OPINIÃO

Como dono do “Mar”, aqui ele pode tudo

O que Sarney pretende agora com título de São Luís é apenas, por enquanto, o fomento de especulações

Foto: Reprodução

O ano de 1990 foi tão importante para o já ex-presidente José Sarney quanto o de 1965, quando conseguiu ser eleito governador do Maranhão, e o de 1985, ao ser empossado na Presidência da República, após a internação e morte de Tancredo Neves. Em 1990, com 60 anos, Sarney deixou o Palácio do Planalto, com a popularidade aos frangalhos, e foi para um retiro intelectual na Ilha de Curupu, de sua propriedade, um pequeno paraíso dentro da Baía de São José de Ribamar. Seria o refúgio para período sabático, durante o qual faria leituras e escreveria memórias.

Porém, naquele mês de abril, também de seu aniversário (dia 24), Sarney foi aconselhado pelos amigos Saulo Ramos, Antônio Carlos Magalhães, Roberto Marinho (todos já falecidos) e incentivado pela turma sarneísta do Maranhão, a retornar à política. Ele não pensou duas vezes. Adiou o descanso e se preparou para disputar a eleição de senador, com a presteza e ousadia de Ricardo Murad, cuidando da parte burocrática e cartorial. Porém, o PMDB, sob o comando de Cid Carvalho, negou legenda a Sarney.

Sem opção no Maranhão, Sarney não se fez de rogado. Decidiu se filiar no Amapá, na primeira eleição do ex-território como Estado, cuja autonomia havia sido dada pelo próprio Sarney na Carta de 1988. Lá, ele foi acolhido pelo maranhense Novaes Bastos da Costa, primeiro governador, nomeado por Sarney. Com três vagas disponíveis, foi um passeio para o ex-presidente. Depois, o próprio Sarney contou a aventura. “Percebi que era preciso voltar à política. A situação no Maranhão já tinha degringolado e a nacional também merecia atenção. Além disso, os amigos, do tempo de Presidência, ficaram órfãos. Como o Amapá pertencera ao Maranhão, eu não me senti um estranho lá”.

Agora, depois de ter sido eleito três vezes senador pelo Amapá, Sarney está de volta com o título eleitoral, da 1ª Zona, para votar no Maranhão, estado que lhe deu o triunfo político e inspiração para os livros Brejal dos Guajás – uma ficção política que retrata tutano do coronelismo renitente –, Norte das Águas e o Dono do Mar. O que Sarney pretende agora com título de São Luís é apenas, por enquanto, o fomento de especulações. Se vai coordenar a campanha da filha Roseana; se pode ser candidato a governador, ou mesmo ao Senado, tirando Zequinha Sarney da jogada, para disputar mais um mandato na Câmara. Afinal, como dono do Maranhão, por aqui, ele pode tudo.

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