racionalização e divulgação do Maranhão, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte francês, além do Brasil holandês. Daí surgiu a racionalização da fundação francesa de São Luís em 1912, o turismo moderno com o teleférico do Pão de Açúcar (1912). Àquela época consumíamos o conhecimento passado por Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Ribeiro do Amaral, Tasso Fragoso e tantos outros que divulgavam as façanhas estrangeiras no nosso país. Enfim, foi aquele mundo plural, sem as amarras seculares do colonizador português que tivemos as primeiras universidades, as primeiras academias de letras, e começamos a democratizar a educação; e na Semana de Arte Moderna de 1922, cortamos o cordão umbilical que nos ligava ao extremo atraso colonial brasileiro. Deu-se início ao que chamamos de “Milagre brasileiro”.

Eles que disseram que São Luís era a “Quarta cidade do Brasil”

E que milagre foi esse?

O Brasil tem apenas um pouco mais de um século que passou a “bombar”. Na economia nenhum país cresceu tanto em um século, quanto o Brasil. Abriram-se as portas para um novo momento. Antes disto não éramos muito diferentes do Brasil colônia. Foi a abertura e o impulso estrangeiro que permitiram o desenvolvimento do agronegócio, o incremento da indústria e uma melhora na qualidade de vida dos nacionais, pois até então a expectativa média de vida do brasileiro não chegava aos 40 anos. Este momento aconteceu muito mais por interesse político que por generosidade dos governantes da República. Com o intuito de afastar o “fantasma” da monarquia que ainda rondava e ameaçava o poder de militares e civis, que estes racionalizaram e divulgaram a grande contribuição estrangeira no Brasil. Foi a partir de então que a coletividade passou a conhecer melhor a França Antarctica no Rio de Janeiro, o Brasil Holandês no leste brasileiro, o Rifoles no Rio Grande do Norte, a Espanha em Salvador e a França Equinocial no Maranhão. Estes períodos são pródigos em ganhos materiais e, principalmente, intelectuais, pois foram estes povos os que trouxeram o melhor legado, que é o conhecimento. Foram estes que mapearam o território, escreveram sobre a fauna, flora, além do povo com sua língua nativa, usos e costumes. 

Há correntes que defendem que São Luís não foi fundada por franceses?

A ganância sempre usará alguns brasileiros para conquistar a riqueza dos próprios brasileiros. Da mesma forma que o apóstolo Paulo, no livro de Atos, perseguia os cristãos, achando que estava agradando a Deus, assim aconteceu com alguns professores das nossas universidades, que se deixaram levar por alguns argumentos bem colocados, mas que objetivam destruir os pequenos focos da presença estrangeira no Brasil, pois é assim que a ganância político-econômica empobrece o brasileiro. Nos afastar de tudo que diz respeito ao estrangeiro foi a estratégia usada para empobrecer intelectualmente os nacionais e, em seguida, precarizá-los. 

A fundação francesa de São Luís e a Atenas são vítimas deste processo canino de empobrecimento intelectual implantado Brasil afora pelos interesses escusos, sendo que tudo isto precede a espoliação material. O último capítulo deste caminho do matadouro é a favelização, infelizmente. Por tudo isto é mais que importante dar valor à nossa fundação, pois foi o primeiro traço oficial de civilização nesta terça parte do Brasil, quando o último território ocupado polos portugueses era Natal, com 400 habitantes. De lá até o Amazonas era tudo abandonado, sendo São Luís a primeira cidade implantada no Brasil setentrional.  

Então, a contestação procede ou não?

Eu insisto na minha pergunta, que ninguém conseguiu responder: qual cidade brasileira fundada no Brasil nos anos mil e quinhentos e mil e seiscentos teve fundação mais substancial que a de São Luís? A nossa capital no dia 8 de setembro de 1612 contava com três fortes, dois deles já existiam desde o final dos mil e quinhentos, e uma estrutura de cidade nascente: casas de um e dois andares, edifícios públicos, portos, convento, escola, igreja, capela, serraria, serralheria, estaleiro, fontes de abastecimento de água, e uma cidadela que compreendia toda a praça do Forte, atual praça Pedro II. 

Além de diversos profissionais, muitos deles ligados a construção, a ciência e a moda, como sapateiros, tecelões, fiadores, costureiros, médico, tabelião, astrólogos e até donzelas, o que mostra o caráter de povoamento do Maranhão. Nenhuma capital teve isso. 

O que você entende que precisa ser feito para escaparmos da precarização que você falou?

Não precisamos fazer nada de excepcional, apenas entender que viramos marionetes nas mãos dos interesses diversos. Precisamos alargar a nossa visão e deixar de morder iscas que nos diminuem como pessoas e como civilização. As coisas estão ficando mais caras que antes, os impostos mais extorsivos e os serviços prestados cada vez piores. Antes, discutíamos o mérito, hoje o que vale são as versões, o fato em si não existe mais. É o mundo da pós-verdade. Abandonamos a educação e a luta. Trocamos a luta pela militância. Nossos antepassados lutavam por ganhos e interesses coletivos. 

A sociedade atual faz militância, que divide a população, dá o poder para um dos extremos, enquanto a razão e a ciência são retirados da pauta, ficam espremidos ou em segundo plano. Em outros séculos, o Maranhão era rico porque estava ligado diretamente ao estrangeiro. 

Você acredita que os maranhenses de hoje podem voltar a ser tão visionários e empreendedores quanto os de ontem?

Eu estava recentemente no plenário da Assembléia Legislativa do Estado, quando comentei com um colega presidente de uma Academia de Letras, que em outros tempos o parlamento do município e do estado tinham muitos homens das letras, a exemplo de José Sarney, Benedito Buzar, Salvio Dino, José Jorge Leite Soares e tantos outros. Eu ainda acredito que o cosmo pode nos presentear com um Haroldo Tavares da vida, que empreendia sem se preocupar com o voto e, com isto, planejou e executou uma cidade para as gerações futuras. 

O parlamento não pode prescindir dos homens deste porte, ligados às letras, de visão larga e alma generosa. O Maranhão, felizmente, está dando bons passos que podem nos colocar no rumo do resgate histórico e cultural. A fundação da Academia Ludovicense de Letras, em 2013, a criação da livraria AMEI, uma maior atuação da Federação das Academias de Letras do Estado do Maranhão criando novas academias, são bons sinais. Precisamos resgatar as letras, a nossa história, a Atenas maranhense, a França Equinocial, a Aliança Francesa de São Luís e o protagonismo de outras épocas, quando colonizávamos, éramos um estado rico e São Luís “A cidadezinha dos palácios de porcelana” era a Meca para onde todos afluíam. São Luís nasceu para brilhar e conquistar o mundo.

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