Boston — Kylian Mbappé veste a camisa 10, mas é 100. Sem dó nem piedade dos adversários. É cem participações em gols pela seleção francesa. Mesmo quando tem tudo para ser o vilão, não deixa a torcida desapontada. Nesta quinta-feira (9/7), perdeu o primeiro pênalti depois de 15 cobranças convertidas seguidas. Não errava uma desde a eliminação nas oitavas de final da Euro-2020 contra a Suíça. Mas é fora de série. Foi dele o gol que destravou a partida ao anotar o 1 x 0. Na sequência, iniciou a jogada para o segundo, marcado por Dembelé. Resultado: 2 x 0 e classificação para a semifinal.
O maior astro da constelação francesa agora ostenta 101 participações em gols, com 64 bolas na rede e 37 assistências. É o único a alcançar a marca centenária pela seleção bicampeã mundial. A comemoração desta quinta foi a oitava nesta edição da Copa do Mundo. Agora, divide a artilharia com Lionel Messi. Os ex-companheiros de Paris Saint-Germain travam, também, uma disputa pelo status de goleador máximo do torneio da Fifa. O argentino tem 21, enquanto o craque dos Bleus coleciona 20.
O gol de Mbappé começou a desmontar uma das marcas mais impressionantes desta Copa. Marrocos era a única seleção africana a permanecer invicta nos cinco primeiros jogos de duas edições consecutivas do Mundial, feito alcançado em 2022 e repetido em 2026. Curiosamente, o obstáculo voltou a ser o mesmo. Assim como na semifinal do Catar, a França encerrou a campanha dos Leões do Atlas justamente na sexta partida do torneio.
A França está classificada para a terceira semifinal consecutiva de Copa do Mundo, depois de 2018 e 2022. Apenas outras duas seleções emplacaram três aparições entre as quatro melhores do torneio: Alemanha (4 vezes entre 2002 e 2014 e 3 vezes entre 1982 e 1990) e Brasil (3 vezes entre 1994 e 2002). Agora, os Bleus aguardam Espanha o Bélgica, adversárias nesta sexta-feira (10/7), às 16h, em Los Angeles.
Didier Deschamps é um técnico moderno. Daqueles que não abrem mão de atividades variadas para preparar a melhor seleção do planeta para diferentes cenários de jogo. Uma das principais é o treino em campo reduzido, utilizado tanto para aperfeiçoar a saída de bola sob pressão quanto para sufocar o adversário no campo de ataque. O primeiro tempo contra Marrocos teve exatamente esse ritmo. O gol não saiu, mas a França empurrou o rival para trás.
O 4-2-3-1 dos Bleus, com apenas Mbappé como referência, transformava-se em um 2-3-5 quando a equipe tinha a posse. Saliba e Upamecano atuavam praticamente na entrada da área marroquina, sustentando a pressão enquanto os laterais avançavam e os homens de frente ocupavam os últimos metros do campo. A sensação era de que o gol sairia a qualquer momento, como tem sido para os franceses nesta Copa do Mundo.
O roteiro fazia sentido nas mãos de Didier Deschamps. O comandante francês chegava à 25ª partida em Copas do Mundo, igualando o alemão Helmut Schön como o treinador com mais jogos à frente de uma seleção no torneio. As 19 vitórias já o colocavam sozinho no topo da lista de técnicos mais vencedores da história dos Mundiais. A França em campo era, mais uma vez, o reflexo do treinador que transformou regularidade em legado.
Não tem sido preciso muito para vencer. Enquanto outros candidatos sofreram até para superar os 16 avos de final, a França passou com autoridade pela Suécia. Diante do Paraguai, encontrou mais resistência, mas também foi superior durante quase toda a partida.
A superioridade também apareceu nos números. Foram 13 finalizações francesas contra apenas uma marroquina, três defesas de Bounou e um pênalti desperdiçado por Mbappé aos 27 minutos. Até nisso o camisa 10 francês imitou Lionel Messi. Os dois travam uma disputa particular pela artilharia desta Copa do Mundo — e também pelo posto de maior goleador da história do torneio. O argentino já havia desperdiçado duas cobranças, diante de Áustria e Egito. Mbappé entrou para a mesma estatística.
Mas a missão de Mbappé na marca da cal estava longe de ser simples. Do outro lado havia um especialista. Incluindo decisões por pênaltis, Bounou havia sofrido apenas dois gols nas nove cobranças que enfrentara em Copas do Mundo. Defendeu quatro e ainda viu outros três adversários errarem o alvo. O camisa 10 francês ampliou a coleção de milagres do goleiro marroquino. Apenas por alguns minutos.
Lucas Digne ainda acertou o travessão em um chute de longa distância, enquanto Marrocos só ameaçou em uma cobrança de falta de Hakimi. As 12 faltas cometidas antes do intervalo reforçaram a impressão de um duelo jogado na intensidade máxima, exatamente como costuma acontecer nos treinos em campo reduzido idealizados por Didier Deschamps.
Estava difícil para Mbappé. Marrocos aprendeu a lição do Paraguai. Se teve liberdade no primeiro tempo, o camisa 10 francês passou a conviver com uma perseguição quase individual depois do intervalo. Em algumas jogadas, era engolido por dois, três e até cinco marcadores. Quando o onipresente Olise enfim encontrou uma brecha com uma bola enfiada na diagonal esquerda, o fora de série dos Bleus isolou. É raro, mas acontece.
Do outro lado, outra joia chamava a atenção. Ayyoub Bouaddi, o meio-campista de 18 anos disputado por França e Marrocos até poucas semanas antes da Copa, escrevia mais um capítulo precoce da carreira. Titular nas quartas de final, tornou-se o segundo jogador mais jovem da história a iniciar uma partida dessa fase em Mundiais, aos 18 anos e 280 dias. Só Pelé, com 17 anos e 239 dias diante do País de Gales em 1958, era mais novo. Formado no futebol francês e cobiçado pelos Bleus, Bouaddi escolheu defender a terra dos pais. O destino quis que o recorde viesse justamente diante do país que tentou convencê-lo a ficar.
Enquanto isso, Mbappé entrou em campo para disputar a 20ª partida em Copas do Mundo, igualando Hugo Lloris como o francês com mais jogos na história da competição. Aos 27 anos, o camisa 10 coleciona marcas reservadas a lendas do torneio. Faltava apenas deixar a assinatura em mais uma tarde de classificação.
Mas a França versão 2026 é inabalável. Tem frieza para rodar a bola e não se acua diante dos erros. Mbappé precisou de apenas 15 minutos do segundo tempo para calibrar o pé. Depois de um domínio primoroso, Doué encontrou o camisa 10 na diagonal esquerda. O maior craque da companhia dominou na entrada da área e, dentro de um cubículo de espaço, chapou colocado, no limite do alcance de Bounou. Era o 1 x 0 que amadurecia desde o primeiro tempo.
A França encontrava dificuldade para concluir de dentro da área. Problema? Nenhum. Na terra do futebol da bola oval, os kickers resolveram aparecer. Atual melhor do mundo pelo Paris Saint-Germain, Dembélé acelerou pelo meio, ajeitou para a perna direita e bateu rasteiro: tiro certeiro. Bounou se esticou, mas já havia gastado a cota de milagres ao defender o pênalti de Mbappé.
Nos minutos finais, marroquinos não tiveram outro caminho além de se lançarem ao campo adversário. Entretanto, o equilíbrio e a maturidade francesa para se retrancar mantiveram o placar por 2 x 0 e asseguraram a vitória tranquila.
*Correio Braziliense