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Mortes naturais fora de hospitais crescem 139,83% no Maranhão durante pandemia, apontam cartórios

Medo de procurar assistência médica e contrair Covid-19, dificuldade de acesso a serviços de saúde e complicações pós-alta hospitalar podem explicar o aumento, aponta infectologista

O crescimento desse tipo de ocorrência em casa, clínicas e UPAs disparou nos meses de pandemia em comparação ao mesmo período de 2019. Foto: Divulgação

Com as atividades econômicas quase totalmente retomadas – apenas cinemas, parques e instituições de ensino permanecem com funcionamento suspenso -, o Maranhão apresenta hoje uma alta expressiva nos registros de mortes por causas naturais fora de hospitais.

De acordo com os registros do Portal da Transparência dos cartórios de Registro Civil, plataforma desenvolvida pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), o crescimento desse tipo de ocorrência em casa, clínicas e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) disparou nos meses de pandemia em comparação ao mesmo período de 2019: o aumento foi de 139,83% no estado.

Desde o dia 21 de março, quando se iniciou o período de isolamento social no Maranhão, até a última quinta-feira (16), 2.871 pessoas morreram fora de hospitais. O número é o resultado da soma de óbitos domiciliares, em clínicas e UPAs, em 18 municípios maranhenses. São eles: Açailândia, Bacabal, Barra do Corda, Caxias, Chapadinha, Codó, Coelho Neto, Coroatá, Grajaú, Imperatriz, Paço do Lumiar, Pedreiras, Presidente Dutra, Santa Inês, Santa Luzia, São José de Ribamar, São Luís e Timon.

Das 2.871 mortes, 108 foram diagnosticadas com o novo coronavírus. Excetuando essa porção, são 2.763 óbitos, número 139,83% maior do que as 1.976 mortes no mesmo período do ano passado. Em São Luís, a porcentagem é de 188,36%. Na capital maranhense, foram 542 óbitos fora do hospital, sendo 24 por Covid-19, contra 275 em 2019, segundo o Portal da Transparência do Registro Civil.

Possível causa para o aumento

Para a infectologista Maria dos Remédios Freitas Carvalho Branco, mestre em Saúde e Ambiente, e doutora em Medicina Tropical e Saúde Internacional, as mortes fora de hospitais podem ter aumentado pelo fato de alguns pacientes subestimarem a gravidade da Covid-19, confusos pela própria recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), de que só devem procurar hospitais em caso de insuficiência respiratória grave.

“Assim, os pacientes com quadros leves ficam sem orientação. A recomendação da OMS se baseia no fato de que a rede de saúde não tem condições de atender a toda a demanda em tempos de pandemia. Entretanto, municípios que estruturaram a atenção básica para atender aos casos leves conseguiram reduzir a mortalidade por Covid-19”, apontou a infectologista.

Maria dos Remédios afirma que pacientes subestimam a gravidade da doença, confusos pela própria recomendação da Organização Mundial de Saúde.

Ignorando sinais

Outros fatores apontados por Maria dos Remédios, além da falta de procura de atendimento em casos de falta de ar leve, são a dificuldade de acesso de boa parte da população aos serviços de saúde; a estrutura deficiente em unidades de saúde, como a existência de tubulações de oxigênio velhas; e, ainda, o receio de contaminação hospitalar por parte de muita gente que evitou buscar auxílio médico, mesmo precisando.

Segundo a médica, o fato de muitas pessoas com outras enfermidades evitarem ir aos centros médicos pelo medo da contaminação pode impactar nas mortes dentro de casa.

“Há casos de o paciente ter extenso comprometimento pulmonar, mas sentir apenas uma leve falta de ar. Isso faz com que muitas pessoas cheguem muito graves ao hospital, já sem chances de ressuscitação. O medo de pegar Covid-19 durante o atendimento no hospital é outra questão. E há a situação de que a maioria das cidades do Maranhão não tem leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI)”, detalhou a especialista.

De acordo com a infectologista, somente em um determinado dia de abril, em São Luís, morreram 13 pacientes de Covid-19, na mesma UPA. “Provavelmente, foi o problema com o suporte de oxigênio. Muitas vezes, a tubulação de oxigênio da unidade de saúde é antiga, sem manutenção adequada, levando a perdas de oxigênio no trajeto e, consequentemente, oxigênio insuficiente ao paciente, especialmente se várias pessoas estiverem utilizando oxigênio ao mesmo tempo”, frisou Maria dos Remédios.

Alta de pacientes com Covid-19

Consultada pelo Portal O Imparcial se as pessoas estariam recebendo alta de forma prematura, e indo para casa, e de repente morrendo em casa, a infectologista respondeu que as complicações do coronavírus também podem acontecer depois da alta. “Por exemplo, pode acontecer o tromboembolismo, levando à insuficiência respiratória ou a um acidente vascular encefálico. De todo modo, os óbitos no domicílio podem estar relacionados à Covid-19. Uma pessoa pode morrer de pneumonia ou insuficiência respiratória, mas, na verdade, ser coronavírus”, ressaltou a médica.

A Secretaria de Estado da Saúde (SES) informou que, segundo o protocolo do novo coronavírus, o paciente recebe alta quando apresenta melhora clínica, sem necessidade de suplementação de oxigênio, e sem febre por 24 horas. “São observados, também, a data de início dos sintomas, assim como a data do resultado do exame diagnóstico confirmado para Covid-19. Nenhum paciente recebe alta antes dos 14 dias de isolamento obrigatório, após confirmação do diagnóstico para o novo coronavírus”, afirmou em nota a SES.

A Secretaria tocou no ponto sobre a pandemia global pelo novo coronavírus impor à sociedade uma série de medidas, que visaram a segurança da população desta grave ameaça e a redução dos impactos provocados a partir do vírus. “Dentre essas precauções, houve a significativa diminuição de pacientes em busca de serviço de saúde e a suspensão de cirurgias e consultas de rotina, embora a SES tenha mantido o atendimento aos pacientes, cuja suspensão do acompanhamento suscitasse riscos à saúde”, informou o órgão.

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