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O vazamento de um áudio gravado pelo deputado federal Zé Carlos (PT) expôs que o clima interno do Partido dos Trabalhadores (PT) está longe de ser tranquilo, principalmente devido às indefinições que a legenda lida diariamente sobre o seu papel nas eleições majoritárias de outubro. No áudio, Zé Carlos critica a forma como a aliança entre PT e PCdoB está acontecendo. Para ele, a aliança está sendo benéfica apenas para os comunistas, pois está longe de ser considerada “uma via de mão dupla” e, por isso, propõe uma discussão urgente sobre a possibilidade do PT lançar uma candidatura própria ao governo do estado.

Zé Carlos, inclusive, cita Raimundo Monteiro como possível candidato ao governo. No áudio que circula em redes sociais, o parlamentar afirma que sua posição foi motivada porque o governo trata o PT “num patamar inferior”. Prova disso, segundo o petista, seria o fato de que as lideranças do PT não conseguem dialogar com o governador Flávio Dino (PCdoB) há meses, enquanto outras legendas se reúnem com bastante frequência com o governo.

“O nosso presidente Augusto Lobato tem se esforçado para conseguir uma reunião entre o governador Flávio Dino e a direção do PT, entretanto, estamos sendo embalados. Disseram que fariam uma reunião em novembro. Essa reunião passou para dezembro e depois para janeiro, já estamos em fevereiro e nada. Digo, sem medo de errar: essa reunião nunca vai acontecer, pois o governo pensa que tem o comando do PT no Maranhão”, afirma o deputado.

Procurado pela reportagem de O Imparcial, Zé Carlos confirmou a veracidade da gravação feita por ele, mas lamentou o vazamento do áudio. Segundo o petista, o áudio realmente expressa sua opinião e da maioria da base petista. O deputado, inclusive, quer que a aliança entre PT e PCdoB seja rediscutida o quanto antes.

“Isso era um áudio para tratar com a militância do PT. Isso não era um áudio para sair externamente. É uma situação que tem que ser debatida pela base do PT. Expressei a minha opinião para a base do PT discutir. Não é o momento ainda de tratar para fora, porque é uma opinião pessoal minha, não é uma opinião do partido. Eu sei que é referendada pela grande maioria da nossa base. O que precisamos é rediscutir essa questão no âmbito do Diretório do PT, que é quem decide. O PT, ao contrário do que estão dizendo, não é o presidente que fala pelo PT não. Quem fala pelo PT é a sua militância, sua base. O presidente é porta-voz do partido. É uma questão interna ainda que, infelizmente, não sei por que saiu para a área externa do partido, porque é uma coisa que não é uma posição do partido. É uma posição do parlamentar, uma posição que eu defendo e vou continuar defendendo”, disse Zé Carlos a O Imparcial.

Procurado pela reportagem de O Imparcial, o presidente estadual do PT, Augusto Lobato, mostrou-se surpreso com o posicionamento do deputado federal Zé Carlos apesar de considerar “legítima” sua manifestação.

“Qualquer filiado pode se expressar, mas ele não fala em nome do PT. Quem fala em nome do PT é o presidente do partido. Ele tem todo o direito, legitimidade, porque o nosso partido é democrático. É um deputado que a gente tem muito respeito por ele e ele tem que defender essa posição lá no encontro do partido. Ele não precisa estar antecipando posição política. Respeito a opinião dele, mas tem uma resolução do congresso que me elegeu e que diz que nós apoiamos, por unanimidade, o governador Flávio Dino, e vamos pleitear a participação na chapa majoritária. É legítimo porque os filiados têm suas posições. Para mim, foi uma surpresa ele defender uma candidatura própria, porque imaginei que ele estava alinhado por ter me apoiado para presidente do PT, mas ele tem todo direito de defender a candidatura própria”, afirmou Augusto Lobato.

Base incomodada?

Ao ser questionado pela reportagem sobre se a base petista tem o mesmo pensamento de que é preciso discutir a aliança com o PCdoB, o deputado Zé Carlos afirma que sim. Na visão do parlamentar, uma aliança que não seja uma via de mão dupla, como esta que está acontecendo entre PT e PCdoB, tem incomodado boa parte dos petistas.

“A base do PT quer que seja discutido. A base do PT está incomodada com esta situação. E não adianta o presidente sair dizendo que é quem fala pelo partido porque está camuflando uma verdade. A base do PT está incomodada. É só perguntar para quem está no nosso grupo para saber como foi a reação”, explicou Zé Carlos. O presidente estadual do Partido dos Trabalhadores, Augusto Lobato, negou o “incômodo” interno. Segundo Lobato, o PT vai seguir a resolução aprovada quando foi eleito, pelo menos até a realização do Congresso Estadual. A resolução em questão garante apoio à reeleição do governador Flávio Dino.

“Nunca na história o PT apoiou o governador Flávio Dino. A primeira possibilidade é agora. E o que está incomodando é o enfrentamento que nós fazemos ao Grupo Sarney. Temos uma posição muito clara dentro do PT de apoio ao governador Flávio. O PT participa com três secretarias do governo. O congresso vai definir e é nesse congresso que o PT vai tomar sua posição, porque é o congresso que vai definir a nossa posição oficial. Mas, até essa nova posição, tem uma posição que é a que me elegeu presidente do partido. Temos que acatar essa resolução”, disse Lobato.

Rumos do PT

A atual diretoria do PT defende a tese de que o partido deve apoiar o governador Flávio Dino e, em troca, pleitear um lugar na chapa majoritária. Porém, a legenda abriu espaço para outras teses. De acordo com o presidente Augusto Lobato, o PT possui pré-candidatos para o Senado e para o governo do estado. Para o Senado, Nonato Chocolate e Márcio Jardim foram os primeiros a indicar seus respectivos nomes. Já para o governo, o nome de Raimundo Monteiro será posto no debate interno.

“Vamos acatar as inscrições que são feitas dentro do partido tanto para governador, quanto para senador, e vamos fazer um debate. Eu tenho uma posição, mas vou respeitar a decisão do nosso partido. Vamos enfrentar o debate interno no PT. Vamos fazer esse debate interno no partido, depois vamos fazer o encontro e o que for deliberado nesse encontro vai ser a decisão, que não terá interferência da presidência e nem do Diretório Nacional”, explicou Lobato.

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