ENTREVISTA

“Sou pedrista”, afirma Pedro Fernandes

Em entrevista exclusiva a O Imparcial, deputado Pedro Fernandes fala sobre veto de Sarney, da aliança com Flávio Dino e defende corrente política independente

Reprodução

Prestes a completar 69 anos, o deputado federal Pedro Fernandes (PTB) poderia ter sido ministro do Trabalho, mas, após receber o “sim” do presidente Michel Temer (MDB), recebeu um “não” velado do ex-presidente José Sarney (MDB). O veto a seu nome veio justamente no momento em que Fernandes está bem mais próximo do governador Flávio Dino (PCdoB). Sarney nunca confirmou ter agido nos bastidores contra seu ex-aliado, mas o petebista sabe que não é bem assim. Para assumir o Ministério do Trabalho, Pedro Fernandes precisaria “beijar a mão” de Sarney, mas rejeitou. Preferiu manter-se ao lado de Dino no Maranhão. Mas o deputado recusa qualquer tipo de rótulo sobre sua corrente política mesmo tendo sido secretário de Estado no governo Roseana e estar agora atrelado ao governo Dino.

“Não sou sarneísta e nem me considero dinista. Me considero pedrista. Acho que eu tenho uma corrente própria. Eu defendo os meus pontos de vista. Até para se desmistificar uma coisa: eu tenho considerações, tenho respeito pelo governador Flávio Dino, mas eu não voto de acordo com ele”, afirmou Fernandes em entrevista exclusiva ao jornal O Imparcial.

A declaração do deputado é quase um “grito de independência política”, principalmente em um ano eleitoral. Pedro Fernandes está decidido a não buscar seu sexto mandato na Câmara Federal e a dar lugar para o filho Pedro Lucas, atualmente presidente da Agência Metropolitana. Talvez, por isso, o discurso de renovação ganha força para o experiente político.

“A Roseana foi quatro vezes governadora. Ela fez a sua história. A política precisa ser renovada. Quando eu deixo de ser candidato a deputado, é porque eu estou pensando em renovação. Tem muita gente que já está na hora de ir para casa e não quer largar o osso. Tá na hora de ir para casa. Muita gente já deu o que tinha que dar. Eu vejo gente querendo ser candidato a senador com mais de 80 anos já. Pra que isso? Para se proteger, para ter foro privilegiado ou para querer trabalhar pelo Maranhão?”, comenta.

O Imparcial – Como o senhor se sente depois de “virar ministro” e ser destituído logo em seguida do cargo?

Pedro Fernandes – Tranquilo. Acho que são coisas da política. Eu compreendo muito bem e entendo que essas coisas se passam assim mesmo. A informação que eu tenho é que eu tinha sido aceito, que eu era um bom nome e que estava tudo certo para que a gente fosse nomeado. Mas o presidente do partido recebeu uma ligação do presidente Michel Temer dizendo que meu nome criava embaraços junto ao ex-presidente José Sarney. E, depois de uma série de ponderações, o Roberto [Jefferson] pedia que eu fosse até o presidente Sarney por uma recomendação do Temer para que acertasse, tirasse essas arestas. A minha colocação foi que, como eu já tinha sido indicado pelo PTB, tinha sido aceito pelo presidente, não seria bom eu ir ao presidente Sarney. O próprio Roberto Jefferson disse: ‘mas ele tá querendo que você beije a mão do Sarney’. Isso não é uma coisa muito republicana de se fazer. O Temer falou para o Roberto que devia muito ao Sarney e aí eu compreendi, entendi. Ser ministro e não poder fazer nada pelo Maranhão não dá para mim. Eu sou crítico dos ministros que não fazem nada pelo Maranhão, que ocupam os cargos e não fazem nada pelo Maranhão.

O Imparcial – Seria possível exercer o cargo de ministro mesmo “beijando a mão do Sarney”?

Pedro Fernandes – Se me colocassem, antes de levar meu nome, que haveria essa necessidade, eu até veria de uma maneira diferente. Eu não fui porque eu já havia sido indicado, já havia sido aceito. E aí eu não podia fazer isso. Eu não seria mais o ministro do PTB. Mas se o Roberto colocasse que tinha esse outro problema, eu analisaria talvez até a possibilidade de conversar. Mas depois de indicado, depois de aceito, não dava para fazer isso.

O Imparcial – Por que o senhor trocou de lado?

Pedro Fernandes – Na verdade, eu sempre fui contra. Eu comecei com Jackson Lago há muito tempo, fui até secretário do Jackson. Por eu não ter podido sair como candidato a prefeito na época, porque o PSDB me negou a legenda, eu fui apoiado pelo PSD, que recebia um “apoio” do grupo Sarney e aí fiquei sempre fazendo política ao seu lado. Mas o meu projeto político sempre foi o Maranhão. Eu nunca troco nada contra o Maranhão. Eu sempre fui respeitado no grupo, sempre os respeitei, sempre os trato bem, mas, nesse momento, o PTB está alinhado com o governo do estado.

O Imparcial – Então o senhor não se considera um sarneísta?

Pedro Fernandes – Não sou sarneísta e nem me considero dinista. Me considero pedrista. Acho que eu tenho uma corrente própria. Eu defendo os meus pontos de vista. Até para se desmistificar uma coisa: eu tenho considerações, tenho respeito pelo governador Flávio Dino, mas eu não voto de acordo com ele. Não tenho nenhuma indicação política no Maranhão.

O Imparcial – Como é a sua relação com o Sarney após o episódio do veto?

Pedro Fernandes – Aprendi muito cedo que não se deve carregar mágoas. Essa estrada é longa e mágoas são pesadas e eu não daria conta. Isso passou, não é problema. O embate político não tem esse negócio de vingança, de mágoa. Eu compreendi a situação e dar um cargo de ministro a uma pessoa que não seja de confiança deles é muito ruim para eles. Entendi isso. Eu também entendo que foi ruim para o Maranhão. Se você olhar a história do Maranhão, é o estado que tem mais empregados informais, é um estado que precisa crescer muito na área trabalhista. Eu imaginava que eu poderia ajudar muito. Eu não faria isso de tirar um ministro do Maranhão para dar um ministro para outro estado. Claro que, como ministro, não poderia fazer uma campanha contra o governo que estou servindo. Mas, ao não deixar eu ser ministro, acho que prejudicou o Maranhão.

O Imparcial – Não seria uma incoerência se o senhor se tornasse ministro de Temer apoiando o Dino?

Pedro Fernandes – Acho que não, porque se você pegar as minhas votações no Congresso, não são votações encomendadas pelo governador Dino. Nós pensamos diferente em muitas coisas. Tem uma coisa que nos une: o Maranhão. Negar que o Dino está inovando no Maranhão é negar a política. Não reconhecer que o Dino tenta mudar as práticas políticas no Maranhão é também não querer enxergar. Se ele fizer as coisas boas para o Maranhão, eu tenho que aplaudir, como também reconheço qualquer grupo que faça coisas boas. O Maranhão precisa largar de ser província política.

O Imparcial – O que é melhor: a continuidade do Dino ou o retorno de Roseana?

Pedro Fernandes – A Roseana foi quatro vezes governadora. Ela fez a sua história. A política precisa ser renovada. Quando eu deixo de ser candidato a deputado, é porque eu estou pensando em renovação. Tem muita gente que já na hora de ir para casa e não quer largar o osso. Tá na hora de ir para casa. Muita gente já deu o que tinha que dar. Eu vejo gente querendo ser candidato a senador com mais de 80 anos já. Pra que isso? Para se proteger, para ter foro privilegiado ou para querer trabalhar pelo Maranhão? Acho que está na hora do maranhense renovar. Não renovar só pela idade, mas renovar as práticas políticas.

O Imparcial – Por ter recorrido novamente à ex-governadora Roseana, o Grupo Sarney estaria em decadência?

Pedro Fernandes – Acho que não é decadência, muito pelo contrário. Você está vendo aí jovens como Adriano Sarney. Isso é renovação. É essa a renovação que eu prego. Essa renovação tem que chegar. O Adriano é um grande político.

O Imparcial – O Pedro Lucas concorrer à Câmara Federal não é um passo muito grande?

Pedro Fernandes – Eu não fui deputado estadual. Fui vereador e, de vereador, passei para deputado federal. Ser vereador é uma grande escola. Dentro do partido aqui, ele ocupa um espaço bom. Ele se torna uma liderança, e a tendência é eu ir me afastando. Ele não tem um privilégio maior por ser meu filho, mas pelo que ele representa. Hoje, ele tem todas as credenciais para ser um bom candidato a deputado federal.

O Imparcial – O que o PTB pleiteia nessa campanha junto ao governador?

Pedro Fernandes – É claro que, partindo juntos, vamos, no próximo governo, reivindicar o nosso espaço dentro do governo. Mas, hoje, nós não cobramos espaço no governo. Nós fomos convidados para participar e estamos participando intensamente. Temos de tentar eleger companheiros nossos a deputado estadual e federal. Quanto à chapa majoritária, você vê briga pelo vice, congestionamento nas vagas de senador. O PTB não está pleiteando isso.

O Imparcial – O senhor foi convidado para assumir a Casa Civil?

Pedro Fernandes – Especulou-se maldosamente para que, não sendo feito, dissessem que Flávio deixou o Pedro na chuva. Eu não estou na chuva. Eu tenho mandato e não quero sair desse mandato. Não houve essa conversa, não houve esse interesse nem por parte do governo e nem por minha parte.

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