SEM PARTICIPAÇÃO

Partidos tem dificuldade em atrair mulheres para Política

O resultado do pouco interesse feminino por política pode ser observado na quantidade de mulheres que conseguem ser eventualmente eleitas

Foto: Reprodução

Por lei, cada partido ou coligação deve destinar 30% de suas candidaturas para mulheres. O problema é que tal cota quase sempre é alcançada com muitas dificuldades. A constatação é das próprias legendas partidárias, que vez ou outra apelam para a amizade para conseguir atingir a meta determinada em lei. Por não estarem tão envolvidas com o projeto do partido, as mulheres acabam perdendo ainda mais espaço, sendo usadas para evitar punições futuras às legendas.

No Maranhão, a dificuldade dos partidos para filiar mulheres e as colocarem para concorrer é evidente. O resultado do pouco interesse feminino por política pode ser observado na quantidade de mulheres que conseguem ser eventualmente eleitas.
Na Assembleia Legislativa, dos 42 deputados estaduais, apenas seis são mulheres. Esse quantitativo representa que 14% do Poder Legislativo maranhense é composto por mulheres. Na Câmara Federal, a bancada maranhense, composta por 18 parlamentares, possui somente duas deputadas federais atualmente: Eliziane Gama (PPS) e Luana Costa (PSB). A situação é semelhante na Câmara Municipal de São Luís, cujo parlamento ludovicense tem somente 9,6% das 31 cadeiras ocupadas por vereadoras.

“A participação da mulher na política brasileira ainda é muito baixa. Nós precisamos trabalhar muito para aumentar o número de mulheres ocupando espaço de poder. O PPS tem feito campanha ostensiva nesse sentido, tanto que a gente quase dobrou o número de mulheres eleitas nas últimas duas eleições. Tudo isso é fruto de trabalho interno que o partido tem feito. Convencer a mulher a participar da política é algo desafiador, pois não é só convencimento da mulher, mas também dos homens, ou seja, é convencer o pai, o filho, o esposo, que muitas vezes de forma inconsciente limita a mulher na vida pública”, analisou a deputada Eliziane Gama, que é a presidente do PPS no Maranhão.

Presidente estadual do Pros, o ex-deputado federal Gastão Vieira lamenta que ainda exista tanta dificuldade para os partidos conseguirem ter representação feminina suficiente nas eleições de outubro. “O Pros está com muita dificuldade. Os poucos convites que eu tenho feito, eu não tenho recebido respostas afirmativas. Isso vai acabar sendo quase que um pedido de amigo, um favor, mas não uma atividade política. Não vamos mentir. Não existe isso”, analisa.

Cota de 30%

A Lei 9.504, de 1997, estabelece a cota de 30% para a participação de mulheres nas eleições. Por mais que o objetivo da lei tenha sido proporcionar um espaço maior às mulheres politicamente, definir uma quantidade mínima não parece estar surtindo o efeito esperado. As próprias legendas se perguntam da necessidade de ter uma cota fixa destinada a candidatas.

A presidente do PTB Mulher no Maranhão, Emilce Campos, defende o fim da cota de 30% para mulheres nas eleições. Segundo ela, o importante seria convencê-las a participar do pleito, objetivo que passa a não ser tão fácil devido à sociedade patriarcal que ainda perdura no país.

“Acho que você não tem que estar determinando cotas. Por que essa questão de cotas para a Mulher? Eu não concordo com isso. O problema são elas mesmas que não querem. Elas ainda são daquela sociedade patriarcal que ainda são subordinadas ao marido, com medo de sair de casa e não ter com quem deixar os filhos. O nosso partido está preparado para receber as mulheres, mas falta elas quererem. Elas têm de se desprender desse mito, medo de enfrentar”, afirma Emilce.

O olhar machista que ainda envolve a atividade política no país é tido como algo que atrapalha a ascensão feminina. Por saberem que os partidos são obrigados a destinar uma cota de 30%, muitas acabam desistindo por entenderem que estão sendo usadas somente para “fazer número”.

“Existe uma dificuldade que é uma consequência do próprio olhar masculino, olhar no sentido machista, que se tem da atividade política. Não sei se está vinculada àquele sentimento de que ‘só estão me chamando para disputar porque não tem gente, não tem ninguém’. É como se a obrigação tirasse a afeição. Não há um exercício partidário de fazer com que as mulheres participem. É uma obrigação, senão o partido vai ser punido. Não sei se esse foi o melhor caminho, o de estabelecer o mínimo que você tem de registrar para ter uma maior participação das mulheres na atividade política concorrendo a cargos eletivos”, comenta Gastão Vieira, presidente estadual do Pros.

Partidos

Procurado pela reportagem, o presidente estadual do PT, Augusto Lobato, defendeu a participação maior das mulheres nas eleições, mas revela que, dentro de sua legenda, muitas preferem a “luta social” ao invés de um mandato.

“Temos a compreensão de que não tem que ser só pelo direito da cota de gênero. Não pode ser por decreto. Muitas companheiras estão em movimentos sociais e acham que o papel parlamentar não é o fundamental, mas temos avançado internamente. A mulher tem que ter seu espaço político, tem de ser respeitada, mas não por questão de cota de 30% às vagas nas eleições. A sociedade é machista e não dá espaço para as mulheres. Por isso que está tendo essa dificuldade. Somos um país, um estado de machistas. Não basta ter a cota. Não podemos usar as mulheres só para cumprir tabela. Lugar de mulher é na política”, defendeu Lobato.

O PDT, por exemplo, adotou o movimento Ação da Mulher Trabalhista para tentar fortalecer a atividade feminina dentro do partido. O presidente estadual da legenda, deputado federal Weverton Rocha, disse estar bastante confiante com os resultados das urnas em 2018.

“Acredito que em 2018 teremos um aumento nessa bancada feminina do PDT maranhense, porque além da Valéria Macedo, que deve ser reeleita, temos a Cleide Coutinho, que se filiou ao partido no fim de semana e é um nome de peso, e muitas outras companheiras de partido que são nomes com grandes chances nas urnas. Agora é importante que um número cada vez maior de mulheres se interessem por política e tragam suas experiências para construir, por meio do Legislativo e do Executivo, uma sociedade melhor”, afirmou.

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